Super Bowl

Prince renasceu no Super Bowl – mas pode não ter gostado

107

Justin Timberlake prestou tributo a Prince ao recriar a atuação do cantor em 2007. Mas poderia não ter gostado: em 1998, disse que usar um holograma de um morto podia ser "a coisa mais demoníaca".

Getty Images

Assim que Justin Timberlake começou a atuação no intervalo do Super Bowl, patrocinado pela Pepsi, ficou ponto assente que o espetáculo seria uma viagem ao passado a bordo do saudosismo. No palco de uma pequena sala por debaixo das bancadas do U.S. Bank Stadium em Minneapolis, Justin Timberlake fez-nos recordar os bons velhos tempos dos MP3 nos bolsos e do primeiro iPhone ao interpretar “Rock Your Body”.

Mas todos os passos que o cantor deu neste intervalo não foram meras celebrações da memória: foram, no final de contas, uma ode a uma das melhores interpretações alguma vez feitas no “jogo dentro do jogo”. É que Justin Timberlake fez renascer Prince ao recriar a atuação que o cantor protagonizou em 2007 e que é, para muitos, o melhor intervalo do Super Bowl. O espetáculo incluía luzes em tom lilás, um piano branco (tingido pelo violeta dos holofotes) e até o lençol onde a equipa de Timberlake projetou imagens de Prince e a polémica silhueta do cantor com a guitarra que usou no concerto há 11 anos. Mas o tributo poderia não ter sido do agrado de Prince: em 1998, o artista de “Purple Rain” disse que usar um holograma de um músico seria “a coisa mais demoníaca imaginável”.

Há uma semana que corriam os rumores de Timberlake, o artista com mais presenças no “halftime Pepsi”, tencionava homenagear Prince e utilizar um holograma do cantor no espetáculo, já que Minneapolis (onde decorrer a final do futebol americano) é a cidade natal do artista de “Kiss”. Justin Timberlake só recuou dessa ideia quando Sheila E., cantora muito próxima a Prince, lhe explicou que essa não seria a forma certa de homenagear Prince. Ao Guitar World, Prince já tinha dito que “essa seria a coisa mais demoníaca imaginável”: “Tudo é como é e deve ser. Se estivesse destinado a fazer as mesmas coisas que Duke Ellington, teríamos vivido na mesma idade. Essa realidade virtual é realmente demoníaca. E não sou um demónio”, opinou Prince. E até deu exemplos: “O que eles fizeram com a música dos Beatles, manipulando a voz de John Lennon para que ele pudesse cantar do outro lado do túmulo… Isso nunca acontecerá comigo. É para evitar que esse tipo de coisa aconteça que quero controlo artístico”.

Justin Timberlake cedeu e não incluiu um holograma de Prince no palco. Mas fê-lo “cantar do outro lado do túmulo”: enquanto um tocava piano, outro acompanhava Timberlake na canção “I Would Die 4 You”. Como? A produção fez descer um lençol, depois disparou as luzes lilás e a seguir projetou imagens de Prince com camisa branca cheia de folhos a cantar. Já no final da homenagem, o lençol ficou branco mas com o perfil de Prince com a guitarra lilás por detrás dele, tal como em 2007. Mas há algo de estranho neste tributo de Justin Timberlake e Prince. É que os dois nunca foram grandes amigos. Até eram do tipo de inimigos que mandavam indiretas um ao outro.

Vamos então à viagem ao passado, já que Justin Timberlake tanto insistiu numa ao cantar mais canções do passado — de “Cry Me A River” a “Sexy Back” — do que do presente. Em tempos, mais propriamente em 2006, quando Timberlake lançou “Sexy Back”, Prince fez pouco da canção numa festa dos Emmy: “Para todos aqueles que dizem que estão a trazer a sensualidade de volta, a sensualidade nunca se foi embora”. Estava disparado o primeiro tiro. Logo no início do ano seguinte, Timberlake respondeu. Ao entrar o Globo de Ouro para “Song of the Heart” — canção de Prince para o filme “Happy Feet” –, Timberlake baixou-se para fazer pouco da altura de Prince porque o cantor não foi à cerimónia. Depois foi ainda mais longe. Na letra da canção “Give It to Me”, que Timberlake interpreta ao lado de Timbaland e Nelly Furtado, há um verso que diz: “Se a sensualidade nunca se foi embora, porque é que toda a gente alinha na minha conversa? Não me odeies só porque não te lembraste disto antes”.

Mas, vá lá, Timberlake já está um trintão, enquanto antes era um miúdo de 20 e poucos anos. E Prince já nem sequer está entre nós, por isso a rivalidade está enterrada. Certo? Não. É que os fãs não esquecem: quando Timberlake apresentou o espetáculo “Man of the Woods” em Paisley Park, precisamente o lugar favorito de Prince em Minneapolis, a festa estava bem regada de álcool. E isso foi um problema para os fãs de Prince, que não bebia álcool por ser Testemunha de Jeová.

Mas Justin Timberlake está habituado a polémicas no Super Bowl. Ainda em 2004, com 23 anos, esteve envolvido num escândalo depois de ter participado com a madrinha de carreira Janet Jackson no intervalo. É que, já no final do concerto, Timberlake arrancou parte do corpete da irmã de Michael Jackson e expôs um dos seus seios perante mais de 140 milhões de norte-americanos. A partir daí, a carreira de Justin nunca parou de crescer — até agora? –, enquanto a de Janet Jackson começou a estagnar.

De regresso ao espetáculo de Justin Timberlake no Super Bowl deste ano, nem tudo foram polémicas. Não houve peitos ao léu, só bailarinas encostadas a pilares e a muros à espera de um pequeno passo de dança do cantor. Vagueando de palco em palco, sempre muito próximo ao público ao jeito dos Coldplay há dois anos, Timberlake convidou orquestras de sopro para tocar “Suit & Tie” e convidou toda a gente a utilizar as lanternas dos telemóveis para imitarem estrelas no meio do público. Ao tocar “Can’t Stop The Feeling” — uma das duas canções modernas do cantor a ser interpretada no espetáculo –, Timberlake entrou nas bancadas e tirou fotografias com um adolescente que assistia ao jogo entre os Philadelphia Eagles e os New England Patriots. Até isso mereceu piadas dos internautas.

Um hino constipado, mas sentido

P!nk está com uma valente constipação. Tudo o que fez em palco já lhe reconhecemos de outras andanças: mastigou a pastilha até perder o sabor, atirou-a para o chão assim que o silêncio se instalou no estádio, depois sorriu para o público e lá interpretou a “The Star-Spangled Banner”, hino norte-americano. P!nk foi roqueira nos agudos, mas alguns falharam quando a voz lhe saiu do controlo, principalmente já no final da atuação.

Nada que não se perdoe a uma artista que subiu a um dos palcos mais procurados do momento mal curada da tosse que já admitiu estar a fustigar-lhe a garganta nos últimos tempos. É que, ainda assim, P!nk soube recordar o público, maioritariamente composto por apoiantes dos Eagles, o que tem de melhor: é tão roqueira quanto uma artista do pop. E como qualquer artista do pop que se digne, soube transformar os erros em teatro, mascarando-os com gestos mais emotivos, mesmo a combinar com a letra do hino. Se lhe tivéssemos de dar uma pontuação, provavelmente ficaria nas 7 de 10 estrelas — com meia estrela a ser conquistada pela fotografia que publicou com o filho antes do espetáculo.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: mlferreira@observador.pt

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Ligue-se agora via

Facebook Google

Não publicamos nada no seu perfil sem a sua autorização. Ao registar-se está a aceitar os Termos e Condições e a Política de Privacidade.

Detalhes da assinatura

Acesso ilimitado a todos os artigos do Observador, na Web e nas Apps, até três dispositivos.

E tenha acesso a

  • Assinatura - Aceda aos dados da sua assinatura
  • Comentários - Dê a sua opinião e participe nos debates
  • Alertas - Siga os tópicos, autores e programas que quer acompanhar
  • Guardados - Guarde os artigos para ler mais tarde, sincronizado com a app
  • Histórico - Lista cronológica dos artigos que leu unificada entre app e site

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Inicie a sessão

Ou registe-se

Ao registar-se está a aceitar os Termos e Condições e a Política de Privacidade.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)