O sismo de magnitude 3,1 registado esta madrugada em Arraiolos é uma réplica do terramoto que sacudiu o centro e o sul do país a 15 de janeiro, confirmou ao Observador o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA). O abalo, que foi registado pouco depois das quatro horas da manhã a 13 quilómetros de profundidade perto de Mora (Évora), teve origem na mesma falha tectónica do sismo de magnitude 4,9 registado em Arraiolos em meados do mês passado. Um sismo ainda maior pode estar prestes a manifestar-se naquela região, mas o IPMA insiste que “verdadeiramente não podemos saber”

De acordo com Fernando Carrilho, geofísico do instituto, esta falha só existe em profundidade e “não aflora à superfície”, embora se saiba que tem uma orientação de oeste para sudeste e que atravessa a aldeia de Santana do Campo. Desde o início do ano, esta falha já foi responsável por 18 sismos registados em Arraiolos, mas apenas dois foram sentidos pela população. Para o Instituto Português do Mar e da Atmosfera, sismos tão pequenos como os outros 16 simbolizam que “há um sismo maior que pode estar em preparação”: “O que não podemos dizer é que por estarem a acontecer pequenos [sismos] se está a libertar energia e que isso previne um maior”, sublinhou.

[Reveja aqui o vídeo que explica o sismo de 15 de janeiro em Arraiolos]

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E só não há certezas absolutas por dois motivos. Em primeiro lugar porque ainda não há forma de prever um sismo, já que “não são reconhecidas variações de parâmetros que permitam, por si só, estabelecer com certeza uma previsão de quando, onde e com que magnitude vai ocorrer”. E depois porque o facto de se terem registado mais sismos também pode ser produto do alargamento da rede de sismógrafos instalados no país, nomeadamente no Alentejo: “Nos últimos 40 anos existe alguma aglomeração sísmica na zona de Évora, na zona litoral entre Santarém e Coimbra e a este da Costa Vicentina”, mas apenas porque também há mais monitorização sísmica nesses locais.

As falhas que rasgam o centro e sul de Portugal Continental, incluindo a que originou o sismo de esta quinta-feira, resultam de forças de compressão exercidas pela placa africana — uma das peças que compõem a crosta terrestre — na microplaca ibérica, uma porção soldada à placa euroasiática onde fica a Península Ibérica. À medida que avança para nordeste, a placa africana empurra e levanta a microplaca ibérica, que se movimenta para leste, e abre rachas na crosta terrestre. As rochas que compõem essas rachas vão acumulando energia quando são sujeitas a essas forças compressoras, mas soltam-na quando alcançam o limite elástico, produzindo sismos.

Por altura do sismo de 15 de janeiro, Pedro Proença Cunha, geólogo da Universidade de Coimbra, explicou ao Observador que a compressão entre as duas placas tectónicas — que têm entre si um limite transformante, porque roçam uma na outra — tem aumentado cada vez mais. Isso resulta no aparecimento de mais falhas no país, que acumulam mais energia. E mais energia, neste caso, traduz-se não só num maior número de sismos como também na existência de sismos com maior magnitude.

Sismólogos em alerta em 2018

[Veja este vídeo para recordar a origem dos sismos registados em Portugal]

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Por enquanto, o IPMA diz que “é pouco provável” que o número de sismos esteja a aumentar, até porque a média anual de ocorrências sísmicas mais significativas à escala global entre 2007 e 2011 foi a mesma que a registada desde 1900. “O que aumentou consideravelmente nas últimas dezenas de anos foi a capacidade técnica de deteção sísmica e o número de equipamentos sísmicos instalados no mundo inteiro”, insiste o instituto.

No entanto, um estudo publicado o ano passado sugeria que 2018 poderia ser especialmente marcado por sismos de grande magnitude porque a velocidade de rotação do planeta Terra está a diminuir. Os cientistas investigaram a incidência de sismos de magnitude igual ou superior a 7 na escala de Richter desde 1900 até agora e verificaram que havia, em média, 15 terramotos com essas magnitudes num ano, mas que esse valor tem aumentado para entre 25 e 30 terramotos. Esse aumento, concluíram os geólogos, coincide com momentos em que a Terra trava — isto é, quando a velocidade de rotação diminui.

Segundo Roger Bilham e Rebecca Bendick, os autores do estudo, numa entrevista ao The Washington Post, “a cada três décadas, mais ou menos, o planeta parece passar por um monte deles [sismos]. Era como se algo estivesse a fazer com esses os terramotos se sincronizassem, apesar de ocorrerem em locais distribuídos pelo planeta”. O facto de a Terra ter desacelerado a rotação não significa que um grande sismo vá ocorrer este ano, mas sim que a probabilidade de acontecer pode aumentar. Até agora não há indícios suficientes para concluir que os resultados desse estudo se confirmem.