Um Tejo escuro percorre a paisagem verde entre escarpas rochosas. No céu, os grifos voam em círculo, inspeccionando o Monumento Natural das Portas de Ródão. O vento frio e cortante abafa os gritos do pescador que capitaneia a pequena embarcação batizada como “Lobo do Mar”. “Isto estava branco, estava branco!”, grita. A determinada altura, para se fazer ouvir com melhor clareza, atira-se contra o barco onde seguem jornalistas e deputados do PCP. “Já vieram tarde!”. No interior do barco abalroado, Fernando Inácio, dono do restaurante O Túlio, conhecido pelas sopas de peixe — e que acompanha os parlamentares comunistas — comenta: “Não há peixe. Está tudo morto“.

Um grupo de deputados do PCP aproveitou o primeiro dia das jornadas parlamentares do partido para percorrer uma parte do rio Tejo especialmente afetada pela poluição das águas. O odor intenso resultante da transformação da pasta de papel sente-se a quilómetros de distância, ainda antes de Vila Velha de Ródão. É impossível ignorar o cheiro, mas, mais do que isso, é impossível ignorar o desespero de quem perdeu parte substancial do seu modo de subsistência.

Dói o coração. Malditas fábricas, mataram o Tejo. Cambada de assassinos! As águas estão negras, parecem café. Fechem aquela merda!”, desespera Francisco São Pedro, o capitão do “Lobo do Mar”, enquanto esconde o rosto, num dos breves momentos em que a ira dá lugar à comoção. É pescador do Arneiro, pequeno lugar onde vive uma comunidade piscatória a quem já resta muito pouco. Onde antes abundavam barbos, carpas ou bogas, agora rareiam lagostins. Quase tudo o resto morreu.

Francisco acompanhou praticamente toda a viagem da comitiva onde seguia a comunicação social e o grupo parlamentar do PCP, a bordo do seu pequeno “Lobo do Mar”, movido a motor. Apesar dos gritos que lançava, pouco ou nada se distinguia com clareza. Chegado a terra, não resistiu em contar a João Oliveira — líder parlamentar comunista — e a todos os que o ouviam, o drama que tem vivido há mais de três anos. A mão mutilada vai desenhando gestos no ar, dando força à raiva que sente. Diz ter sido vítima de ameaças da Celtejo e sente-se abandonado à sua própria sorte.”Não venham cá só na altura dos incêndios. Preocupem-se também com os pescadores“, pede.

Para Francisco São Pedro, os responsáveis pela morte do Tejo são há muito conhecidos — embora ainda não tenha sido possível provar a origem da poluição. As fábricas da Paperprime, Navigator e da Celtejo (a mais representativas das três e de onde partem 90% das descargas da indústria da pasta de papel), têm sido acusadas de não acautelar devidamente todas as regras de segurança existentes. O caso mais flagrante aconteceu a 24 de janeiro, depois de o rio junto à zona de Abrantes ter ficado coberto de uma espessa espuma branca, com a origem nas descargas da indústria da pasta de papel, situadas na zona de Vila Velha de Ródão.

Esta segunda-feira, a Inspeção-Geral do Ambiente revelou, em conferência de imprensa, que a ETAR de Abrantes se encontra em incumprimento dos parâmetros a que está obrigada, ao contrário de todas as outras unidades inspecionadas, menos uma: a Celtejo, precisamente, cujos “constrangimentos inusitados” na recolha de amostras só vão permitir que os resultados sejam conhecidos para a semana, como explicou Nuno Banza, Inspetor-geral do Ambiente.

Até lá, o Governo, através do Ministério do Ambiente, decidiu prolongar, por mais 30 dias, as restrições provisórias impostas à empresa de pasta de papel Celtejo. Para o PCP, no entanto, não é suficiente. “Se houvesse serviços públicos a intervir no âmbito das suas competências e responsabilidades, com os meios humanos adequados e os equipamentos necessários, se o Estado não fosse desmantelado e remetido para um papel secundário, muitos destes problemas não tinham acontecido“, afirmou João Oliveira aos jornalistas.

Se é certo que agora é urgente tomar medidas que sejam capazes de resolver o problema a curto prazo, notou o líder parlamentar comunista, no futuro é preciso criar condições para que “a fiscalização e inspeção sejam feitas”, independentemente de “a poluição ser mais ou menos visível a olho nu”. Para isso, insistiu João Oliveira, é preciso investimento público para reforçar os meios técnicos ao serviço de quem fiscaliza. Até porque, penalizar sem prevenir, ou limitar a produção de quem prevarica — como terá sido, alegadamente, o caso da Celtejo — vai colocar desafios a uma indústria que é fundamental para a atividade económica da região e que emprega muitas pessoas.”Não está nada perdido. Temos de garantir que isto não volte a acontecer e é preciso lutar“, encorajava João Oliveira.

Palavras que pouco ou nada reconfortaram Fernando Inácio, que deixou de ter peixe do rio para vender aos clientes, ou Francisco São Pedro, que pouco ou nada pesca para além de peixes e lagostins mortos. “Eu não deixo de lutar e não tenho medo de ninguém”, garante o pescador. “Oxalá que todos aqui os tivessem no sítio como eu. Mas isto já está assim há mais de três anos. Toda a gente sabia e ninguém fez nada”, lamentou, antes de pedir aos céus que não chova, para que as águas retidas pelas barragens de Espanha não venham limpar a mancha que suja o Tejo, branqueando o problema até que alguém tome medidas. Resta saber se assim será.