Muitos doentes, na maioria doentes oncológicos, já consomem canábis medicinal. Compram a planta no mercado negro, cultivam-na em casa, produzem óleos utilizando produtos altamente inflamáveis ou vão até Espanha para a obter. Arriscam a vida de uma forma para, no fundo, a tentar salvar.

Alguns desses pacientes, avança o Jornal de Notícias, fazem apelos para que o uso medicinal de canábis seja regulamentado no sentido de facilitar a obtenção da planta. Dinis Dias, um dos fundadores da associação Cannativa — que luta pela legalização do uso da canábis –, conta que quem os procura quer perceber como pode usar a planta porque “estão desesperados”. Defende que “A regulamentação é urgente”, garantindo que há muitos que arriscam a vida ao produzir óleo de canábis com produtos altamente inflamáveis, como é o caso do gás butano ou do álcool isopropílico.

Enquanto não é legal a sua utilização, estes doentes fazem de tudo, porque “enquanto os políticos estão a discutir, o tempo está a passar” e o tempo de alguns é limitado. Os benefícios são muitos: alguns contam que nunca mais tiveram de tomar antibióticos, que nunca mais foram internados, outros contam que continuam com dores, mas são “completamente suportáveis”. Mas é a redução dos efeitos secundários da quimioterapia que leva a maioria às consultas médicas que a Cannativa disponibiliza.

O médico Javier Pedraza conta que “A maior parte quer atenuar os efeitos secundários da quimioterapia”, considerando que “nunca será terapêutico” o fumo da planta, como refere o parecer da Ordem dos Médicos. O médico defende que “a forma adequada será sempre pela via oral ou vaporizada”, embora confesse que alguns dos seus doentes fumem “charros” por razões económicas.

A Ordem dos Médicos diz que existem fortes evidências de que a sua utilização atenua a dor crónica nos adultos, evita os vómito no tratamento oncológico, reduz a espasticidade (rigidez dos músculos) por esclerose múltipla e controla a ansiedade. Por outro lado, há fortes evidências de que há desenvolvimento de dependência, esquizofrenia e outras psicoses, ou dificuldades respiratórias, por exemplo.

A Ordem considera que a despenalização do cultivo para autoconsumo, a produção e comercialização em quantidades adequadas para doentes, conscientes das dúvidas científicas e consequências, pode merecer a reflexão da sociedade. Entretanto, no parlamento já foi constituído um grupo de trabalho, no âmbito da Comissão da Saúde, para analisar a regulamentação da canábis medicinal, com base em projetos apresentados pelo Bloco de Esquerda e pelo PAN.