Ao abrigo da Lei nº.2/99, de 13 de Janeiro, publicamos o direito de resposta enviado em nome de Luísa Rogério.

DIREITO DE RESPOSTA

“No dia 21 de Novembro fui contactada pelo jornalista João de Almeida Dias para abordar o estado da imprensa em Angola. Ao longo da entrevista, que terá sido gravada, dei a minha opinião relativamente aos meios públicos, com enfoque no Jornal de Angola. Falei enquanto jornalista e cidadã consciente do inalienável direito chamado Liberdade de Expressão. Por imperativos éticos, tive o cuidado de precisar que não comentava questões susceptíveis de emitir juízos de valor sobre profissionais. Ainda assim, acho correcto o Sr. José Ribeiro, ex-Director do Jornal de Angola, apresentar a sua versão em torno da matéria publicada pelo Observador a 7 de Dezembro.

Não pretendo rebater os termos da reacção, tão pouco questionar as interpretações das minhas palavras. Respeito as liberdades individuais. Todavia, entre ignorar o conteúdo do Direito de Resposta e replicar à letra, prefiro expor a minha parcela da verdade. Por apreço aos leitores dispenso expressões que não acrescentariam valor aos factos. Preciso muito mais do que um texto inchado de adjectivações para me sentir enojada ao ponto de destilar veneno.

De acordo com José Ribeiro durante os 10 anos do seu mandato eu teria recebido “por inteiro salários e regalias sem cumprir os mínimos deveres profissionais de jornalista”. Sublinha que “à custa de um estatuto especial de que poucos gozam na sociedade angolana”, privilegiei “ofícios” alheios à prática jornalística. Factos: fui editora de Cultura entre 2001 e 2011. Portanto, tinha essa categoria quando José Ribeiro foi nomeado director do JA, em 2007. Também já era Secretária Geral do Sindicato dos Jornalistas Angolanos. Por incumbência de José Ribeiro, sugestão minha ou propostas de outros editores cobri actividades da área política, social e desportiva.

Fui, por exemplo, destacada para me juntar à equipa do JA no Ghana, aquando do Campeonato Africano das Nações em Futebol, realizado em 2008. Repeti a experiência no CAN 2010, desta feita em Angola. Em Outubro de 2010 fui reeleita SG do SJA. No início do ano seguinte o JA enviou-me à província do Namibe para reportar os efeitos calamitosos da chuva. Passadas poucas semanas deixei a editoria de Cultura para “ascender” a Grande Repórter, com categoria de editora. Pretendiam deixar-me disponível para cumprir plenamente as atribuições de líder sindical, conferindo assim maior dignidade ao cargo.

Finda a licença sabática, ao longo da qual recebi integralmente os meus salários, regressei ao JA. Naturalmente, a minha remuneração passou a ser feita mediante presenças certificadas pelo registo biométrico. Ciente de ter descurado algumas vezes o “pontómetro”, sobretudo nos períodos em que ia ao serviço fazer rigorosamente nada, nunca protestei contra cortes. Nem quando me privaram do salário do mês de Fevereiro. Detalhe: gozava férias previamente autorizadas. Auferi o correspondente subsídio. A área de Recursos Humanos, que manifestou desconhecer o meu paradeiro, emitiu a Declaração para obtenção de visto junto de uma embaixada estrangeira, atestando que a minha filha, ainda estudante, teria as despesas de viagem suportadas por mim. As provas anexadas determinaram a arquivação do processo disciplinar desencadeado por 18 faltas consideradas injustificadas. O dinheiro não foi reposto.

Uma empresa pública tolera passivamente durante dez anos alguém cuja “conduta de nada fazer pelo jornal foi adoptada apenas por um consciente e evidente preconceito” em relação ao Director e “outros jornalistas”? Sempre pensei que o consultor com quem tive desinteligências fosse angolano. Não identifiquei motivos para cultivar más relações com colegas portugueses. Um deles solicitou apoio para fazer valer direitos contratuais desrespeitados pelo JA. Indiquei um advogado de referência. Fi-lo de consciência tranquila porque os sindicatos defendem interesses legítimos de trabalhadores, sejam eles nacionais ou não. O ex-Director sabe a quem pagou indemnização por decisão judicial.

José Ribeiro volta a evocar a entrevista ao líder da UNITA, Isaías Samakuva, para ilustrar alegados incumprimentos. Reafirmo total disposição para rememorar factos atinentes ao caso. Como viajaria sem dar satisfações a ninguém, se usei o passaporte de serviço tratado pela empresa? Só o Director ou seu substituto legal tem a prerrogativa de solicitar ao Ministério de tutela a imprescindível Guia de Missão. Devo reconhecer que não enviei o trabalho a partir do Brasil devido a contratempos pontualmente esclarecidos. Mal regressei, honrei o compromisso. A decisão de vetar a publicação da entrevista, feita em Junho de 2008 e não em 2012, transcendeu as minhas competências. A lamentável inobservância do deadline não impediu, porém, a Direcção do Jornal de me indicar para cobertura da campanha eleitoral da UNITA, apenas dois meses após o incidente. De resto, José Ribeiro só precisava de consultar os arquivos para apurar quantas vezes entrevistei Isaías Samakuva, o falecido Dr. Jonas Savimbi e outros políticos.

Viajo sim pelo mundo. Mantenho contactos com embaixadas e organismos internacionais. Sou orgulhosamente sindicalista, mesmo sem ter liderado nenhuma greve nas Edições Novembro. A Lei sindical é clara. Quanto a lobbies espanta até a mim a hipótese de eu ter negociado com o MPLA um lugar no Parlamento. Jamais houve sequer bases para conversas nesse sentido. Por razões objectivas declinei convites para integrar listas de candidatos a deputados pela UNITA e CASA-CE, o que não significa repúdio por uma eventual carreira política. A actividade partidária à margem do poder deixou de ser crime lesa Pátria há muito tempo. Para elucidações adicionais sugiro que o prezado ex-Director consulte o Acórdão do Tribunal Constitucional N. 430/2017, de 26 de Maio. É público!

Sugerir que José Ribeiro não introduziu mudanças positivas na empresa seria atropelar grosseiramente a verdade. Ninguém escolhe ficar doente, mas reservo a “almas doentias” e a gente diagnosticada com transtorno bipolar o desafio de negar o óbvio. A mente humana pode ser tão brilhante quanto traiçoeira. A propósito, como antigo PCA das Edições Novembro, em última análise responsável pela contratação de trabalhadores, José Ribeiro devia conhecer mecanismos para afastar falsos jornalistas das Redacções. Não me dou ao trabalho de rebater a acusação de “delatora” junto dos Serviços de Informação. Cabe ao acusador fazer prova das gravíssimas denúncias em sede própria.

Muito obrigada,

Luísa Rogério”