O preço para comprar divisas continua a derrapar nas ruas de Luanda, mas abaixo da depreciação do kwanza face às moedas norte-americana e europeia provocada pela introdução, este mês, do novo regime flutuante cambial.

Numa ronda feita esta sexta-feira por alguns dos bairros da capital angolana, a Lusa encontrou ‘kinguilas’, como são conhecidas as mulheres que se dedicam à compra e venda de divisas na rua, a transacionarem um dólar por até 475 kwanzas (dois euros), enquanto cada euro já chega aos 580 kwanzas (2,50 euros). Desde o início do ano, no mercado de rua, negócio ilegal e que a polícia angolana tenta combater, o custo da nota de dólar já aumentou quase 20% e a de euro 15%, segundo os cálculos feitos pela Lusa.

Em agosto último, por altura das eleições gerais angolanas, a compra de cada dólar norte-americano estava em mínimos de 2017, rondando os 370 kwanzas (1,60 euros), sendo esta a única alternativa, embora a preços especulativos, para angolanos e expatriados que não conseguem comprar divisas aos balcões dos bancos, face à crise cambial.

O mercado de rua em Luanda incorpora a desvalorização do kwanza, ocorrida novamente esta semana, nas transações que se realizavam neste dia na Mutamba, Maculusso e São Paulo, embora abaixo da queda oficial do kwanza. A situação é explicada com a retirada de moeda angolana de circulação física, medida utilizada pelo Banco Nacional de Angola (BNA) para valorizar o kwanza.

O mesmo acontece, embora com uma forte quebra no número de negociantes, no bairro dos Mártires de Kifangondo, zona do centro de Luanda apelidada de “Wall Street dos Mártires”, dada a quantidade de dólares transacionados, normalmente à vista de todos, diariamente, apesar dos relatos de operações policiais realizadas desde dezembro para combater este tipo de negócio.

O kwanza angolano voltou na terça-feira a sofrer uma depreciação, desta vez de quase 2%, face ao euro, já com o efeito das novas limitações introduzidas esta semana pelo Banco Nacional de Angola (BNA) para travar a especulação cambial.

Desde que a moeda europeia passou a ser a referência para o mercado de câmbios de Angola no novo regime flutuante cambial, a 9 de janeiro, a moeda angolana já acumula uma depreciação de quase 26,5% para o euro, que vale 253,7 kwanzas na compra (pelos clientes), e praticamente 20% para o dólar, que custa 207,0 kwanzas, segundo cálculos feitos pela Lusa com base nas novas taxas cambiais divulgadas pelo BNA.

Desde o primeiro trimestre de 2016 — até o início de janeiro deste ano — que a taxa de câmbio oficial definida pelo BNA não sofria alterações, nos 166 kwanzas por cada dólar norte-americano e nos 186 kwanzas por cada euro. A cotação passou entretanto a resultar dos leilões de divisas realizados pelo BNA, no âmbito do novo modelo de definição da taxa de câmbio em função das propostas apresentadas pelos bancos, mas que passou a ser limitada a uma variação máxima, por leilão, de 2%, para travar a especulação cambial.

No modelo anterior, a cotação era fixada diretamente pelo BNA e o novo regime flutuante cambial começou a ser aplicado numa altura em que as Reservas Internacionais Líquidas do país estão em mínimos históricos, inferiores a 12 mil milhões de euros, devido à crise da cotação do petróleo.