O PS quer avançar com a reforma da descentralização, o PSD também. Mas até aqui nunca se entenderam. O PS quer legislar sobre a transparência nos altos cargos públicos, o PSD também. Mas o entendimento está difícil de sair. O cenário, contudo, pode estar prestes a mudar, com o líder parlamentar do PS, Carlos César, a mostrar-se satisfeito pela clarificação no PSD e até a esperar mais da relação com o maior partido da direita: “Estão criadas as condições para haver interlocução mais sólida”.

A frase, dita aos jornalistas ao fim da manhã em Penacova (o PS está em Coimbra para as jornadas parlamentares), teve logo um travão, para evitar melindres à esquerda. César acautelou essa parte dizendo que o seu elogio não quer dizer mais do que isso mesmo: há maior facilidade de interlocução. E isto porque: “Não precisamos de novos aliados.” À garantia ao PCP e Bloco de Esquerda, Carlos César somou, no entanto, que o PS “precisa de ter todos os interlocutores”, o que diz ser possível agora que o PSD ultrapassou “este período em que foi um pouco terra de ninguém”.

De manhã, em entrevista à TSF, já tinha admitido antever “melhores condições para o diálogo”. Tudo porque, com a escolha do sucessor de Passos Coelho, o PSD deixa de ser “errático, indefinido e ausente das grandes decisões” e os socialistas vão passar a ter um interlocutor mais “seguro, com continuidade e previsibilidade”. Em que matérias? A reforma da descentralização e a questão da transparência nos altos cargos públicos, que deverá ser discutida até ao fim de fevereiro numa comissão eventual. Mas também aí Carlos César poupa o rival à sua direita, dizendo que não quer “apressar o PSD”. O socialistas mostra-se disponível para alargar o prazo dos trabalhos com vista aos consensos.

Já sobre o cenário de um Bloco Central, no futuro pós-eleições, César mais nada disse. E aproveitou a visita a Penacova, um dos concelhos afetados pelos fogos de outubro, para fintar o tema: “O importante é manter a atenção no que nos trouxe até aqui”. Os socialista estiveram esta segunda-feira a visitar os distritos (Coimbra, Leiria e Viseu) onde houve incêndios este verão e no início do outono. Carlos César centrou-se em Penacova, onde garantiu que estas visitas não existem “para fazer a propaganda do Governo, mas não também não são para estimular a desesperança”.

Durante a manhã, visitou uma casa totalmente destruída pelas chamas em outubro, que está à espera de reabilitação, um pequeno agricultor a quem os apoios não chegam na medida em que são necessários e ainda uma empresa, que começou a reconstruir por si mesma, sem esperar pelo Estado. Ouviu, registou e o objetivo do líder parlamentar socialista é “detetar quais são as carências e impedimentos mais comuns” e “tratar, em diálogo com o governo, suprir essas insuficiências”. Com um recado para o Governo central: “Nestas circunstâncias, cada caso é um caso e têm de ser apreciados com muita sensibilidade por parte dos decisores”.

Mesmo que garanta não estar ali para a propaganda, o socialista não resiste a desfiar o rosário do que já foi conseguido, face às tragédias deste verão e outono: “Uma entre as 1500 habitações estão a ser reavaliadas, 300 casas já foram reabilitadas e 250 estão em curso”; “já foram apoiados mais de 21 mil agricultores”; “temos mais de 27 milhões de euros na reabilitação de diversas atividades económicas”.

Metas de “curto e médio prazo”, diz César, que aponta outra empreitada para o “médio e longo prazo”: “as reformas da estrutura económica, da fundiária e das atividades económicas”.

Artigo atualizado com declarações de Carlos César em Penacova esta segunda-feira