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Itália

Depois de dois cancros, 100 jogos seguidos, zero substituições e zero lesões. Os recordes de Francesco Acerbi

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Em 2013 diagnosticaram-lhes dois cancros e esteve nove meses longe dos relvados. Chegou a perder a esperança. Agora bateu um recorde: 100 jogos seguidos sem ser substituído e zero lesões.

O defesa canhoto de 29 anos chegou ao Sassuolo na época 2013/14

Getty Images

Autor
  • Marlene Carriço

Cem jogos seguidos, zero substituições e zero lesões. Feitas as contas, foram mais de 150 horas em campo, o equivalente a mais de seis dias a jogar. São estes os números que constroem o recorde batido, este domingo, pelo defesa central italiano Francesco Acerbi, numa partida em que o Sassuolo venceu o Sampdoria por uma bola a zero.

“Um dia fantástico para festejar um recorde incrível!!! Desde 18 de outubro de 2015 Francesco Acerbi jogou todos os 100 jogos oficiais sem perder um único minuto!!”, escreveu o clube italiano no Twitter.

Em entrevista à SkySport, Acerbi confessou estar “orgulhoso”. “Não pensei nisto até à semana passada, mas é uma grande satisfação, mesmo que eu pense primeiro na equipa e só depois em mim.”

Fazer tantos jogos consecutivos não é fácil. Para conseguir ser um jogador de certo nível é preciso levar uma vida saudável e dar o máximo, é preciso capacidade física e também um pouco de sorte, mas o que faz mesmo a diferença é a cabeça e a vontade de lutar pelo que se acredita e pelo que se quer obter na vida”, acrescentou o jogador.

O jogador rematou dizendo que presta “muita atenção” ao que faz: “Penso nas faltas que posso fazer, tento ler primeiro as situações de jogo e evito punições perigosas”.

Entre 18 de outubro de 2015 e 17 de dezembro deste ano, o defesa canhoto de 29 anos não falhou um único jogo oficial do clube que ocupa a 15.ª posição na tabela da I divisão italiana. E nem mesmo com a mudança de treinadores deixou de ser o favorito ao lugar: foi sempre a escolha de Eusebio di Francesco, que saiu do clube para o AS Roma no final da época passada, também de Cristian Bucchi, demitido em novembro, e agora de Giuseppe Iachini.

Di Francesco chegou a dizer-lhe que devia parar, na época passada. Acerbi não lhe deu ouvidos: “Não queria parar de jogar, esta é a minha paixão”, disse aos jornalistas.

Cancro bisou e fez Francesco pensar sobre o significado da vida

Mas não é a primeira vez que Francesco Acerbi é notícia. O defesa — que este verão chegou a ser apontado como um dos nomes cobiçados pelo clube de Alvalade — iniciou a sua carreira em 2005 e chegou ao Sassuolo na época de 2013/2014, depois de alinhar por equipas menores como o Achievo e o Pavia e de uma curta e menos bem sucedida passagem pelo AC Milan.

Foi, precisamente, quando chegou ao Sassuolo que recebeu a notícia que viria a mudar o seu modo de estar e de encarar a vida. Os resultados dos normais exames da pré-época, em julho de 2013, deixaram o médico Paolo Minafra desconfiado e as piores suspeitas acabariam por confirmar-se: Acerbi tinha cancro no testículo esquerdo e foi submetido a uma cirurgia de imediato para retirar o tumor maligno.

Voltou a jogar no arranque da época, mas por pouco tempo. Em dezembro, o jogador viria a ser suspenso provisoriamente pelo Comité Olímpico Italiano depois de acusar positivo na hormona gonadotrofina coriónica (hCG), num controlo anti-doping realizado após o jogo contra o Cagliari (2-2), a 1 de dezembro daquele ano. A suspensão não foi a pior notícia. Cinco meses depois, o cancro voltara. A 8 de dezembro disputou o último jogo da época.

“Tive que fazer quimioterapia. Quatro sessões”, contou, em agosto de 2014, à Sportweek, numa entrevista recuperada pelo The Guardian . O jogador recordou as “náuseas, o cansaço, as insónias e a perda de apetite”.

Foram dois meses no hospital e chegou ao ponto de não se reconhecer ao espelho. Os tempos que se seguiram, depois da alta, foram tudo menos fáceis. A falta de energia consumia-lhe o corpo e passou os dias a ver o Masterchef, à espera que lhe despertasse o apetite. Mas a falta de força para sair à rua deu-lhe, nas suas palavras, tempo para pensar em tudo o que estava a acontecer. Passou a concentrar-se “nas coisas importantes”, afirmou.

“Enquanto estava sozinho na minha cama pensei muito sobre o significado da vida”, afirmou o defesa que entretanto lançou o livro Tutto Bene. E foi nesses meses de ausência, em que chegou a “perder a esperança”, dos relvados que foi crescendo nele “um desejo furioso de voltar a jogar outra vez”.

Voltou nove meses depois, em setembro de 2014, numa partida contra o Sampdoria que terminou a zeros. E um ano depois iniciaria a série de jogos que o conduziria a este recorde.

Este domingo, Francesco Acerbi confessou que antes da doença se “sentia invencível”. “Era um pouco superficial. Quando cheguei ao Milan, achei que já tinha chegado ao topo.”

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