O “vento” mudou e Santana diz já ter condições para ser primeiro-ministro e para ganhar a António Costa. Em entrevista à SIC, Santana Lopes reagiu ao vídeo que esta segunda-feira à noite começou a circular entre apoiantes de Rui Rio, onde aparecia a dizer que “nem que o vento mudasse 10 vezes” teria hipóteses de ganhar eleições legislativas — e afinal o vento mudou mesmo. “As alterações climáticas que tem havido fazem com que isso dos ventos esteja diferente, agora nem é preciso o vento mudar uma vez: tenho a certeza que estou em condições de disputar as próximas eleições e de as ganhar a António Costa”, disse.

Quanto a uma eventual viabilização de um governo minoritário do PS, assumida por Rio, Santana começou por dizer que não queria ouvir falar de “discursos de perdedor”, mas acabou por deixar a porta entreaberta a uma viabilização num cenário em que o PS mude de líder, e em que António Costa peça desculpa por ter “governado sem ter ganho as eleições”.

Mas, voltando aos ventos, o que mudou para agora Santana ter as condições de ganhar que não tinha há três anos, é que o candidato à liderança do PSD não esclareceu. Disse apenas que “o Governo perdeu o estado de graça, o PCP está com um pé dentro e outro fora, o BE quer ir para o Governo com o PS, e o que eu vejo na rua é uma onda laranja muito grande”. “Quando Pedro Passos Coelho decidiu não se recandidatar, eu disse que o vento mudou outra vez, e que tenho de ir”, acrescentou, explicando a aparente contradição entre o que disse em 2013 e o que se propõe a fazer agora, três anos depois.

Santana nega que haja aqui um problema de credibilidade, pegando no exemplo de Rui Rio: “Quantas vezes o dr. Rui Rio já disse que ia ser candidato e depois não foi?”. O candidato à liderança do PSD pediu que olhassem antes para “as obras” que fez — “enquanto tive tempo fiz muita obra” –, e não para as “palavras” que pronunciou. Não que as palavras não sejam importantes, também são, mas se é assim, então Santana prefere que olhem para o que disse em 1983 sobre o Bloco Central, remetendo para o livro que escreveu com o movimento Nova Esperança, com Marcelo Rebelo de Sousa e José Miguel Júdice, e para o que diz agora em 2017: “Sempre fui contra o Bloco Central”.

[Veja aqui os vídeos antigos que perseguem Santana. E a reacção dele]

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Mas Santana não quer discutir o passado, quer falar de futuro. “Não foi o que se viu no último debate entre os dois”, atirou a jornalista da SIC, para Santana depois contrapor que apenas discutiu o passado “por questões políticas, não pessoais”. E sobre as famosas trapalhadas de 2004, pelas quais pediu ironicamente “desculpa” no discurso que fez no sábado na sua convenção, Santana admitiu que, se fosse hoje, não faria tudo igual. “Voltaria a fazer tudo igual? Não, tudo não. Pouco inteligente é quem não tira lições de vida”, disse.

Rejeitando ficar sem discurso político perante os bons indicadores económicos do Governo de António Costa, que esta terça-feira anunciou um défice de 1,2% em 2017, Santana Lopes disse que não vai dizer mal do Governo só por dizer, e que a função do partido da oposição não é apenas essa: é sobretudo de “provar, com ideias e propostas, que é melhor do que o Governo em funções”.

“Eu é que vou esvaziar o discurso aos outros com o que sei de políticas sociais, política de lares e proteção de idosos, política de saúde. O que não se pode é atacar o ensino privado, mudar a legislação laboral, que condiciona o investimento, achar que o Serviço Nacional de Saúde só pode ser público, vou apostar no terceiro setor”, disse, sublinhando que entrou na corrida à liderança do PSD para mudar. “Eu venho para mudar, mas não é dizendo que vou viabilizar governos do PS, é fazendo alternativa”, diz.

Santana rejeita viabilizar governo minoritário de Costa (mas não garante o mesmo se o PS mudar de líder)

Depois de Rui Rio ter dito que admitia viabilizar um governo minoritário de António Costa, caso o PS venha a vencer as eleições, Santana procurou vincar essa como uma das principais diferenças entre os dois. “Eu não sou um líder que diz que, à partida, vai perder. Eu penso como vou fazer para ganhar“, disse, sublinhando que Rui Rio é que faz o discurso do perdedor. “O dr. Rui Rio é que diz que o PSD vai desaparecer, porque se for muleta do PS vai mesmo desaparecer. Eu quero que o PSD seja uma alternativa reformista, moderada e independente”, disse.

Mas perante a insistência da jornalista Clara de Sousa sobre o que faria se o PS ganhasse as eleições sem maioria, como aconteceu com a coligação PSD/CDS nas últimas eleições, Santana rejeitou viabilizar um governo de Costa nessas circunstâncias, mas não rejeitou vir a fazê-lo com um PS diferente e com as feridas já saradas. “Quando o PS mudar de líder e vier pedir desculpa pelo que fez o dr. António Costa, talvez voltemos ao mesmo princípio de ‘quem ganha eleições governa’, aí podemos conversar. Com este líder do PS está claro como as coisas são”, afirmou.

Na mesma entrevista, Santana Lopes defendeu baixa de impostos não só para as empresas mas também para as famílias, que estão “atrofiadas”, e defendeu que há margem orçamental para essa redução de impostos. Defendeu a aposta no empreendedorismo e startups, e a criação de estímulos salariais para aumentar a produtividade. Quer “libertar os cidadãos do Estado abusador” e quer transformar Portugal “na nova Finlândia”.

Apoio a Marcelo. “A popularidade não é contagiosa”

As eleições presidenciais são só em 2021, mas Santana já fez saber (na sua moção estratégica) que, caso seja presidente do PSD, vai apoiar uma eventual recandidatura de Marcelo Rebelo de Sousa. Já Rio nada disse sobre o calendário presidencial. Questionado sobre se esse apoio prematuro ao atual Presidente da República não é uma tentativa de aproveitamento da popularidade de Marcelo, Santana responde que a “popularidade não é contagiosa”.

“Não há a mínima hipótese de passar para mim, eu é que tenho de lutar pela minha”, afirmou.

Sobre a entrada da Santa Casa da Misericórdia no capital do Montepio, Santana rejeitou dizer se era ou não a favor do negócio. “Preciso primeiro de ver a avaliação, quando vier eu respondo”, disse, sendo que antes já tinha lembrado que as IPSS sempre ” fizeram aplicações financeiras”.

Se a última pergunta feita a Rui Rio, na entrevista de ontem, tinha sido sobre se se lembrava da última vez que tinha ido ao cinema e ao teatro, a pergunta final desta terça-feira a Santana Lopes era sobre a sua famosa gaffe dos violinos de Chopin. A jornalista Clara de Sousa perguntou se já se ria da gaffe cometida em tempos, e Santana não hesitou: “Já me rio, sim, e aprendi a tocar piano”, disse, negando, no entanto, saber tocar Chopin. “Eu é mais música romântica”, disse. E Bach, talvez.