Rádio Observador

Cuidado: está quente

Croissants: depois de Cantona há um novo francês em Campo de Ourique

189

Quando passar por este bairro lisboeta esteja atento: se ouvir um sino a tocar é sinal que no novo Moço dos Croissants acabou de ficar pronta mais uma fornada.

O croissant simples do Moço

Diogo Lopes/ Observador

O que interessa saber

Nome: O Moço dos Croissants
Abriu em: Novembro de 2017
Onde fica: Rua Coelho da Rocha, 91 A-B, Lisboa
O que é: Novidade onde os croissants são quem mais ordena. Feitos artesanalmente, usam uma (secreta) manteiga francesa especial que, segundo os proprietários, mais ninguém em Portugal usa.
Quem manda: Grupo Quase na Cidade
Quanto custa: Entre 4 e 8€ por pessoa
Uma dica: Durante a época das festas vai encontrar aqui um bolo rei especial. É de chocolate, praliné e frutas cristalizadas não sólidas mas em zest (raspas). Aproveite.
Contacto: 915 604 018
Horário: Das 9h às 19h (não fecha)
Links importantes: Facebook

A História

Cada vez é mais comum encontrar chefs que abandonaram uma carreira mais “convencional” em resposta ao chamamento da cozinha: Manel Perestrelo, o responsável do Moço dos Croissants, é um dos mais recentes exemplos disso.

Foi preciso acabar um curso de Gestão para perceber que afinal, o hábito de “cozinhar para amigos e família” era mais do que um hobby. Decidiu estagiar num restaurante e, desde essa primeira experiência, nunca mais quis largar a cozinha. Formou-se na área em Barcelona e daí seguiu, como estagiário, para vários restaurantes conceituados, entre eles o famoso The Fat Duck, do criativo Heston Blumenthal. Nesta casa — que detém três estrelas Michelin –, Manel foi destacado para a área de investigação, o espaço onde muitos pratos e técnicas eram testados. Um “verdadeiro e fascinante polo de criatividade”, como conta o cozinheiro ao Observador. “Ainda por cima tinha reuniões com o Heston várias vezes durante a semana, era espetacular”, acrescenta.

Voltou para Portugal e foi depois desse regresso que surgiu o seu primeiro grande desafio em terras lusas — o Salmora Live Kitchen & Bar, restaurante em Vilamoura, no Algarve. “O grupo Quase na Cidade [proprietários do Salmora e deste Moço] falou comigo primeiro para fazer de consultor gastronómico, mas acabei por me envolver tanto que me quiseram como chef”, explica Manel. O projeto correu muito bem e em pouco tempo chegou o momento de explorar a capital.

“Há uns três anos fiz uma viagem por França e houve uma altura em que dei por mim numa boulangerie em Fontainebleau [cidade nos arredores de Paris] a provar croissants. Percebi logo que queria fazer alguma coisa com isso”, explica Manel Perestrelo. Foi assim que nasceu a ideia base deste Moço dos Croissants, cujo nome se associa aos ardinas de antigamente que distribuíam os jornais pelo bairro de Campo de Ourique — “Nós fazemos o mesmo que eles mas com pastelaria”, acrescenta.

Uns croissants antes de serem cozinhados. ©Diogo Lopes/Observador

O Espaço

Felizmente os croissants são guloseimas relativamente pequenas, caso não fossem, corriam o risco de não caber nesta novidade que nasceu há pouco mais de 15 dias neste bairro lisboeta. No espaço onde durante “mais de 60 anos” existiu o café Venezuela, tudo mudou. Apesar da obra e da decoração ter ficado sob a responsabilidade do Caju Studio, Manel fez questão de contribuir: “Fui eu que escolhi a bancada e fiz o desenho do expositor de pão, por exemplo”, conta.

Cinzentos, madeira e metalizados são os tons que predominam nesta pequena casa que também tem um reduzido espaço exterior. Ao entrar, obviamente que o que chama mais à atenção é a zona de preparação dos croissants (que está à vista de todos) e os gulosos expositores, contudo, há uma história curiosa atrás da parede de tijolo que fica logo à direita de quem entra. “Comprámos os tijolos e montámos tudo”, explica Manel antes de continuar, afirmando que depois da parede ter sido erguida partiram-na deliberadamente, para que esta ficasse com um aspeto”mais antigo”.

A fachada do Moço dos Croissants. O sino dourado toca sempre que há uma fornada nova. ©Diogo Lopes/Observador

A Comida

Poucas áreas da gastronomia são tão subvalorizadas como a arte de fazer pão. Habituámo-nos a ter pães de todas as formas e feitios sem muitas vezes ligar ao processo industrial que praticamente suplantou a tradição de fazer tudo de raiz. Felizmente, em Lisboa, já começa a existir quem tente contrariar a corrente (como Diogo Amorim, o jovem padeiro responsável pela Gleba, em Alcântara). Manel Perestrelo descreve-se como uma dessas pessoas que tenta voltar a inserir o “artesanal” no mundo da padaria, dando enfoque, claro está, ao universo desta famosa criação francesa.

Os croissants deste Moço “demoram cerca de 60 horas” a ficarem concluídos. Entre o deixar a massa descansar, fermentar e cozer há um momento importante que o chef destaca: a beurrage, ou seja, o envolver da manteiga no produto. Não é a incorporação do laticínio em si que tem algo de diferente, mas sim o tipo de manteiga utilizado: “É uma manteiga especial, vem de França e é usada especificamente na pastelaria”, explica Manel. Em que é que isto resulta? Num produto final mais sedoso e rico.

Teoricamente, só existem três fornadas por dia (uma às 9h, outra às 11h e uma última às 17h), contudo, segundo o proprietário, a procura tem sido tanta que as fazem quase “de hora a hora”. Para os acompanhar há uma série de recheios doces (como o de frutos vermelhos) e salgados (veja-se o de presunto e queijo da serra, por exemplo), contudo, as estrelas são mesmo os simples, que custam 1,50€.

Porque a vida não pode ser só delícias de massa folhada, há também uns viciantes mini-palmiers açucarados, tarteletes, sumos de fruta e pão normal que, apesar de não ser caseiro, a massa que lhes entregam todos os dias (eles só a cozem), “é feita de forma artesanal”.

Da próxima vez que passar por Campo de Ourique, se ouvir uma sineta a tocar, siga o cheiro a manteiga: uma fornada de croissants do Moço acabou de sair do forno.

“Cuidado, está quente” é uma rubrica do Observador onde se dão a conhecer novos restaurantes.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros de órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: dlopes@observador.pt

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)