Taça de Portugal

Jesus foi “à italiana” mas só Soares foi “cínico” (a crónica do FC Porto-Sporting)

Sporting entrou voltado à defesa e a "manta" encurtou-se no ataque. Só após o primeiro golo portista (e a ameaça de um segundo) Jesus mexeu. O Sporting melhorou, é certo, mas não empataria.

MIGUEL RIOPA/AFP/Getty Images)

O catenaccio nasceu na década de 1930 com Vittorio Pozzo, o treinador italiano que venceu duas vezes o Mundial. A tática era tão defensiva quanto de explicação simples. Na defesa havia quatro centrais, recuando um deles para trás dos restantes: era o libero. Na Itália de Pozzo era Rava o libero, defesa que o seu treinador descreveu como il più potente del mondo. À frente da defesa, estavam sempre (ou quase sempre) três médios possantes, posicionais, de marcação individual. À frente destes, alguém haveria de resolver o jogo.

catenaccio teve continuidade em Itália no Inter de Helenio Herrera, Inter que derrotou o Benfica de Eusébio na Taça dos Clubes Campeões Europeus de 1965. Aí o libero era Picchi e Picchi “secou” Eusébio na final, por exemplo. Na frente, no Inter de 65, resolviam Luis Suárez, Sandro Mazzola e o brasileiro Jair.

Mas o catenaccio também morreria certa noite. Foi em Roterdão, a 31 Maio 1972, noite em que o Ajax venceu (2-0) o Inter na final da Taça dos Clubes Campeões Europeus. Giovanni Invernizzi, o treinador do Inter, era “herdeiro” de Pozzo e Herrera. O treinador dos holandeses era Stefan Kovács. E Kovács “inventou” aquela que seria a antítese do futebol defensivo dos italianos: chamou-se-lhe “futebol total”. Johan Cruijff, que em Roterdão fez os dois golos do jogo, seria como jogador (com Kovács no Ajax ou Rinus Michels na “Laranja Mecânica”) e como treinador (na Dream Team do Barça) o maior expoente desse futebol. E transmiti-lo-ia a um seu pupilo. Um tal de Pep Guardiola.

FC Porto-Sporting, 1-0

Estádio do Dragão, no Porto

Meia-final da Taça de Portugal (1.ª mão)

Árbitro: João Pinheiro (AF Braga)

FC Porto: Casillas; Ricardo Pereira, Reyes, Felipe e Alex Telles; Sérgio Oliveira, Herrera, Corona (Otávio, 71’) e Brahimi (Hernâni, 80’); Marega e Soares (Gonçalo Paciência, 83’)

Suplentes não utilizados: José Sá, Maxi Pereira, Osorio e Óliver Torres

Treinador: Sérgio Conceição

Sporting: Rui Patrício; Ristovski (Rúben Ribeiro, 74’), Piccini, Coates Mathieu e Fábio Coentrão (Fredy Montero, 83’); Battaglia (Bruno César, 86’) e Bruno Fernandes; Gelson Martins, Acuña e Doumbia

Suplentes não utilizados: Salin, André Pinto, João Palhinha e Bryan Ruiz

Treinador: Jorge Jesus

Golos: Soares (60’)

Ação disciplinar: Cartão amarelo para Felipe (25’), Fábio Coentrão (25’), Piccini (27’), Battaglia (43’), Coates (53’) e Acuña (67’) e Hernâni (86’); cartão vermelho para Acuña (92’)

Após a vitória contra o V. Guimarães Jorge Jesus garantiria: “Somos uma equipa cínica, com uma cultura tática à italiana”. Não são. Não é. Jesus gosta da vertigem — como Kovács, por exemplo. A cultura tática italiana (cuja referência é e continuará a ser o catenaccio) é a oposição da vertigem.

Mas esta quarta à noite Jesus foi um bocadinho Pozzo, Herrera e Invernizzi. E só tardiamente foi Kovács. Os três centrais eram três, sendo um deles Piccini. Não havendo William, foi Battaglia o trinco. Mas Battaglia não tem a qualidade de construção de William, tendo Bruno Fernandes que recuar metros e metros (e ele é tanto mais perigoso quanto mais próximo da área) para construir. Esperar-se-ia, “à italiana”, que Gelson, Acuña e Doumbia resolvessem na frente. Mas Acuña passou a maior parte do tempo a auxiliar Coentrão (que não atinava com Corona na esquerda), Doumbia foi uma nulidade (com bola e sem ela) e Gelson sozinho não faz milagres, apenas se desgasta em correrias vãs.

E o Porto foi também por isso melhor da primeira parte. E teve duas oportunidades para chegar ao intervalo em vantagem. Ao minuto 20, Corona isola Brahimi nas costas da defesa do Sporting, entre Coates e Piccini — o lateral feito central atrapalhou mais o entendimento da parelha do costume do que auxiliou –, o argelino rematou cruzado mas Patrício saiu depressa da baliza e evitou o golo portista. Pouco depois, ao minuto 28, o livre era à entrada da grande área, ligeiramente descaído para a esquerda, chegou-se à frente Sérgio Oliveira e bate-o em arco. Acertou onde menos queria, o poste.

A melhor (e única que importe contar) ocasião do Sporting foi ao minuto 40: grande remate de Ristovski à entrada da área para defesa não menos grandiosa de Casillas.

No recomeço esperar-se-ia (não alterando Jesus a tática, pois o empate a zero mantinha-se e um empate a zero, fora, numa eliminatória é melhor do que perder) que o FC Porto continuasse mais perigoso. Mas até foi o Sporting a assustar primeiro. O minuto era o 49. Cruzamento recuado de Bruno Fernandes à direita, Doumbia dá um passo atrás na grande área (os centrais portistas não) e surge sozinho a rematar. A bola sai perto do poste esquerdo de Casillas — e sai perto porque ainda desvia em Ricardo Pereira.

O Porto despertou. Pressionou. Insistiu e insistiu. E o Sporting recuava, recuava. Ao minuto 60, e 240 minutos depois, o clássico teve um golo: cruzamento de Sérgio Oliveira à direita, Soares salta entre Ristovski e Piccini (na verdade, nenhum deles salta) e cabeceia para o primeiro da noite. Cinco minutos depois o mesmo Soares quase fez o segundo. Corona “entortou” Coentrão à direita, cruzou, Soares surge ao segundo poste, salta e Ristovski não, cabeando o brasileiro para um defesa E-NOR-ME de Patrício.

Jesus alteraria a tática. Retirou Ristovski, Battaglia e Coentrão, voltou-se ao ataque, à vertigem do ataque e foi-se a propalada “cultura tática à italiana”. Faltou foi ser “cínico”. No derradeiro minuto, cruzamento da direita, ao segundo poste Rúben Ribeiro ganha a frente a Ricardo Pereira mas, em vez de rematar, assiste para o lado, Doumbia não esperava o passe, e Felipe e Casillas resolvem o problema que nunca foi.

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