Cinema

“Todo o Dinheiro do Mundo”: não há milhões que o paguem

O filme de Ridley Scott do qual Kevin Spacey foi "eliminado" e substituído por Christopher Plummer, é um dos mais indiferentes do realizador britânico. Eurico de Barros dá-lhe duas estrelas.

Autor
  • Eurico de Barros

Dez milhões de dólares. Esta soma seria uma ninharia para o multimilionário americano J. Paul Getty, que foi em vida o homem mais rico do mundo e é uma das personagens de “Todo o Dinheiro do Mundo”, de Ridley Scott. E dez milhões de dólares foi precisamente o que se gastou para “apagar”, à última da hora, Kevin Spacey do filme, no qual interpretava o dito Getty, e substituí-lo por Christopher Plummer, após aquele ter sido alvo de acusações de assédio sexual. Apesar do filme já ter sido concluído, de haver uma antestreia marcada, “trailer” e cartazes, uma campanha de “marketing”  e outra para os Óscares prontas, a produção e o realizador encolheram-se face à nova caça às bruxas – esta de índole sexual e não política – que se abateu sobre Hollywood e o mundo do espectáculo nos EUA.

[Veja o “trailer” de “Todo o Dinheiro do Mundo”]

Em vez de terem a coragem de estrear “Todo o Dinheiro do Mundo” como estava feito, os responsáveis pelo filme, ciosos de proteger o seu investimento e com medo dos protestos e dos boicotes por terem um actor “pestífero” no elenco, escolheram fazer a Kevin Spacey o que se fazia nas fotografias e nos filmes oficiais e de propaganda aos políticos caídos em desgraça na URSS de Estaline e na China de Mao: removê-lo de cena, eliminá-lo, fazer como se ele nunca lá tivesse estado. A refilmagem das sequências com o seu substituto foi concluída em apenas nove dias e o novo “trailer” de “Todo o Dinheiro do Mundo”, já com Christopher Plummer como J. Paul Getty, ficou pronto mesmo no fim da rodagem. Custo final do “apagamento” de Kevin Spacey: dez milhões de dólares.

[Compare os “trailers” com Kevin Spacey e Christopher Plummer]

Foi um pouco mais que isso – 17 milhões de dólares – que, no Verão de 1973, os mafiosos da Calábria que raptaram em Roma John Paul Getty III, neto de J. Paul Getty e herdeiro da Getty Oil, pediram ao avô para devolverem são e salvo o rapaz de 16 anos. Só que o velho e avarento Getty, que comprava obras de arte caríssimas mas lavava a roupa na casa de banho dos hotéis para poupar na conta, recusou-se a pagar o resgate, encarregando um dos seus funcionários, Fletcher Chase, antigo agente da CIA, de libertar o neto. Para espanto e revolta de Gail Getty, mãe de John Paul e ex-mulher do filho do multimilionário, John Paul Getty Jr. É este rapto que emocionou o mundo na altura, que Ridley Scott recria, combinando factos reais com muitas liberdades dramáticas, e embutindo na trama principal o subenredo do desigual confronto entre a desesperada e impotente mãe (Michelle Williams), e o seu poderoso e monstruoso sogro.

[Veja a entrevista com Ridley Scott e Christopher Plummer]

Soturno, muito mecânico e pouco envolvente, tendo como pano de fundo, esboçado a traços grossos e preenchido por estereótipos, a Itália dos anos 70 em agitação por causa das Brigadas Vermelhas, “Todo o Dinheiro do Mundo” revela-se como um dos filmes mais indiferentes de Ridley Scott. É uma combinação de drama de implosão familiar e “thriller” de rapto, com um subtexto de banalidades sornamente moralizantes sobre a “diferença”, a ganância e a insensibilidade dos “ricos”, personificados por J. Paul Getty (que tinha um cabina telefónica a pagar para uso dos hóspedes da sua mansão em Inglaterra, enquanto gastava uma fortuna a construir, na Califórnia, uma vila igual às dos romanos abastados da antiguidade), e a importância e o significado do dinheiro.

[Veja a entrevista com Michelle Williams]

No papel de Gail Getty, Michelle Williams pouco mais tem para fazer do que indignar-se com a crueldade do sogro por um lado, e sofrer pela sorte do filho pelo outro. O jovem Charlie Plummer sai-se honrosamente como John Paul Getty III, Romain Duris é um caricatural líder dos raptores e Mark Wahlberg o habitual zero à esquerda. Cabe a Christopher Plummer (nomeado ao Óscar de Melhor Actor Secundário) trazer alguma dimensão humana, substância psicológica e um cheirinho trágico ao seu J. Paul Getty, caracterizado como um misto de Scrooge, Creso e Rei Lear, esvaziado de sentimentos por uma vida de negócios ao mais alto nível e de acumulação obsessiva de riqueza. Egoísta e unhas de fome, megalómano e implacável, desprezando o mundo e o próximo do alto dos seus milhões e no meio das obras de arte do seu museu privado, Getty, no entanto, é capaz de lampejos genuínos de afecto e preocupação. O monstro endinheirado afinal tem uns resíduos de consciência.

[Veja a entrevista com Charlie Plummer]

Podemos encontrar no YouTube imagens que nos permitem comparar minimamente as interpretações de Kevin Spacey, este muito maquilhado para parecer mais velho, e de Christopher Plummer no papel de J. Paul Getty. E terá sobrevivido um bocadinho do primeiro em “Todo o Dinheiro do Mundo”. Quando, no início, Getty sai de um comboio no meio do deserto saudita, para negociar a extracção de petróleo com os xeiques, será Spacey e não Plummer. É um levíssimo resto, um ténue vestígio, um ectoplasma sobrevivente do actor considerado “maldito” e eliminado do filme com uma presteza e uma frieza dignas do próprio J. Paul Getty.

Já a seguir, exactamente sobre o mesmo tema, com estreia a 25 de Março nos EUA, vem a série de televisão “Trust”, de Danny Boyle, com Donald Sutherland no papel do multimilionário. Isto se entretanto não se descobrir um qualquer terrível crime sexual no passado do actor.

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