António Capucho quer regressar ao PSD depois de, em 2014, ter sido expulso do partido por ter apoiado uma lista adversária nas autárquicas em Sintra. Agora, sem Passos Coelho na liderança, e com Rui Rio a preparar-se para assumir plenas funções, o ex-presidente da câmara de Cascais entende estarem reunidas as condições para voltar a ser militante do partido. “Tenciono voltar, mas só após o congresso. Não me quero precipitar e vou aguardar pelo desfecho do congresso. Tudo indica que poderei, finalmente, regressar ao PSD. Tenho 40 anos da minha vida dedicados ao partido”, disse em declarações ao jornal i.

Na sequência da expulsão do partido, os últimos quatro anos ficaram marcados pelas intensas críticas de Capucho à liderança de Pedro Passos Coelho, que dizia ser “mais troikista que a troika”, e pela aproximação do ex-militante social-democrata ao PS. Em meados de 2015, Capucho chegou mesmo a participar num encontro socialista no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, onde António Costa apresentou o programa eleitoral do PS – programa esse que o social-democrata considerou basear-se em “propostas credíveis”. Mais tarde, na preparação para as autárquicas de 2017, foi noticiado que António Capucho tinha sido sondado pelo PS para ser o candidato à câmara de Sintra. Na verdade, Capucho acabou por integrar a lista de Marco Almeida, mas contou, desta vez, contaram com o apoio formal do PSD.

Também Marco Almeida, atual vereador, pondera o regresso. “Ainda não decidi. Veremos o que a nova liderança quer fazer com os militantes expulsos em 2013”, disse ao jornal Público.

Nas eleições internas do PSD que opuseram Rui Rio a Santana Lopes, Capucho manifestou desde cedo a preferência por Rui Rio, apesar de não ter podido votar. Ao jornal i, Capucho diz esperar que a eleição de Rio se traduza numa “recuperação da matriz social-democrata, mas sem cair na direita radical”. Ao mesmo jornal, Capucho sugere que Rio se rodeie de pessoas de “confiança política”, explicando que isso não tem de se traduzir necessariamente num afastamento de todos os rostos que estiveram ao lado de Passos Coelho, ou que apoiaram Santana Lopes. “Há muita gente boa que esteve com Passos Coelho e que está de boa fé, o desejável é que, no congresso, se consiga a maior abrangência possível”, diz.

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Passos e Rio vão encontrar-se esta tarde, num encontro formal na sede do PSD na São Caetano à Lapa. Uma das decisões que o novo líder tem em mãos e com a qual vai ter de lidar logo que assuma funções efetivas é a questão da liderança da bancada parlamentar do PSD, que já tem feito correr muita tinta. É que o atual líder dos deputados, Hugo Soares, foi apoiante de Santana Lopes, que perdeu inclusive na concelhia de Braga, liderada precisamente pelo líder parlamentar. Neste cenário, há quem diga, como Marques Mendes ou Ferreira Leite, que Hugo Soares deve colocar o lugar à disposição, mas esse entendimento não é unânime. O próprio Rio disse, em entrevista à RTP, que a atual “direção da bancada parlamentar é da confiança do doutor Pedro Passos Coelho, que é líder até ao dia 18 de fevereiro”. Ou seja, depois do congresso logo se verá.

Vices da bancada do PSD põem lugar à disposição. Hugo Soares sob pressão

Rio disse que, no seu tempo, iria falar com o líder parlamentar, mas deixou um aviso: “Temos de fazer isto tudo em unidade, mas sem hipocrisia. E unidade constrói-se de parte a parte. Constrói-se da parte de quem ganhou e constrói-se da parte de quem perdeu”. Hugo Soares, questionado pelos jornalistas, limitou-se a dizer que falará com o líder eleito. “Tive ocasião de no sábado falar com o doutor Rui Rio, felicitá-lo pela sua eleição para presidente e, conforme combinado com doutor Rui Rio, e assim que houver ocasião, falaremos sobre o resto dos temas que os dois temos de conversar”, disse esta semana.

Luís Montenegro, o ex-líder parlamentar que muitos queriam que tivesse avançado para a liderança do partido, e que agora está a ser visto como o rosto da oposição interna a Rui Rio, mostrou-se indisponível para estar “na linha da frente”, embora vá continua “no combate”. No programa de rádio semanal que partilha com Carlos César na TSF, Montenegro criticou a estratégia política de Rio, e saiu em defesa de Hugo Soares: “A confiança do líder parlamentar depende exclusivamente da vontade dos parlamentares, essa coisa de pôr o lugar à disposição do líder do partido não existe, quando muito põe à disposição da bancada”. Ou seja, a bancada parlamentar do PSD é um órgão autónomo do partido, cuja direção é eleita pelos deputados, que por sua vez são eleitos pelos portugueses. A direção da bancada deve ser da confiança do presidente do partido — mas, nessa lógica, a bola está do lado do presidente do partido, que deve dizer se Hugo Soares é ou não da sua confiança política.