Fábio Coentrão teve o feeling certo para ir à área do Boavista e marcar o primeiro golo com a camisola do Sporting, mas ficou-se por aí: o internacional português acabou o encontro a confessar que acreditava num deslize do FC Porto em Setúbal para ficar isolado, mas 24 horas depois esse sentimento era mesmo uma mão vazia de esperança. Uma mão, literalmente: os dragões venceram por 5-0 e até aumentaram a vantagem na diferença de golos marcados e sofridos que os coloca à frente dos leões no primeiro lugar, numa altura em que ambos têm 36 pontos, mais três do que o Benfica.

No final do encontro, Sérgio Conceição passou ao lado dessa frase de forma indireta, com um lacónico “Esta foi uma resposta para nós, não foi uma resposta a ninguém”. No entanto, quem anda no futebol sabe que este tipo de mind games podem funcionar como dínamo para os adversários terem ainda mais vontade de fazerem a diferença e provarem que são melhores. Pode ter sido apenas coincidência, mas o FC Porto, com Diego Reyes no lugar de Felipe e os Pereiras (Maxi e Ricardo) juntos na ala direita, fez isso mesmo. E foi esmagador, com o inspirado Aboubakar a ser a principal figura depois de ter sido providencial na qualificação dos azuis e brancos para os oitavos da Champions. Se Coentrão tinha um feeling, o camaronês tem e mantém o instinto.

Ficha de jogo

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V. Setúbal-FC Porto, 0-5

14.ª jornada da Primeira Liga

Estádio do Bonfim, em Setúbal

Árbitro: Tiago Martins (AF Lisboa)

V. Setúbal: Cristiano; Pedro Pinto, Vasco Fernandes (Arnold, 67′), César; Costinha, Tomás Podstawski (André Pedrosa, 73′), Nenê Bonilha, João Teixeira, Nuno Pinto; João Amaral (Allef Andrade, 81′) e Edinho

Suplentes não utilizados: Pedro Trigueira, André Sousa, Willyan e Morgado

Treinador: José Couceiro

FC Porto: José Sá; Maxi Pereira, Diego Reyes, Marcano, Alex Telles; Danilo (Soares, 74′), Herrera; Ricardo Pereira (André André, 65′), Brahimi (Corona, 46′), Marega e Aboubakar

Suplentes não utilizados: Casillas, Felipe, Sérgio Oliveira e Hernâni

Treinador: Sérgio Conceição

Golos: Aboubakar (31′, 45+4′, g.p. e 69′) e Marega (40′ e 82′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Vasco Fernandes (25′), Nenê Bonilha (43′), Diego Reyes (45+4′) e André André (85′): José Couceiro foi expulso do banco (33′)

Depois da derrota pesada com o Benfica na Luz, José Couceiro quis dar um safanão na equipa e adaptou o esquema tático às características do FC Porto. Ou seja, entrou com três centrais (Pedro Pinto, Vasco Fernandes e César, este a principal novidade) para encaixarem com superioridade nos dois avançados portistas e foi jogando com todas as movimentações de Brahimi por dentro para fazer uma linha de cinco ou quatro defesas, com Pedro Pinto a cair para a direita e Costinha a avançar no terreno. Problema: a equipa ficou curta.

As duas transições bem conseguidas pelos visitados nos primeiros três minutos, a segunda com uma oportunidade de golo que não passou disso mesmo porque Edinho demorou demasiado quando estava sozinho na área para rematar, acabaram por ser três minutos enganadores em relação ao que iria suceder. Até porque, logo a seguir, Aboubakar deixou a ameaça inicial à baliza de Cristiano, desviando por cima uma bola parada bem trabalhada que contou com uma assistência de Marcano ao segundo poste para o camaronês.

As zonas de pressão alta dos dragões, o condicionamento das saídas dos sadinos para a velocidade dos homens mais adiantados e, sobretudo, mais um “jogão” de Danilo (além de atravessar um excelente momento de forma, joga com tanta confiança que faz coisas a que não estamos habituados, como passes longos ou remates de meia distância perigosos, como aconteceu aos 37′) inclinaram por completo o campo. Bem mais do que o vento da tempestade Ana.

E por falar em vento, não é que ele teve mesmo influência no lance do primeiro golo? Vejamos: já depois de uma boa defesa de Cristiano a remate de Aboubakar (12′) e de uma oportunidade flagrante de Brahimi após assistência do camaronês tal e qual como no jogo com o Mónaco (24′), o FC Porto ganhou um canto na direita do ataque. Alex Telles atravessou o campo, bateu com o pé esquerdo, o arco da bola acabou por sair mais puxado à baliza e só mesmo o desvio do guarda-redes visitado conseguiu evitar um golo olímpico; no canto seguinte, agora do lado esquerdo, o brasileiro bateu com o arco ao contrário e Aboubakar, na pequena área ao primeiro poste, desviou para o 1-0 (31′).

Este lance acabou por ser determinante para o resto do encontro: por um lado, ficam dúvidas se o toque nas costas de Aboubakar sobre Edinho antes de saltar para fazer o golo é suficiente para ser ou não marcada falta (de acordo com o árbitro e do vídeo-árbitro não, mas não deixa de ser discutível); por outro, ao pedir o auxílio do VAR um pouco mais exaltado, José Couceiro acabou por ser expulso e, no caso do V. Setúbal, a verdade é que a presença do treinador no banco faz muita diferença. E aqui devemos também acrescentar que, na verdade, se houve equipa “infeliz” com as decisões do vídeo-árbitro foi a do Sado, que até golos em que a bola passou claramente a linha mas não foi validado já tiveram este Campeonato (na deslocação a Paços de Ferreira).

Ainda assim, havia a clara tentativa dos visitados em segurarem o encontro até ao intervalo com a margem mínima, por forma a reagruparem as tropas e encararem a etapa complementar de outra forma. Algo que, aos 40′, passou a ser uma miragem: no seguimento de um bom passe de Ricardo Pereira para o corredor centra, Aboubakar obrigou Cristiano a grande defesa com um míssil rasteiro, Maxi Pereira acertou no poste na primeira recarga e, com alguma sorte à mistura no local para onde sobraria a bola, Marega aumentou para 2-0.

Os jogadores do V. Setúbal perderam o controlo emocional (os adeptos então nem se fala, tamanha era a pilha de nervos e ânimos exaltados que chegaram mesmo a partir um vidro junto da cabine onde estavam a ser feitos os comentários televisivos) e Vasco Fernandes foi exemplo paradigmático disso mesmo, pela forma como fez falta sobre Marega na área já em período de descontos. Tiago Martins, árbitro da AF Lisboa, ouviu o vídeo-árbitro, foi ver a repetição à TV do relvado, confirmou a decisão e Aboubakar não perdoou em cima do intervalo.

Depois da vitória na última quarta-feira frente ao Mónaco, e sabendo que vem aí um jogo da Taça de Portugal frente ao V. Guimarães, Sérgio Conceição optou por fazer descansar Brahimi ao intervalo, fazendo entrar Corona. O ritmo baixou, a intensidade na pressão em busca da bola abrandou e os minutos iam passando sem grandes registos de um lado e de outro, apesar da postura muito digna dos sadinos.

No entanto, com este FC Porto já se sabe que qualquer nesga de espaço é equivalente a uma oportunidade de golo. E em noite inspirada da dupla africana do ataque, cada um ajudou o outro a brilhar: aos 69′, na sequência de um lançamento lateral de Maxi Pereira da direita, Marega conseguiu tornear Tomás Podstwaski com a maior das facilidades, entrou na área e assistiu Aboubakar para o hat-trick; aos 82′, após um fabuloso passe em profundidade de Aboubakar que a defesa sadina não conseguiu cortar, Marega fechou as contas com um chapéu.

O FC Porto precisava de ganhar para reassumir a liderança partilhada com o Sporting do Campeonato e conseguiu esse objetivo com grande mérito, a jogar bem e a criar com facilidade oportunidades de golo. No final, o V. Setúbal admitiu que o lance do primeiro golo, que levou à expulsão de José Couceiro, acabou por condicionar tudo o resto, mas a verdade é que os dragões mostraram bem o porquê de estarem na primeira posição.