Um pico de atividade das células que produzem dopamina são o interruptor final para a iniciação do movimento. Uma ideia que vem contrariar o que se sabia até ao momento: de que precisamos de manter um nível contínuo de dopamina para nos movimentarmos. As conclusões da equipa de investigadores portugueses foram publicadas esta quarta-feira na revista científica Nature.

É crítico para a sobrevivência que os animais consigam decidir se se querem mexer e quando o querem fazer. Há um momento, cerca de meio segundo antes do movimento se iniciar, em que as células dopaminérgicas (que produzem dopamina) se ativam, libertam dopamina e o movimento acontece. E quanto maior o pico de dopamina, maior o vigor do movimento. Depois de iniciado o movimento, este mantém-se, mesmo que os níveis de dopamina voltem ao estado inicial ou sejam suprimidos.

Esta experiência vem contrariar a ideia de que precisamos de níveis constantes de dopamina. Por isso, não foi muito facilmente aceite pela comunidade científica, como explicou ao Observador Rui Costa, neurocientista na Fundação Champalimaud. “Apresentámos este trabalho no encontro da Sociedade para as Neurociências em 2014”, contou o investigador. “Demorou dois anos a ser publicado pela Nature.”

“Houve muita resistência por parte das pessoas que diziam que os picos de dopamina eram apenas recompensa. Tivemos de demonstrar a experiência de todas as maneiras possíveis”, disse Rui Costa.

Os picos de dopamina — que é um neurotransmissor, uma molécula que faz a comunicação entre neurónios — estão, normalmente, associados à recompensa. Os investigadores, além de verificarem que também estão associados à iniciação do movimento, perceberam que as células dopaminérgicas que têm picos associados à recompensa não são as mesmas que têm picos associados ao movimento. “É a primeira vez que se percebe que existe mais do que um subtipo destas células”, disse Rui Costa. O próximo passo é perceber se estas células dopaminérgicas, que têm funções diferentes, também são geneticamente distintas e se são afetadas de maneira diferente na doença de Parkinson.

Outra das perguntas que os investigadores podem explorar no futuro é se as células dopaminérgicas com funções diferentes (movimento ou recompensa) também produzem moléculas diferentes. E se estas moléculas têm algum papel na iniciação do movimento.

A doença de Parkinson caracteriza-se pela morte das células dopaminérgicas, logo pela diminuição da produção de dopamina. Isto justifica os sintomas motores apresentados pelos doentes: rigidez, lentidão e tremores. No entanto, conforme explicou em comunicado Joaquim Alves Silva, psiquiatra e neurocientista envolvido na experiência, os doentes com Parkinson “não têm um problema global de movimentação”.

“O problema dos doentes com Parkinson reside na dificuldade em iniciar o movimento e na lentidão do movimento”, disse o investigador, não na capacidade de o manter.

Para compensar esta falta de produção de dopamina, os doentes com Parkinson são tratados com levodopa (que se transforma em dopamina no organismo) ou com estimulação cerebral profunda. Estes tratamentos apresentam, ainda assim, efeitos secundários, como movimentos corporais involuntários. É provável que estes efeitos sejam causados pela estimulação permanente, visto que, para se iniciar o movimento, só é preciso uma estimulação pontual.

Os novos resultados podem ajudar a controlar melhor o nível de estimulação que os doentes com Parkinson recebem, conforme explicou Rui Costa. Quando há intenção de mover o corpo, a atividade do córtex motor (no cérebro) aumenta. Esta atividade é comunicada às células dopaminérgicas, que produzem dopamina, e o movimento inicia-se. Conseguir detetar a atividade do córtex motor podia dar sinal ao aparelho que faz a estimulação cerebral profunda dos doentes. Assim, a estimulação era pontual, relacionada com o movimento, e não contínua. “Estes ensaios já foram feitos em animais e agora estão a ser testados em humanos, com doença de Parkinson”, disse Rui Costa.

Perceber como se inicia um movimento voluntário, entender como é que o cérebro planeia fazer algo e concretiza, relacionar os picos de dopamina com a iniciação do movimento, também podem ajudar noutras situações, como na hiperatividade (associada a níveis altos de dopamina) ou na depressão (associada a baixos níveis de dopamina). A falta de picos de dopamina, que nos fazem mexer, podem também explicar os momentos de ócio, em que não nos apetece levantar do sofá, nem sequer para fazer um pequeno lanche.