Síria

Erdogan ameaça expandir ofensiva anti-curda no norte sírio “até à fronteira iraquiana”

O presidente turco ameaçou expandir a ofensiva anti-curda "até à fronteira iraquiana". A operação turca na Síria tornou tensa a relação entre Washington e Ancara.

TURKISH PRESIDENTAL PRESS OFFICE HANDOUT/EPA

O Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, ameaçou esta sexta-feira expandir “até à fronteira iraquiana” a ofensiva militar desencadeada por Ancara no norte da Síria contra uma milícia curda, apesar das advertências de dirigentes e organismos internacionais.

No sétimo dia desta operação que tem suscitado preocupação nos Estados Unidos, o chefe de Estado turco prometeu lançar o seu exército contra a cidade de Minbej, onde Washington possui tropas deslocadas, e de seguida prosseguir para leste “até à fronteira iraquiana”.

A ofensiva militar turca na região de Afrine (noroeste da Síria) é dirigida contra as Unidades de proteção do povo (YPG), uma milícia curda considerada “terrorista” por Ancara, mas aliada dos EUA no combate ao grupo ‘jihadista’ Estado Islâmico (EI).

Enquanto os soldados turcos e grupos rebeldes sírios apoiados por Ancara tentam desde sábado penetrar nas linhas curdas, a administração semi-autonóma de Afrine exortou esta sexta-feira o regime de Damasco a intervir para impedir o ataque militar do país vizinho.

A operação turca agravou as tensões existentes entre Ancara e Washington, que as declarações feitas esta sexta-feira por Erdogan podem agravar.

Com as ameaças de Erdogan contra Minbej, “é possível um confronto militar direito entre o exército turco e as forças americanas”, preveniu, citado pela agência noticiosa France-Presse (AFP) Anthony Skinner, analista do gabinete de consultores de risco Versik Maplecroft, para quem as relações entre Ancara e Washington estão “à beira do precipício”.

Segundo o Observatório sírio dos direitos humanos (OSDH), os confrontos provocaram desde sábado mais de 110 mortos nos dois campos, e ainda 38 civis, na maioria vítimas dos bombardeamentos turcos que atingiram várias localidades.

No lado turco, diversos projéteis disparados a partir da Síria atingiram várias povoações fronteiriças provocando pelo menos quatro mortos desde sábado.

Um dia após o início da operação, desencadeada em 21 de fevereiro, Erdogan assegurava que “a questão de Afrine será resolvida, não há marcha atrás (…). Falámos com os nossos amigos russos, temos um acordo”.

As Forças democráticas sírias (FDS), uma aliança curdo-árabe onde predominam as YPG, apelaram à coligação internacional para “assumir as suas responsabilidades” ao afirmarem que a ofensiva turca constitui um apoio claro” ao Estado Islâmico. Na passada terça-feira, as autoridades locais turcas decretavam a “mobilização geral”.

Perante a ofensiva de Ancara, a administração semi-autónoma de Afrine, dominada por grupos curdos, apelou ainda ao regime de Damasco “para fazer face a esta agressão e declarar que não permitirá que aviões turcos sobrevoem o espaço aéreo sírio”.

Os grupos curdos sírios, que hoje controlam dois terços da fronteira com a Turquia, que se prolonga por 900 quilómetros, mantêm uma relação ambígua com as autoridades de Damasco, evitando a confrontação. A oposição síria acusa os dois campos de cumplicidade.

A intervenção turca em Afrine, que estava a ser admitida desde há dois meses, foi precipitada pelo anúncio da formação para breve, pela coligação ‘anti-jihadista’ liderada por Washington, de uma “força fronteiriça” que também incluiria as YPG.

Diversos países, incluindo a Alemanha e a França, e a União Europeia, já exprimiram preocupação face à intervenção turca, que introduz uma nova situação complexa num conflito que desde 2011 já provocou mais de 340.000 mortos e muitos milhões de deslocados e refugiados.

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