Podemos andar de um lado para o outro, evitar tudo o que seja canal de comunicação, procurar toda a informação que quisermos: esta quinta-feira era dia de Guerra das Estrelas e ponto final. E foi provavelmente por isso que o FC Porto se rendeu à febre Star Wars, apresentando de forma original a nível de grafismo e imagens o onze inicial que iria começar o encontro com o V. Guimarães. Depois, começou a rolar a bola e a Força voltou a estar com Aboubakar, numa saga com uma série de episódios que mete seis golos nos últimos três jogos pelo meio. Mas, mais uma vez, o verdadeiro Jedi do Império azul e branco foi outro. E esta crónica vai versar sobre ele.

A noite foi de poupanças e até mais do lado dos vimaranenses, com Pedro Martins a deixar Raphinha, Heldon ou Rafael Martins no banco de suplentes. Sérgio Conceição, a cumprir o jogo 200 como treinador, mexeu menos em relação ao habitual argumento: promoveu o regresso de Casillas à baliza (depois do Newcastle, falou-se hoje nas possibilidades Deportivo da Corunha e MLS, a Liga dos Estados Unidos), manteve Maxi Pereira e Diego Reyes na defesa (Felipe foi de novo para o banco) e descansou Brahimi, que começou como suplente por troca com Corona. Entre a defesa e o ataque esteve Herrera e Danilo, o líder sem braçadeira que cola toda a equipa.

Ficha de jogo

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FC Porto-V. Guimarães, 4-0

Oitavos-de-final da Taça de Portugal

Estádio do Dragão, no Porto

Árbitro: Carlos Xistra (AF Castelo Branco)

FC Porto: Casillas; Maxi Pereira, Diego Reyes, Marcano, Alex Telles; Danilo Pereira, Herrera (Óliver Torres, 79′); Ricardo Pereira (André André, 62′), Corona, Marega e Aboubakar (Soares, 72′)

Suplentes não utilizados: José Sá, Felipe, Brahimi e Hernâni

Treinador: Sérgio Conceição

V. Guimarães: Miguel Silva; Victor Garcia (João Aurélio, 75′), Moreno, Jubal, Konan; Rafael Miranda, Francisco Ramos; Rincón, Sturgeon (Kiko, 81′), Hélder Ferreira (Heldon, 60′) e Tallo

Suplentes não utilizados: Douglas, Raphinha, Dénis Duarte e Rafael Martins

Treinador: Pedro Martins

Golos: Aboubakar (12′), Danilo (58′) e André André (64′ e 83′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Ricardo Pereira (51′) e Sturgeon (57′)

Já falámos aqui em algumas crónicas da evolução do médio como jogador. Aliás, arriscamo-nos a dizer que, se fizéssemos uma lista para os maiores clubes europeus com os melhores centro campistas nestes primeiros cinco meses de competição, o nome de Danilo estaria tranquilamente no topo. Porquê? Porque o internacional português é hoje muito mais do que um ‘6’, aquele jogador de equilíbrios que se destacava pela inteligência com que ocupava espaços nas transições defensivas e pela capacidade física para ir somando recuperações ao longo do encontro.

Logo aos seis minutos, o médio deixou o primeiro sinal de perigo, desviando de cabeça para o poste um canto batido na direita do ataque por Alex Telles. Novidade 1: Danilo é muito mais aproveitado nos esquemas táticos por Sérgio Conceição do que era nos anos anteriores no FC Porto. Mais tarde, aos 25′, novo lance com demasiada pontaria do internacional português, que aproveitou uma insistência de Ricardo Pereira à entrada da área para ganhar uma bola a pingar na área e atirar cruzado de novo à base do poste. Novidade 2: Danilo ocupa posições muito mais avançadas no terreno com bola, criando em alguns momentos superioridade numérica com esses movimentos. Aos 38′, após uma falta sobre Rincón sem perigo, pontapeou a bola como se de uma jogada fundamental se tratasse (até podia ter levado um amarelo). Novidade 3: Danilo joga com muito mais nervo e intensidade.

Pelo meio, o FC Porto fez um golo e foi melhor. Aproveitando uma grande penalidade desnecessária por mão de Victor Garcia na área, Aboubakar inaugurou o marcador aos 12′, antes da grande oportunidade vimaranense no primeiro tempo, com Sturgeon a cabecear por cima na pequena área após cruzamento da esquerda de Konan (17′). Marega e Alex Telles ainda tiveram remates perigosos ao lado, ao passo que Casillas teve apenas de fazer uma intervenção um pouco mais apertada após um canto desviado a meias por Rincón e Maxi Pereira (37′). De resto, foi Danilo e mais dez. Ou mais 21: já aí o médio estava a ser o melhor jogador em campo.

Começou a segunda parte, manteve-se a tendência do encontro. Antes ainda houve um lance onde os jogadores do V. Guimarães ficaram a protestar falta de Marcano sobre Sturgeon na área, que Carlos Xistra considerou ter sido apenas um “ganhar da frente” do central espanhol (52′), mas quem tinha pago bilhete para assistir a este clássico no Dragão estava ali para ver sobretudo o verdadeiro Jedi. E ele não defraudou as expetativas: aos 58′, conseguiu finalmente chegar ao merecido golo num lance que foi uma fotocópia da primeira bola ao poste; aos 63′, puxou a culatra atrás de pé esquerdo e só não marcou porque Miguel Silva vez uma grande defesa. Novidade 4: Danilo não só arrisca rematar de longe como, quando o faz, costuma conseguir enquadrar o tiro com a baliza.

Pouco depois, André André, que tinha acabado de entrar para o lugar de Ricardo Pereira, aproveitou uma defesa incompleta de Miguel Silva a remate de Aboubakar (após uma assistência fantástica de Herrera) para, sozinho, encostar para o 3-0, naquele que foi o seu primeiro golo da temporada (64′). Danilo já tinha cumprido a sua missão e também ele se tornou uma espécie de espetador no relvado, a controlar as operações e a segurar a equipa para não facilitar nas transições defensivas. E foi assim que ainda viu André André conseguir o primeiro bis nos dragões. Ainda assim, vamos à novidade 5: Danilo não se destacou tanto nesse aspeto frente aos minhotos, mas ganhou também ganhou confiança e capacidade para fazer passes longos de qualidade a desequilibrar os adversários.

O V. Guimarães, que não atuou com a maioria dos seus habituais titulares, ainda acertou uma bola no poste através de Heldon (68′) mas saiu com uma derrota pesada, talvez demasiado pesada para aquilo que se passou em campo. Mas contra este FC Porto, qualquer falha em termos defensivos costuma ser sinónimo de golo. E com Danilo a este nível, há um Império azul e branco que se fortalece a todos os níveis e em todos os setores. Se hoje parece que tirámos o dia para falarmos sobre a estreia do novo filme da Guerra das Estrelas, este era também o dia para falar sobre o verdadeiro Jedi deste novo conjunto de Sérgio Conceição que muitas vezes, sendo o centro do enredo, acaba por tornar-se figura secundária face à veia goleadora de Aboubakar. Hoje assumiu o papel principal.