Desde 1992 que o conservador e sulista Estado norte-americano do Alabama não elege um senador democrata. Um ciclo prestes a ser quebrado e que acontece hoje, nas que são já as mais mediáticas eleições do género em anos, em todo o país. Até o ex-presidente Barack Obama já se manifestou sobre o assunto, numa mensagem gravada, em que apelou ao voto no candidato democrata: “A situação é grave. Não se pode ficar em casa”, apelou.

Mas o que está realmente em causa? E por que motivos é tão importante a eleição do substituto de Jeff Sessions, agora secretário da Justiça de Donald Trump, que abandonou o cargo no início de 2017?

Em primeiro lugar, a configuração do Senado norte-americano pode mudar: antes de Sessions sair, a conta estava em 52 lugares para os republicanos e 48 para os democratas. Se o candidato republicano ganhar, fica tudo igual, se for o democrata a vencer, a vantagem do partido de Donald Trump diminui: 51 contra 49.

É o facto de o candidato republicano ser Roy Moore, um ex-juiz ultraconservador de 70 anos acusado em novembro de ter assediado sexualmente, entre 1970 e 1980, várias raparigas menores, incluindo uma de apenas 14 anos, que está a atrair tantas atenções para a votação. Moore é ainda conhecido por ser anti-imigração, anti-direitos transgénero e anti-casamentos entre pessoas do mesmo sexo. Aliás, foi por se ter recusado, em 2016, a aplicar o diploma que legalizou o matrimónio homossexual que foi exonerado do cargo de presidente do Supremo Tribunal do Alabama (pela segunda vez: em 2003 já lhe acontecera o mesmo).

Roy Moore, fotografado num evento de campanha em Midland City, no Alabama, esta segunda-feira. (Joe Raedle/Getty Images)

Do lado democrata está Doug Jones, um advogado de 63 anos que enquanto procurador do Alabama ficou conhecido por, 37 anos depois do crime, ter conseguido a condenação de dois membros do Ku Klux Klan que em 1963 incendiaram uma Igreja Batista frequentada por afro-americanos. “Doug Jones é um combatente pela igualdade e pelo progresso. O Doug vai ser o nossso campeão pela justiça. Por isso, Alabama, sai à rua e vota”, pediu Barack Obama.

As urnas estarão abertas entre as 8h00 e as 20h00 desta terça-feira em todo o Alabama. Diz a CNN, de acordo com os padrões desenhados nas eleições anteriores, 70% dos votos deverão estar contados e apurados às 23h00 (5h00 de quarta-feira em Portugal continental).

O candidato democrata escolheu Birmingham, a cidade do Alabama onde em 1963 o Ku Klux Klan ateou fogo a uma igreja, para discursar no último dia de campanha. (Justin Sullivan/Getty Images)

Até lá, as sondagens não ajudam: de acordo com a Fox News, Doug Jones vai à frente, com uma diferença de 10 pontos; segundo os números apurados pela Emerson College, de Boston, é o republicano Roy Moore quem está lançado, com 9 pontos de avanço. Outras sondagens reveladas recentemente apuraram resultados menos dilatados, mas igualmente díspares: o Washington Post deu uma vantagem de 3 pontos ao democrata; a CBS News/YouGov apurou que era o republicano quem seguia na frente, com 6 pontos de diferença; a Gravis Marketing apurou o mesmo resultado, mas pontos diferentes, 4.

Donald Trump, que quando o escândalo dos alegados abusos sexuais cometidos por Moore rebentou foi dos primeiros a dizer que o ex-juiz se devia afastar da corrida caso as acusações se confirmassem, gravou uma mensagem de apoio ao candidato durante o fim de semana passado. Primeiro acusou Doug Jones de ser “brando com o crime, fraco com a imigração” e de “apoiar o aborto”: “Ele é mau para o nosso exército e mau para os nossos veteranos. Nós não o queremos mas ele, por falar nisso, quer impostos mais elevados”. Depois, fez a apologia do candidato do seu partido: “Precisamos do Roy a votar por nós. Eu estou a acabar com a imigração ilegal e com o crime. Estamos a construir um exército mais forte e a proteger a Segunda Emenda e os nossos valores pró-vida. Mas se o Alabama eleger o liberal democrata Doug Jones todos os nossos avanços vão parar”.