O encontro tinha como objetivo melhorar as relações, em níveis historicamente baixos com admitiram ambos, mas o encontro de Boris Johnson com Serguei Lavrov em Moscovo foi tudo menos amigável, com acusações de parte a parte, muito sarcasmo e pleno de faux paux diplomáticos.

A conversa acabou como começou, com acusações. Antes de as os jornalistas saírem da sala, Serguei Lavrov, ministro dos Negócios da Rússia, disse que a culpa das relações estarem num ponto historicamente não era da Rússia e acusou o seu homólogo de preferir “falar publicamente” das razões, enquanto que os russos preferem fazê-lo “cara a cara e não através dos microfones”.

Boris Johnson não deixou passar e de imediato respondeu com sarcasmo: “Apesar das dificuldades entre nós, como dizes bem Serguei, há sinais de progresso económico, como demonstra o aumento de British Kettle Chips [uma famosa marca britânica de batatas fritas] para a Rússia e, apesar de todas as dificuldades, penso que foram vendidos 300 Bentleys na Rússia este ano, penso que não tenham sido todos comprados a empregados do Ministério dos Negócios Estrangeiros, mas ainda assim um sinal de progresso”.

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Estava dado o tiro de partida para uma conversa que já se previa tensa. Mas o que veio depois demonstrou que a conversa não terá ajudado a amenizar o ambiente tenso entre os dois países, que fez com que Boris Johnson fosse o primeiro chefe da diplomacia britânica a visitar a capital russa nos últimos cinco anos.

Na conferência de imprensa imediatamente a seguir à conversa, foi Boris Johnson quem deu o tiro de partida, quando disse que o primeiro enviado britânico a território que é atualmente a Rússia foi um enviado da Rainha Isabel para conversar com “Ivan, o Terrível”, mas que Serguei Lavrov lhe explicou que na Rússia este é conhecido por “Ivan, o IV”.

Serguei Lavrov tentou manter um tom mais cordial, até que disse que Boris Johnson lhe terá dito que “não tem qualquer prova de que a Rússia interferiu” nas votações no Reino Unido. Boris Johnson apressou-se a dizer que apenas disse que a Rússia não teve sucesso nas suas tentativas, que havia provas abundantes de que o teria feito na Alemanha, na Dinamarca e nos Estados Unidos. “Não fosse esse o caso e estaríamos a ter uma conversa completamente diferente”, avisou.

A troca de galhardetes continuou entre os dois durante a conferência de imprensa, com Serguei Lavrov a dizer que Boris Johnson só estava a mudar o discurso na conferência de imprensa, porque recear o impacto na opinião pública de uma mudança de posição e a forma como seria tratado pela imprensa.

A conferência de imprensa não acabaria sem mais um momento caricato, depois de Boris Johnson citar Ronald Reagan, que terá dito a Mikhail Gorbachev “confia, mas verifica”, um antigo provérbio russo. Lavrov respondeu que confia em Boris Johnson sem precisar de verificar, e Boris Johnson respondeu dizendo que confia tanto no ministro que lhe entregou o seu casaco e o seu chapéu quando chegou ao Ministério. Lavrov respondeu que os bolsos estavam vazios.

Reino Unido e Rússia têm atualmente um conjunto de questões em disputa. Por um lado, a Rússia acusa o Reino Unido de esconder informação, que a Rússia tem pedido sucessivamente, sobre a morte de Alexander Litvinenko, um antigo membro dos serviços secretos russos, que fugiu para o Reino Unido depois de ser detido mais que uma vez na Rússia na sequência de acusações suas e de colegas seus no FSB à cúpula das secretas russas de que teriam dado ordens para o assassinato do milionário russo Boris Berezovsky. Litvinenko morreu em 2006, depois de ter sido envenenado com polónio-210, com o Reino Unido a acusar os serviços secretos russos de serem os responsáveis pelo envenenamento, algo que os responsáveis russos negam.

O Reino Unido acusa ainda a Rússia de tentar inferir na votação do referendo à permanência do Reino Unido na União Europeia, algo que a Rússia também nega e pede provas concretas dessas acusações. Em resposta, os serviços secretos britânicos têm ordens para cortar as comunicações com os serviços secretos russos, algo que o ministro dos Negócios Estrangeiros russo considerou muito prejudicial na luta contra o terrorismo.

Para além destes dois casos, Rússia e Reino Unido têm ainda divergências sobre a questão da Ucrânia e as sanções impostas, nomeadamente pela União Europeia, à Rússia devido ao seu alegado envolvimento no conflito ucraniano, e também sobre a intervenção russa na guerra civil na Síria, entre outras questões, como o respeito pelos direitos humanos.