O marechal Khalifa Haftar, homem forte no leste da Líbia, declarou este domingo que o governo apoiado pelas Nações Unidas em Tripoli prescreveu, já que o prazo do acordo assinado em dezembro de 2015, que facilitou a sua formação, expirou.

Num discurso transmitido através da televisão, o controverso militar recordou que o acordo de Skhirat (Marrocos), forçado pela própria ONU, autorizava a criação de um executivo de transição por um período de um ano, que podia ser renovado apenas uma vez.

“O vencimento do acordo político líbio marca um histórico e perigoso ponto de inflexão no país”, considerou Haftar, que nunca reconheceu a autoridade do executivo liderado por Fayez Serraj.

“Todas as instituições saídas desse acordo perderam de forma automática a sua legitimidade, que foi contestada desde o primeiro dia em que assumiram as suas funções”, disse o oficial, que controla mais de 70% do país e a maior parte dos seus ricos recursos petrolíferos.

A posição de Haftar é um duro golpe para o novo plano de paz posto em marcha em setembro passado pelo novo enviado da ONU para a Líbia, o libanês Ghassan Salamé, que pretende convocar eleições legislativas e presidenciais no próximo ano.

O representante das Nações Unidas incentivou os dois governos — o de Tripoli e o de Tobruk (leste), controlado por Haftar — a negociar e criar uma instituição transitória que organize os atos eleitorais.

No entanto, o marechal rejeitou qualquer tipo de acerto desde o princípio, já que o artigo oitavo do acordo de Skhirat prevê que abdique a direção do autoproclamado Exército Nacional Líbio (ANL), vinculado ao governo em Tobruk. Salamé insistiu hoje que os líbios “estão fartos” da instabilidade e da guerra, e instou todas as partes a evitar qualquer ação que possa minar o processo político em curso.

As Nações Unidas mantêm que o mandato do governo de Tripoli continua em vigor até que seja apresentado um novo. Hoje, milhares de apoiantes de Haftar manifestaram-se em várias cidades líbias, apelando para que o marechal Khalifa Haftar assuma o poder, após o fim do prazo do mandato de dois anos do executivo apoiado pela comunidade internacional.

Nas concentrações em Tripoli (capital), Benghazi ou Tobruk, os apoiantes apelaram para que o militar da época de Muammar Khadafi passe a dirigir o país, ocupando o vazio de poder.

A Líbia mergulhou no caos após o levantamento de 2011, que derrubou e matou o ditador Muammar Khadafi, estando devastada por conflitos entre milícias.

Duas autoridades disputam o poder no país: um governo de união nacional reconhecido pela comunidade internacional, sediado em Tripoli, e uma autoridade que exerce o poder no leste da Líbia, com o apoio do marechal Haftar e do ANL.