Para Elon Musk, o responsável pela SpaceX e pela Tesla, tudo parecia simples. A sua SpaceX, depois de ter provado a mais-valia com os foguetões Falcon 1 e Falcon 9, com que visita regularmente a Estação Espacial Internacional – transportando carga e, muito em breve, astronautas – e coloca satélites em órbita à razão de vários por mês, está já a testar o Falcon Heavy, um ‘monstro’ que pode levar uma nave espacial até Marte. Pode e tudo indica que vai, com a curiosidade de, lá dentro, transportar um Tesla Roadster.

Quando tudo parecia controlado para o lado de Musk, que pretende iniciar a sua viagem em 2022, ou seja, dentro de quatro anos, eis que o CEO da Boeing decide colocar uns grãos de areia na engrenagem e organizar uma competição, para ver quem é o primeiro a chegar ao planeta vermelho.

Dennis Muilenburg, responsável pela companhia americana que vai construir o SLS (Space Launch System), afirma que o foguetão de 61 metros de altura e uma força de 8,5 milhões de libras de impulso, que a Boeing está a produzir para a NASA, vai voar em 2021, o que lhe vai permitir chegar primeiro a Marte, pois a SpaceX só tem previsto descolar um ano mais tarde.

Mas se o congresso americano garantiu, em 2016 e 2017, as verbas para o projecto continuar a ser desenvolvido, não é evidente que isso continue a acontecer. Sobretudo por o objectivo da NASA, que consiste em colocar astronautas americanos no espaço profundo (projecto apadrinhado e financiado por Obama, e já assegurado por Trump), poder saltar da Boeing para um novo fornecedor que proponha o mesmo a custos inferiores. O que pode ser o objectivo da SpaceX, que já ultrapassou a Boeing e a Lockheed Martin noutros projectos da NASA, por ser mais barata e mais rápida, e que certamente irá tentar fazer o mesmo em relação a Marte. Sobretudo porque, desta vez, em jogo estão orçamentos que fazem ‘corar de vergonha’ os envolvidos com a Estação Espacial Internacional.

Musk e o tweet mais curto de sempre

Se a Boeing atacou a SpaceX numa entrevista à cadeia de televisão CNBC, na passada quinta-feira, reforçada por um tweet da Fortune Tech, Musk aceitou o desafio com agrado, tweetando de volta com um simples e curto: “Do it”. Ele que aproveita muitas vezes todos os caracteres que o Twitter coloca à disposição dos seus utilizadores, limitou-se a uma resposta que mais parecia uma versão mais curta do slogan da Nike.

Esta corrida espacial, que parece uma repetição menos bélica dos anos 60, quando russos e americanos se digladiaram pela conquista do espaço, vai ser, muito provavelmente, a corrida mais louca do mundo. Ou, pelo menos, uma das mais rápidas, uma vez que os foguetões deverão ultrapassar 58.000 km/h, a velocidade mais elevada alguma vez atingida por um veículo espacial. Quem estabeleceu o recorde foi a sonda New Horizons, que partiu em 2006 rumo a Plutão com apenas 478 kg e o tamanho de um piano, batendo confortavelmente a velocidade mais elevada conseguida por uma nave tripulada, que continua a estar fixada nos 40.000 km/h da Apollo 10, valor alcançado em 1969.

Curiosamente, por muito elevada que seja esta velocidade, os 58.000 km/h que se esperam ser possíveis para as duas naves, valor que é quase 50 vezes maior do que a velocidade do som, na realidade é apenas 0,0037% da velocidade da luz, ficando mesmo muito abaixo da velocidade de Marte, que orbita em torno do Sol a 87.000 km/h, e sobretudo da Terra, que “dá a volta” a 110.000 km/h. Ainda assim, se quer um exemplo mais terreno para a dimensão da velocidade que deverá ser atingida por estes foguetões, que prometem ser os mais potentes de sempre, sempre lhe podemos dizer que uma bala de uma espingarda de combate sai do cano a 2.800 km/h, isto enquanto os projécteis das mais pequenas armas de mão raramente ultrapassam 1.200 km/h.

Quem vencerá a corrida até Marte?

Nesta corrida espacial, e independentemente de quem venha a construir o melhor foguetão, a SpaceX parece estar em vantagem, basicamente por estar mais avançada. O seu Falcon Heavy vai realizar o voo de teste já no próximo mês, enquanto o foguetão da Boeing tem previsto o primeiro teste apenas em 2019, não se sabendo qual o estágio de desenvolvimento da cápsula, uma vez que não é a Boeing, mas sim a Lockheed Martin a produzi-la. Também aqui, a empresa de Elon Musk tem vantagem, uma vez que a cápsula destinada a Marte é a Dragon 2, uma versão maior e com maior potencial da Dragon já utilizada para as viagens à Estação Espacial Internacional.

Por outro lado, enquanto a SpaceX conta recuperar a maior parte do seu foguetão para novos lançamentos, reduzindo grandemente os custos de cada viagem, a Boeing optou por construir um foguetão à antiga, do tipo “voar e deitar fora”. Será pois curioso não só ver quem vencerá a corrida, e chegará primeiro a Marte, bem como quem apresentará a proposta mais em conta, já que para o congresso americano, money talks. Certezas, só que o primeiro carro a voar em direcção ao planeta vermelho será tão vermelho quanto ele, e envergará o emblema da Tesla.