União Europeia

Schulz quer referendo para criar Estados Unidos da Europa até 2025 — e quem for contra sai

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O líder do SPD quer referendar a ideia dentro de oito anos e diz que os países que votarem contra saem "automaticamente" da UE. A CDU de Merkel, com quem pode fazer coligação, criticou-o.

Antes de ser líder do SPD, Martin Schulz foi presidente do Parlamento Europeu

FREDERICK FLORIN/AFP/Getty Images

Num discurso onde deixou as condições dos sociais-democratas do SPD para aceitarem entrar em negociações para formar uma coligação governativa com a CDU, de Angela Merkel, Martin Schulz surpreendeu ao dizer que entre esse leque estava a criação de uns “Estados Unidos da Europa” até 2025. E acrescenta: quem não alinhar, sai “automaticamente” da União Europeia.

“Quero um tratado constitucional para criar uma Europa federal”, disse Martin Schulz perante 600 delegados do SPD, que se juntaram em Berlim para o congresso anual dos social-democratas.D epois, quando partilhou essa ideia na sua conta de Twitter, usou mesmo a expressão que agora está a ser alvo de críticas: “Quero um novo tratado constitucional para estabelecer os Estados Unidos da Europa. A Europa não é nenhuma ameaça para os seus Estados-membros, mas um acrescento benéfico”.

Depois, há ainda a segunda parte, que o líder dos sociais-democratas e ex-presidente do Parlamento Europeu referiu tanto no seu discurso como na sua conta de Twitter. “O tratado deve ser redigido por uma convenção em colaboração próxima com a sociedade civil e com o povo. O resultado final deve depois ser submetido a todos os Estados-membros”, disse. E, depois, a parte polémica: “Qualquer Estado que não ratificar o tratado sairá automaticamente da União Europeia”.

Mais tarde, em declarações à Deutsche Welle, Martin Schulz voltou a falar sobre o tema. “[Devemos] discutir, especialmente depois do Brexit, como é que os restantes 27 membros da UE podem melhorar a base de cooperação estabelecida no Tratado de Lisboa, que é visivelmente insuficiente para resolver muitos dos problemas que temos internamente e na área das relações internacionais. É isso que eu quero dizer com os Estados Unidos da Europa”, disse. Depois, sublinhou: “Não seria uma espécie de Estados Unidos da América em solo europeu”.

Estas palavras surgem no momento em que os sociais-democratas são a única esperança dos conservadores da CDU, de Angela Merkel, poderem formar um governo com maioria absoluta. Depois de ter vencido as eleições de 24 de setembro com uma maioria simples, Angela Merkel procurou formar uma coligação que abrangesse outros dois partidos de menor dimensão: os Verdes e os Liberais.

A coligação à “jamaicana”, assim conhecida porque as cores dos três partidos fazem lembrar a bandeira da Jamaica, acabou por falhar, quando os Liberais decidiram levantar-se da mesa de negociações em novembro. Assim, a solução de uma grande coligação voltou ao campo das possibilidades — algo que, durante a campanha eleitoral, foi rejeitado pelo SPD, que perdeu votos e popularidade desde que, em 2013, foi parceiro minoritário no terceiro mandato de Angela Merkel.

À beira de negociações com o SPD, conservadores criticam a proposta de Schulz

Porém, em vésperas de negociações entre o SPD e a CDU, as declarações de Martin Schulz foram mal recebidas entre os conservadores. Embora tenha recusado comentar diretamente as afirmações do líder dos sociais-democratas, a chanceler Angela Merkel disse que a UE deve preocupar-se com as suas “fraquezas” e reforçar a sua “capacidade para agir”.

“Esta capacidade para agir deve estar no topo das prioridades, em vez de definir um objetivo, seja lá como cada um prefere descrevê-lo”, disse, segundo o Politico, numa alusão às declarações de Martins Schulz. Algo que repetiu: “É por isso que estou concentrada em dizer que, até 2025, temos de ter uma capacidade mais forte de segurança e uma cooperação mais fortes nos problemas que referi”.

Depois das declarações de Martin Schulz, Angela Merkel preferiu dizer que a Europa deve preocupar-se com as suas “fraquezas” e melhorar a “capacidade para agir”

Além de Angela Merkel, outras personalidades da CDU criticaram a proposta de Martin Schulz. Alexander Dobrindt, um dos deputados mais destacados daquele partido, acusou o ex-presidente do Parlamento europeu de ser um “europeísta radical”. “Uma pessoa que quer criar uns Estados Unidos da Europa até 2025, que quer dissolver estados-nação nos próximos sete anos, e que quer atirar para fora qualquer um deles que não se submetam para os dictames da UE, só podemos dizer que é um europeísta radical”, disse aquele deputado, que até outubro foi ministro do governo de gestão com os sociais-democratas.

Outra vez foi crítica foi a de Volker Kauder, líder da bancada parlamentar da CDU. “A proposta iria pôr em causa um esforço de união que é único da história do mundo por que certamente a maioria dos estados não quereria fazer parte da criação de uns estados unidos”, disse.

Também o chefe de gabinete de Angela Merkel e sucessor temporário de Wolfgang Schäuble à frente do Ministério das Finanças, o conservador Peter Altmaier, criticou Martin Schulz. “O debate sobre se a Europa deve ser um Estado federal, uma confederação ou uns estados unidos é para ser feito por académicos e jornalistas e não pela política externa da Alemanha”, disse. Ainda assim, comentou a ideia do líder do SPD: “Os Estados Unidos da Europa iriam transferir a soberania para Bruxelas e não haveria uma maioria a favor disso em muitos estados da UE”.

Ainda assim, a nível europeu, Martini Schulz recebeu o elogio de uma das caras mais conhecidas de Bruxelas: o líder do grupo parlamentar ALDE (Aliança dos Liberais Democratas da Europa), o belga Guy Verhofstadt. “Caro, Martin Schulz, concordo plenamente. Esse até foi o título do meu primeiro livro”, escreveu, para depois partilhar uma imagem de uma obra intitulada “Os Estados Unidos da Europa”.

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