China

Na China, há polícias a usar óculos com reconhecimento facial para identificar cidadãos

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Em Zhengzhou, estão a ser testados óculos equipados com um sistema de reconhecimento facial à base de inteligência artificial, capaz de identificar qualquer pessoa e saber se é suspeita de crime.

AFP/Getty Images

Big Brother is Watching You — ou quase. Na cidade chinesa de Zhengzhou, quem passe pela estação de comboio está a ser observado. Contudo, não é pelo Grande Irmão de “1984”. Quem o faz é a polícia, que está a testar óculos com tecnologia de reconhecimento facial capaz de identificar indivíduos e saber se são suspeitos de terem cometido algum crime. Desde 1 de fevereiro, segundo o Wall Street Journal, as autoridades já capturaram sete indivíduos procurados em grandes casos e outros 26 que viajavam com identidades falsas.

A tecnologia está a ser testada durante a época do ano-novo chinês, que é descrita como sendo a maior migração humana do mundo. Estima-se que todos os dias passam cerca de 60 mil pessoas pela estação de alta velocidade de Zhengzhou, número que deverá chegar aos 100 mil nas férias de ano-novo.

Com os óculos de sol equipados com a câmara, os polícias à porta das estação conseguem captar as caras de todos os que por lá passam, informação que é cruzada com aquela que está presente numa base de dados. Quase no imediato, através de um tablet, os agentes da autoridade sabem se por lá passou algum suspeito de crime.

De acordo com o Wall Street Journal, o fabricante, LLVision, afirma que os óculos são capazes de identificar indivíduos de uma base de dados de 10 mil pessoas em 100 milissegundos, mas que “ruído de ambiente” pode afetar a eficácia do sistema. Ao contrário de sistemas anteriores, este apenas necessita de uma imagem de cada pessoa para fazer uma pesquisa.

Os óculos foram desenvolvidos em conjunto com a polícia para corresponder às suas necessidades. A China já tem 176 milhões de câmaras de vigilância fixas em todo o país — e estima-se que o número vá andar pelos 600 milhões em 2020 –, mas a tecnologia de identificação facial não funciona da melhor forma nestas. A imagem é menos nítida e a detenção de um suspeito no momento em que foi identificado não é fácil. Quando as autoridades chegam ao local após verem as imagens, o indivíduo em questão já fugiu ou se misturou na multidão.

Em oposição, o aparelho que está agora a ser testado permite à polícia “verificar em qualquer lugar”, afirma o chefe executivo do fabricante, Wu Fei. Com os óculos equipados com inteligência artificial o “feedback” é “instantâneo e preciso”, o que permite “decidir imediatamente qual será a próxima interacção”, explicou.

Estes novos óculos preocupam defensores do direito à privacidade, que afirmam que novas tecnologias de vigilância estão a ser introduzidas sem legislação ou regulamentos adequados. William Nee, investigador da Amnistia Internacional, disse ao WSJ que “o potencial para dar tecnologia de reconhecimento facial a polícias individualmente pode fazer com que o estado de vigilância da China se torne mais omnipresente.”

A tecnologia agora a ser testada é apenas mais uma das muitas ferramentas usadas pela China para monitorizar indivíduos e cidades: no final de 2017, a Human Rights Watch denunciou a criação de uma base de dados de ADN e  registos biométricos (impressões digitais, “scans” de íris, entre outros) dos cidadãos da região de Xinjiang, onde vivem 10 milhões de Uigures e outras minoria muçulmanas.

Em outubro desse mesmo ano, a South China Morning Post noticiou que Pequim está a desenvolver um sistema de reconhecimento facial que permitiria identificar qualquer um dos 1.3 mil milhões de cidadãos através da foto do documento de identificação com uma precisão de 90%. Este sistema, em conjunto com um uso generalizado dos óculos de vigilância que agora são testados em Zhengzhou, permitiriam ao governo chinês observar toda a gente, em todo o lado e a qualquer altura — um cenário definitivamente mais “orwelliano”.

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Sebastião Bugalho
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