Uma vitória (mais a mais por cinco golos) é sempre o melhor remédio para o “mal” de um começo de época algo penoso (nas exibições e, sobretudo, na Europa) e uma eliminação bem recente da Taça de Portugal.

Mas ainda há muito por fazer no Benfica de Rui Vitória — e desengane-se quem julgar o oposto.

Os vícios (bem evidentes na primeira parte e menos na segunda — quando a vantagem era confortável o suficiente para não temer o erro) continuam todos presentes. A organização defensiva benfiquista é débil. Os centrais (exceção feita a Rúben Dias) são “pesadões” e jogar em contra-ataque nas suas costas é fácil – na Liga dos Campeões tal ficou bem evidente –; o guarda-redes, além de jogar mal e parcamente com os pés, recua demasiado, como se estivesse ainda num clube “pequeno”: Bruno Varela tem que estar uns bons metros mais à frente e nunca está.

Ofensivamente, o posicionamento não é menos débil, ocupando (tantas vezes) os jogadores o mesmo espaço, pouco atacando pelo centro – chega a ser Jonas a recuar para criar jogo aí – e sendo useiro e vezeiro das arrancadas (tantas vezes sem ponta de nexo e apenas por falta de alternativas na criação) de Salvio e Cervi pelos flancos.

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Tondela-Benfica, 1-5

Estádio João Cardoso, em Tondela

Árbitro: Tiago Martins

Tondela: Cláudio Ramos; David Bruno (Tyler Boyd, 68’), Ricardo Costa, Osório e Joãozinho; Hélder Tavares, Bruno Monteiro e Claude Gonçalves (Helliardo, 46’); Miguel Cardoso, Murilo (Wagner, 82’) e Tomané

Suplentes não utilizados: Ricardo Moura, Pité, Sulley e Joca

Treinador: Pepa

Benfica: Bruno Varela; André Almeida (Keaton Parks, 84’), Lisandro, Jardel e Grimaldo; Fejsa (Samaris, 68’), Pizzi e Krovinovic; Salvio, Cervi e Jonas (Jiménez, 80’)

Suplentes não utilizados: Svilar, Seferovic, Zivkovic e Rúben Dias

Treinador: Rui Vitória

Golos: Pizzi (17’; 46’), Salvio (26’), Jonas (60’; 78’) e Tyler Boyd (75’)

Ação disciplinar: Cartão amarelo para Fejsa (31’), Miguel Cardoso (62’), Tomané (64’), Jardel (69’) e Helliardo (69′)

Ainda assim, ao quarto remate (o primeiro foi para os pardais) o Benfica já tinha uma vantagem de três golos – mais rematasse, mais golos conseguira na certa. A defesa do Tondela (aliás, todo o Tondela, da defesa ao ataque) resolveu estender uma “passadeira”. A pressão simplesmente era nula ao portador da bola, recuava-se em demasia e a defesa tremeu (o ritmo nem foi elevado, não se entende) sempre, não sabendo tantas vezes o “bê-á-bá”: a quem fazer a marcação num canto, por exemplo.

O primeiro golo surgiu cedo, logo ao minuto 17. Krovinovic encontrou André Almeida à direita, o lateral cruzou longo para a grande área, David Bruno não conseguiu o corte, a bola chegou a Pizzi e, sozinho, o médio benfiquista bateu Cláudio Ramos na baliza do Tondela.

Pizzi estreava-se a marcar esta época, ele que não o fazia desde maio.

Pouco depois, ao minuto 26, Grimaldo e Pizzi tabelam à esquerda, o espanhol isola-se e cruza para a grande área. Salvio e Jonas estavam sozinhos e acabou por ser o argentino a cabecear (à vontade) para o segundo da noite. Salvio fez o seu quarto golo em cinco jornadas.

Antes do intervalo (não há mesmo mais ocasiões para aqui escrever fora as bolas que entraram na baliza) foi perdoada uma expulsão (31’) pelo árbitro Tiago Martins. Fejsa agride Miguel Cardoso (é propositado e completamente desnecessário o contacto da mão do sérvio com o rosto de Cardoso) e vê apenas o cartão amarelo. Mesmo em cima do gongo, Jonas abre na esquerda, em Grimaldo, o espanhol cruza para a entrada da área, para Salvio, o extremo levanta a bola por cima da defesa do Tondela e Pizzi, sozinho dentro da grande área, remata de primeira. Tanto, tanto espaço!… E tempo.

Pizzi não bisava há quase um ano: a última vez que marcou dois golos num jogo foi em janeiro, no Estádio da Luz, frente ao… Tondela. E pela primeira vez esta época (em 13 jogos) o Benfica marcou três golos na primeira parte de um jogo fora de casa.

https://twitter.com/playmaker_PT/status/942506093388935175

No recomeço, o ritmo (que durante a primeira parte não foi particularmente elevado) decaiu. E foi realmente difícil aguentar as pálpebras abertas até ao minuto 60. Saltemos até ele: canto para o Benfica à direita, Pizzi cruza para trás e Jonas surge (sozinho, claro) surge a rematar para o quarto. E surge assim porquê? Porque Joãozinho, que o marcava, viu-o a movimentar-se e não lhe acompanhou a movimentação. Esta defesa do Tondela é um case study

Jonas marca o seu 19.º golo da época, o 17.º na Liga.

O Tondela ainda faria (sem saber bem como; pouco ou nada atacou no jogo) o golo da ordem. Tyler Boyd pressiona Krovinovic a meio-campo, desarma o croata e a bola chega, mais ao centro, a Murilo. O brasileiro arrancou na direção da grande área, rematou cruzado, Varela defendeu para a frente e, na recarga, é o mesmo Boyd quem vai desviar para o 1-4. Mas rapidamente sofreria outro o Tondela, o quinto.

E outra vez com a defensiva da casa a meter água por todos os lados. Canto de Pizzi, a bola é cortada, esse corte-assistência chega a Jonas e o brasileiro remata. Mas remata contra um defesa do Tondela. A bola continuaria do lado benfiquista, Salvio vê Pizzi nas costas da defesa do Tondela (que devia ter subido após o canto e não subiu), colocou lá a bola, Pizzi prontamente a tocou mais para o lado e Jonas, à boca da baliza, desviou para o quinto.

Foi o sexto golo em quatro jogos de Jonas contra o Tondela. Marcou sempre.

Escrita a crónica, em quase todos os golos sobressai um nome: Pizzi. O português (desde logo estatisticamente) fez um jogo quase perfeito: acertou todos os remates (dois), cruzamentos (dois), dribles (dois), passes longos (dez) e duelos aéreos (um). Quando o “maestro” volta a pegar na batuta, a música (ainda a precisar de afinação) é outra.