Cerca de cem pessoas pedem, através de uma carta aberta, a legalização da canábis para fins medicinais. Os subscritores estão quase todos ligados à saúde e recordam aos políticos quem em países como Holanda, Alemanha ou Itália a planta já foi legalizada, assim como os seus derivados.

Médicos, enfermeiros e psicólogos defendem que a legalização da canábis (ou cannabis) iria tornar o seu consumo mais seguro e regulado, com garantia de qualidade e a benesse dos efeitos medicinais. “A legalização permitiria a melhoria da qualidade de vida de muitas pessoas e um maior e melhor acesso ao tratamento mais adequado ao seu estado de saúde”, pode ler-se na carta, que enaltece os benefícios da planta no tratamento de sintomas como a dor, a falta de apetite ou os efeitos secundários da quimio e radioterapia.

Em declarações ao Público, o oncologista Jorge Espírito Santo – um dos subscritores da carta – afirma que “não faz sentido que não haja acesso a estes compostos que estão acessíveis noutros países e quando há evidência científica de que pode ser benéfico no tratamento de sintomas como a falta de apetite, controlo da dor, em doenças oncológicas”.

O médico aponta o preconceito como o principal motivo da canábis ainda não ser legal em Portugal. Segundo Jorge Espírito Santo, “uma coisa é o uso da substância de forma não controlada e outra é usar como ferramenta terapêutica e tirar benefícios dela”. Posição sustentada por Ana Matos Pires, diretora do Serviço de Psiquiatria do Hospital de Beja, que alerta para o facto de não podermos “fazer juízos morais quando falamos de problemas de saúde”. Os dois médicos dão o exemplo da morfina, uma substância com riscos que é utilizada como fins terapêuticos.

Um dos nomes mais sonantes da vasta lista de subscritores é José Aranda da Silva, ex-bastonário dos farmacêuticos e primeiro presidente do Infarmed. Além de reforçar os efeitos terapêuticos da canábis, lembra que “o importante é ter um controlo forte sobre a regulamentação e a sua dispensa”.

A carta aberta torna-se pública numa semana em que o Parlamento se prepara para debater – na quinta-feira – dois projetos de lei e um projeto de resolução para a despenalização da canábis para fins medicinais.