Tudo se preparava para um início de Janeiro como os outros – descansado e a tentar recuperar do excesso de doces que tradicionalmente se ingerem durante a quadra natalícia. Mas bastou um telefonema para a vida do piloto português Carlos Sousa dar uma volta completa, e o abençoado descanso ceder lugar a uma sempre tão agitada quanto dura participação no Dakar.

Esta maratona, que começou em África até que a ameaça muçulmana a obrigou a transferir-se para o continente sul-americano, em 2009, é uma das provas desportivas mais duras do automobilismo. Mas isso não é novidade para Sousa, que já a disputou em 16 ocasiões, tendo numa delas, em 2003, sido 4º classificado da geral. A surpresa reside no simples facto de o piloto português nada ter feito para, em 2018, passar de 6 a 20 de Janeiro aos saltos, entre o Perú e a Argentina. Foi a Renault Argentina que o desafiou a disputar os 9.000 km, divididos por 13 etapas, aos comandos de um dos seus Duster oficiais, que ali é comercializado com emblema Renault, em vez de Dacia, ao contrário do que acontece na Europa.

Depois da surpresa inicial, Sousa rapidamente entrou em modo de competição e já só queria sentar-se ao volante e dar gás, para ver e sentir como é o Duster de competição. Se o exterior faz lembrar o SUV acessível produzido pela Dacia, marca do grupo Renault, já o interior nada tem de acessível, com destaque para a mecânica. Em vez dos pequenos motores, em capacidade e potência, o Duster do Dakar monta um enorme V8 atmosférico, com 5.0 litros de capacidade, herdado de um Infiniti, a marca de luxo da Nissan, construtor que faz parte da Aliança Renault-Nissan-Mitsubishi, que os franceses lideram.

Depois de ser apurado pela Renault Sport, o departamento da marca que trata de tudo o que é desportivo ou competição, o 5.0 V8 passou a debitar 390 cv, o que se por um lado é um dos motores mais potentes que Carlos Sousa já pilotou no Dakar, é igualmente o primeiro motor atmosférico a gasolina que guia na prova, pelo menos nos últimos anos. Este tipo de mecânica, mais potente, é consideravelmente limitada numa competição que se estende ao longo de 16 dias, sendo disputada a uma altitude média de 2.000 metros, com os pilotos a conduzirem durante quatro dias entre os 3.000 e os 4.000 metros, o que reduz consideravelmente os cavalos debitados pelos motores atmosféricos, como é o caso do V8 do Duster, especialmente face aos concorrentes que utilizam motores sobrealimentados.

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O primeiro contacto do piloto português com o seu carro de competição teve lugar a pouco mais de uma centena de quilómetros de Buenos Aires, capital da Argentina, numa zona em que o piso de terra estava por vezes transformado num mar de lama. Sousa gostou “muito do comportamento do carro e da potência do motor”, tendo ainda ficado agradado com o trabalho da equipa, com o Duster a parecer evidenciar a robustez necessária para enfrentar a dureza da maratona sul-americana.

O Duster do português – há um segundo carro da equipa, pilotado pelo local Emiliano Spataro – vai ostentar o número 315 nas portas, sendo que se Sousa tem um palmarés respeitável no Dakar, o seu navegador, o francês Pascal Maimon, exibe ainda maiores pergaminhos, pois venceu a competição em 2002, ao lado do japonês Hiroshi Masuoka.

Os carros, motos e camiões saem para a estrada no próximo dia 6 de Janeiro, no Perú, para chegar à Argentina no dia 20. Espreite aqui para ter uma ideia da monstruosidade que os pilotos vão ter de enfrentar:

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