O psicólogo Eduardo Sá escreveu um artigo no seu blogue pessoal no qual comenta a estreia do programa SuperNanny, na SIC. E não se poupa nas críticas: à atitude dos pais, mas também à falta de ética da estação televisiva. O psicólogo clínico concorda que as questões relacionadas com a parentalidade e educação possam ser discutidas, mas opõe-se severamente aos modos em que o programa é feito, onde há a exposição total dos aspetos mais íntimos da vida de uma criança e a violação dos seus direitos.

Eduardo Sá questiona-se então sobre o tipo de programa de que estamos a falar: informação ou entretenimento? Se é informação, não cumpre os critérios éticos que deveria, se é entretenimento não se percebe “como pode ser alimentado com dilemas gravíssimos de famílias e de crianças reais”.

Tentarei ser mais enfático: será uma exposição como aquela que vimos em SuperNanny uma negligência ou maltrato? Um maltrato! Porquê? Porque um ato como aquele não só não será motivo de orgulho ou de integridade como, ao contrário, acaba por expor, denegrir e estigmatizar uma criança. No hoje como no amanhã”, prossegue Eduardo Sá.

O psicólogo acredita que os pais, ao exporem os filhos desta forma, podem não fazê-lo com intenção e má-fé, mas reforça que “parecem não compreender a dimensão do sofrimento que lhes trazem”, acabando, assim, por maltratá-los. Eduardo Sá vai mais longe: “Todavia, pergunta-se se, em circunstâncias como essas, reunirão os requisitos indispensáveis para representarem os seus interesses, patrocinarem os seus direitos e, em consequência disso, para os terem à sua guarda”.

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O psicólogo clínico apelida a atitude dos pais para com as crianças como “perigosa” e pergunta se alguém os terá elucidado sobre a dimensão do que é expor, em horário nobre, para toda a gente ver, a vida diária da criança.

E, perante uma exposição tão grave e tão irreparável, o que faltará mais para que o Ministério Público atue e proteja as crianças expostas, dado que estes pais terão protagonizado, aos olhos de todos, atos suscetíveis de serem interpretados como de negligência e de maltrato que a Lei define como perigo? Quando, por maioria da razão, (a fazer-se fé em notícias, entretanto, divulgadas) terão recebido 1.000 euros pelo programa do qual resultou este exercício tão grave?”, continua.

Quanto à participação da psicóloga no programa, Eduardo Sá pergunta se é legítimo que esta reclame respeito para si e para o exercício da psicologia, quando deixa “que uma criança, com o seu patrocínio, seja exposta, publicamente, sem pensar na forma como isso a irá afetar e no modo como isso irá comprometer a sua vida em todos os dias seguintes” à conclusão do programa, ao invés de a resguardar e proteger.

“Não teremos todos assistido a um maltrato com patrocínio?”, questiona o especialista, salientando o facto de a produção contar com vários patrocínios. “Terão as marcas que se associaram a este ato de exposição pública de uma criança consciência da gravidade daquilo que o seu patrocínio subscreveu?”.

Como podem esperar que, depois, os cidadãos as respeitem e considerem quando, para mais, algumas delas estão associadas às crianças?”, lê-se no artigo.

Pergunta, por fim, se a sociedade civil não se deveria manifestar contra a estação televisiva e contra as marcas que apoiam o programa e, consequentemente, um maltrato gigante como aquele que foi visto — “Não devia ser um propósito nobre e sensato de todos nós que as passássemos a declinar e a repudiar”, conclui.

“Não há conteúdo pedagógico sério”: o que os especialistas dizem de SuperNanny