Josef Stalin foi secretário-geral do Partido Comunista da URSS a partir de 1922 e lideraria os destinos soviéticos até 1953, aquando da sua morte, vítima de derrame cerebral. Pouco antes da ascensão de Stalin ao poder, surgia a Vkhutemas, escola artística de Moscovo – que sucedeu à SVOMAS, criada após a Revolução de Outubro. Para melhor compreender o regime de Stalin é importante compreender também a Vkhutemas, que seria fundamental na propaganda da União Soviética, optando por um design de “causas” – a causa tornar-se-ia, pouco a pouco, o culto do seu líder mais até do que ideológica – em vez de um design meramente preocupado com a estética – este era mais desenvolvido, então, na escola alemã da Bauhaus, por exemplo.

Stalin, em 1926, rodeado de camaradas… (Créditos: The David King Collection at Tate)

No museu Tate Modern, em Londres, e por ocasião do centenário da Revolução de Outubro, está patente a exposição “Red Star Over Russia”, que reúneimagens (de fotografias políticas a cartazes de propaganda) da União Soviética entre 1905 e 1955. E aqui é possível ver que os soviéticos foram pioneiros, por exemplo, na manipulação de fotografias, numa espécie de “photoshop” primitivo. A curadora da exposição, Natalia Sidlina, explica à BBC o porquê da relevância (e atualidade) da exposição. “Nós vivemos na Era das fake news. Mas estas não foram inventadas com o Twitter ou o YouTube; foram usadas na década de 1930 [pelos soviéticos] para, por exemplo, fazer desaparecer pessoas de fotografias”, garante.

…duas décadas depois, Stalin aparece sozinho (Créditos: The David King Collection at Tate)

Para compreender este “desaparecimento” basta olhar atentamente uma fotografia de Joseph Stalin rodeado de camaradas. Uma fotografia em que, duas décadas depois, constava apenas com o Stalin, tendo sido apagados da imagem oficial (e da história soviética) os restantes. O diretor de exposições do Tate Modern, Matthew Gale, explica que “a relação entre essas maneiras de tirar as pessoas da história e a imagem ‘photoshopada’ do presente é bem significativa, um aviso para todos nós neste momento”. E acrescenta: “É uma das nossas preocupações hoje: até as imagens convincentes podem ter sido facilmente manipuladas”.

“A Mulher Emancipada: Construa o Socialismo!” (1926), por Adolf Strakhov (Créditos: The David King Collection at Tate)

Mas nem sempre o culto do líder Stalin fez parte da propaganda da URSS. Emblemática é a imagem criada por Adolf Strakhov da emancipada mulher soviética. Aqui, Matthew Gale considera Stalin “tão idealista como tirano”. É que a escolha de uma mulher e não do líder, explica Natalia Sidlina, pretendia apenas garantir apoio no combate ao fascismo durante a Segunda Guerra Mundial. “Não havia o rosto de Stalin porque era muito difícil inspirar as pessoas a irem à guerra e a morrer pelo líder do Partido Comunista. Uma imagem de uma mãe ou de uma filha funcionaria muito melhor”.

Vladimir Lenin representado num cartaz de Valentin Shcherbakov em 1928 (Créditos: The David King Collection at Tate)

Na propaganda soviética esteve sempre presente (mesmo após a sua morte) Vladimir Lenin. E segundo o diretor de exposições do Tate Modern a inspiração era religiosa. “Se observarmos o cabeça gigante de Constantino nos Museus Capitolinos percebemos que se trata de propaganda. Tal como os tectos pintados a óleo nas igrejas católicas. O importante era [tal como na URSS] maravilhar as pessoas com imagens muito diretas e que trazem a certeza de que estamos no caminho certo”, explica Matthew Gale à BBC. E acrescenta, a propósito de Lenin: “Quando observamos a maneira como Lenin é representado, existem no máximo seis diferentes poses deste. Com uma população maioritariamente analfabeta, e portanto dependente de imagens, essa imagem torna-se numa iconografia que se repete A iconografia cristã funciona exatamente da mesma forma: aquela imagem torna-se reconhecível por qualquer um”.