“O Sacrifício de um Cervo Sagrado”

Depois do absurdo e abstruso “A Lagosta”, o grego Yorgos Lanthimos traz agora um filme em que pretende transportar para o nosso tempo o mito de Ifigénia, filha do rei Agamémnon. Este, ao caçar um cervo numa floresta sagrada, incorreu na fúria da deusa Artemisa, que lhe exigiu a vida de Ifigénia. A história é também relatada na tragédia “Ifigénia em Áulide”, de Eurípedes. Colin Farrell, que já tinha entrado em “A Lagosta”, interpreta um prestigiado cirurgião, casado e pai de família, que é obrigado a fazer uma terrível escolha por um adolescente com estranhos poderes. A culpa e o sacrifício são os temas dominantes do filme e Lanthimos trabalha aplicadamente para instalar a atmosfera de fatalidade e inevitabilidade das tragédias gregas. Mas os seus esforços, do estilo visual a armar ao pingarelho de Stanley Kubrick à música sacra metida a todo o pé de passada, só tornam “O Sacrifício de um Cervo Sagrado” solenemente laborioso, amaneirado e a espaços bastante ridículo. Também com Nicole Kidman, Alicia Silverstone e Barry Keoghan no imperscrutável e vingador Martin.

“Um Desastre de Artista”

O incansável James Franco realiza e faz um dos principais papéis desta fita sobre Tommy Wiseau, o polaco-americano que em 2003 escreveu, produziu, realizou e interpretou “The Room”. É um filme sobre um triângulo amoroso, e tão insondavelmente incompetente, que em vez de desaparecer sem deixar rasto e ser esquecido pelos poucos que o viram, transformou-se num fenómeno de culto e foi classificado como “ “O Mundo a seus Pés” dos maus filmes” por um professor de cinema de uma universidade americana. Franco adapta aqui o livro “The Disaster Artist: My Life Inside The Room, the Greatest Bad Movie Ever Made”, de Greg Sestero, amigo do realizador e um dos actores do filme, e do jornalista e crítico Tom Bissell, sobre as complicações que envolveram a produção e a rodagem de “The Room” , reservando para si o papel de Wiseau e dando o de Sestero ao seu irmão Dave.

“Jogo da Alta Roda

No seu primeiro filme como realizador, o argumentista Aaron Sorkin (“Os Homens do Presidente”, “A Rede Social”, “Moneyball-Jogada de Risco”, “Steve Jobs”), conta a história real de Molly Bloom (Jessica Chastain), uma ex-esquiadora olímpica e estudante brilhante, que se tornou na “princesa do póquer” dos EUA, organizando, numa “terra de ninguém” legal, jogos particulares em Los Angeles e depois em Nova Iorque, com paradas altíssimas e frequentados por milionários, empresários abastados, vedetas do desporto, músicos, realeza saudita e actores como Leonardo DiCaprio, Ben Affleck ou Tobey Maguire. Baseado no livro da própria Molly, a fita é simultaneamente o retrato de uma mulher inteligente, ambiciosa, tenaz e híper-competitiva, que após ter desistir de ser campeã olímpica de esqui devido a um acidente numa prova, decidiu impôr-se num nicho de actividade muito específico e exclusivo, totalmente masculino e perigosamente contíguo com o crime organizado; e uma história caracteristicamente americana de ambição, ganância e sucesso. “Jogo da Alta Roda” foi escolhido como filme da semana pelo Observador, e pode ler a crítica aqui.