A notícia caiu que nem uma bomba por não trazer qualquer outra informação na altura: um jovem de 22 anos tinha sido esfaqueado com três golpes junto ao Wanda Metropolitano, novo estádio do Atl. Madrid, e estava a caminho do Hospital de la Paz em risco de vida. No início, e perante a escassez de detalhes, temia-se que fosse resultado de mais um confronto entre as claques Frente Atlético e Biris Norte, do Sevilha, como em 2014. Mais do que isso, um confronto entre alas radicais de extrema direita e de extrema esquerda. Que acabou por não ser.

Fernando continua hospitalizado mas não corre perigo de vida. E soube-se, entretanto, que a altercação junto a um bar nos arredores do recinto até começou com um piropo a Maria, a sua namorada. Depois, ultrapassou e muito esse âmbito. Foi aí que um indivíduo, vindo de trás e sabendo apenas que se tratava de alguém com a camisola da Frente Atlético, sacou da arma branca, esfaqueou o jovem e colocou-se em fuga daquela zona (mas não do perímetro próximo do Wanda). Pouco depois, a faca foi encontrada num parque infantil; no início da madrugada, a Polícia intercetou o principal suspeito: Ignacio Racionero, também ele adepto dos colchoneros.

Este sábado, várias publicações em Espanha abordam o assunto mas numa perspetiva mais ampla do que a mera decisão do Julgado de Instrução número 39 de Madrid condenar o arguido a prisão preventiva sem fiança depois de ter confessado a autoria do ato. É que Racionero, também conhecido como El Raciones ou Nacho El Loco, é alguém conhecido das autoridades há duas décadas. E a trágica morte em 2014 de Francisco Javier Romero, mais conhecido por Jimmy, adepto do Deportivo que faleceu no seguimento de uma rixa com a ala mais radical da claque Frente Atlético, continua bem presente na cabeça de todos. Pensava-se que o fenómeno, mesmo não estando extinto na sua plenitude, andava mais “controlado”. Do nada, percebeu-se que ainda não o suficiente.

O Wanda Metropolitano foi inaugurado a meio de setembro de 2017 com pompa e circunstância mas, em novembro, já havia um incidente grave a lamentar: um adepto radical dos colconheros que tentou entrar no recinto no final do jogo não acatou a proibição de um segurança do estádio e agrediu-o de forma brutal, tendo provocado a perda de visão no olho esquerdo ao funcionário. Umas semanas depois, um adepto que estava proibido de entrar no estádio foi detido por incumprimento da medida e um segurança agrediu um espetador num jogo da Taça de Espanha, contou a Marca. Agora, a aparição de El Raciones faz temer que voltem os incidentes “isolados”.

Aos 40 anos, Racionero tem um um longo historial ligado à violência no futebol e ao roubo. Em 1998, quando fazia parte do núcleo principal da Frente Atlético (Bastión 1903), foi um dos envolvidos nos desacatos que provocaram a morte de Aitor Zabaleta, adepto da Real Sociedad. Esteve preso uma semana e meia de forma preventiva mas acabou por ser ilibado das acusações que encontraram apenas uma condenação: o amigo Ricardo Guerra. Em 2001, foi expulso do grupo por causa das ligações a elementos dos Ultras Sur, claque do rival Real Madrid, que tinham como ponto comum o apoio aos neonazis Hogar Social Madrid; em 2005, invadiu o centro de treinos do Atl. Madrid para, com mais alguns adeptos, confrontar jogadores e treinador pelas más exibições.

As autoridades acreditam que pertencerá agora aos Suburbios Firm, um grupo saído da Frente Atlético. Descrito como alguém “perigoso, radical e que não consegue distinguir entre o bem e o mal”, como cita o ABC, é também acusado por quem o conhece de ser “um homem corpulento, que bebe muito, que consome muita droga e que é capaz de apagar três cigarros no próprio braço”. Esteve preso dez anos por vários assaltos com armas brancas, sobretudo a farmácias, teve de cumprir toda a pena pelo mau comportamento e saíra em liberdade há cinco meses.

“A morte de Jimmy tinha servido para marcar um antes e um depois em termos de segurança em Espanha”, escreve o El País, referindo que a morte do adepto do Deportivo não serviu para desfazer essa parte mais radical da Frente Atlético. O jornal salienta ainda que a grande diferença entre o Real Madrid e o Atl. Madrid tem a ver com o corte que Florentino Pérez fez com o grupo merengue, ao contrário do que aconteceu nos colchoneros (que se defendem dizendo que expulsaram dezenas de associados mais radicais durante o tempo). O El Mundo refere também que a Frente Atlético tem um espaço maior no novo recinto do que tinha no Vicente Calderón (um espaço que chegou a estar ameaçado em 2014, não se confirmando esse cenário), apontando ainda as queixas dos vizinhos do Wanda que defendem haver agora menos controlo do que antigamente.

Atlético de Madrid expulsa claque organizada Frente Atlético

Recorde-se que, nos últimos anos, e sobretudo após a morte de Jimmy nas imediações do Vicente Calderón em 2014, as autoridades espanholas tomaram algumas medidas para estancar a onda crescente de violência (algumas vezes combinada entre as próprias alas radicais das claques). Agora, o debate volta a ser aberto para se perceber o que mais se poderá fazer para evitar episódios como o que levou Fernando a correr perigo de vida na quarta-feira.