Pouco mais de um ano depois de Donald Trump ter vencido as eleições que fizeram dele Presidente dos EUA, o The New York Times falou com várias pessoas que acompanham o seu dia a dia, que o descrevem agora como um homem menos impulsivo, fruto de algumas mudanças na sua equipa. Ainda assim, há hábitos que ainda mantém — entre eles, estão entre quatro a oito horas por dia com a televisão ligada, várias Coca-Cola Light ao longo do dia e um vontade (quase incontrolável) de disparar contra os seus rivais no Twitter.

Segundo a reportagem do The New York Times — que Donald Trump descreve várias vezes como um jornal “falhado” e parte dos media que propagam “fake news” —, o dia do Presidente dos EUA começa às 5h30 de cada manhã, hora a que acorda para, pouco tempo depois, ligar a televisão. “Vê as notícias na CNN, passa o ‘Fox & Friends’ [programa da conservadora Fox News] para conforto e ideias, e às vezes vê o ‘Morning Joe’ da MSNBC [canal tendencialmente liberal] porque, suspeitam os seus amigos, o empolga para o dia que se segue”, lê-se naquela reportagem.

Segue-se depois um momento em que Donald Trump pega no seu telemóvel, um iPhone, para escrever tweets em reação às notícias mais recentes ou, outras vezes, para ele próprio ser notícia. Enquanto isso, a televisão está ligada ao fundo — segundo fontes disseram ao The New York Times, Donald Trump deixa-a ligada entre quatro a oito horas por dia —, às vezes sem som. Quando não está a ver um programa, deixa-o a gravar, para mais tarde. Além de Donald Trump, só a equipa técnica tem direito a mexer no comando.

Estes são hábitos antigos de Donald Trump, que ainda antes de ser candidato à presidência dos EUA era conhecido pelos seus posts no Twitter e por participar frequentemente em programas de televisão, fosse presencialmente em estúdio ou de forma espontânea, através de uma chamada. Porém, aquilo que a reportagem do The New York Times também descreve é uma ligeira mudança de atitude em Donald Trump, que hoje demonstra menos impulsividade do que nos seus primeiros meses como Presidente. Desta forma, não foi só Donald Trump que mudou a Casa Branca — foi também a Casa Branca que o mudou, mesmo que de forma mais ligeira.

“Ele acredita verdadeiramente que a esquerda liberal e os media querem destrui-lo. E ele chegou onde chegou a dar luta e a bater em quem lhe bate”, disse Lindsew Graham, senador republicano da Carolina do Sul que, apesar de ser do mesmo partido do Presidente, nem sempre está do seu lado. “O problema com que ele terá de lidar é que ha uma diferença entre ser candidato e ser presidente. É preciso encontrar o sítio certo entre ser um lutador e ser presidente.”

Na reportagem do The New York Times, o chefe de gabinete de Donald Trump, John F. Kelly, é apontado como o responsável da faceta menos impulsiva do Presidente dos EUA

Nessa busca pelo “sítio certo” entre uma coisa e outra, tem sido essencial o trabalho de John F. Kelly, ex-general e atual chefe de gabinete de Donald Trump. Desde que John F. Kelly sucedeu a Reince Priebus, que se demitiu em desagrado a meio de um turbilhão de despedimentos e nomeações na Casa Branca, que o ambiente em torno de Donald Trump na Casa Branca tem mudado. Ao contrário daquilo que acontecia nos primeiros meses, a porta da Sala Oval já não é um vai-vem de entradas e saídas, e o Presidente tem agora reuniões com menos pessoas. A informação que lhe chega, nomeadamente os recortes de imprensa, é criteriosamente controlada por John F. Kelly — que segundo o The New York Times abriu um inquérito interno quando chegou às mãos de Donald Trump um artigo que não tinha passado pelo seu crivo. Além disso, o atual chefe de gabinete é a favor de que o dia de trabalho começa cedo para Donald Trump. “Ele tem tentado, com calma e respeito, reduzir a quantidade de tempo livre que o Presidente tem para publicar tweets inflamados ao acelerar o início do seu dia de trabalho”, escreve o The New York Times.

“Ele já ultrapassou isso.” Será?

Os resultados, dizem várias fontes ao The New York Times, embora modestos, estão à vista de todos. Até porque contrastam com o homem que, nos primeiros tempos na Casa Branca, se desdobrava em reuniões com várias pessoas, antagonizando alguns das mais importantes, perdia interesse a meio de briefings mais técnicos, tentava gerir tudo e todos à sua volta e, pelo meio, causava o caos no Twitter.

Segundo uma fonte do Partido Republicano disse ao The New York Times, o senador republicano Bob Corker, do Tennessee, perdeu a paciência com Donald Trump quando este lhe tentava dar ordens: “Eu não trabalho para si, senhor Presidente”, disse-lhe. Noutro encontro com Mitch McConnell, o líder dos republicanos no Senado, que também nunca morreu de amores por Donald Trump, o senador não gostou forma como Donald Trump o interrompia durante uma conversa sobre o sistema de saúde. “Não me interrompa”, pediu o senador ao Presidente.

Agora, as mudanças são reconhecidas, mas há sempre um “mas”. Lindsey Graham diz que ele está a “apanhar o ritmo da cidade”, mas refere que ainda é um “trabalho em desenvolvimento”. Também a líder dos democratas na Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, reconhece que ele já não tem aquilo que ela descreve com “um fio de impostor que talvez estivesse na sua mente”. Agora, reconhece que “ele já ultrapassou isso”, mas refere que ele estava “enormemente mal preparado para tudo isto”.

Ainda assim, Donald Trump não deixou de ser Donald Trump a toda a hora. Há momentos em que o Presidente dos EUA continua a recorrer ao Twitter para tocar em temas sensíveis — como a investigação sobre a alegada interferência russa nas eleições de 2016 — ou para fazer posts controversos — como a vez em que partilhou três vídeos inicialmente publicados pela líder de um partido de extrema-direita do Reino Unido, o que lhe mereceu críticas da primeira-ministra britânica, Theresa May.