Ter pelo menos metade dos votos expressos dos deputados é obrigatório. Fernando Negrão anunciou esta quinta-feira a candidatura à liderança da bancada parlamentar do PSD, menos de 24 horas depois de Hugo Soares ter apresentado a demissão. O anúncio foi recebido com alguma frieza por colegas de bancada e são poucos os que revelam verdadeiro entusiasmo: entre elogios (tímidos) ao “perfil consistente” do antigo diretor da Polícia Judiciária, há quem não morra de amores por Negrão e sobretudo quem não esqueça que foi Rui Rio quem atirou Hugo Soares borda fora. Entre os deputados sociais-democratas próximos da atual liderança da bancada, antevê-se uma votação pouco expressiva para Negrão, o que seria um primeiro cartão amarelo para o novo líder do partido.

Acho que foi um erro grave ter derrubado administrativamente Hugo Soares que estava a ter um excelente desempenho”, começa por dizer Carlos Abreu Amorim ao Observador. “Era desnecessário causar este mau estar e instabilidade no grupo parlamentar, da exclusiva responsabilidade do líder eleito”, critica o ainda vice-presidente da bancada, que já deixou claro que não tem disponibilidade para continuar no cargo. Diz ser amigo de Negrão, mas para já prefere não comentar a candidatura.

O mesmo afirma o açoriano Carlos Costa Neves, que na reunião da bancada parlamentar do PSD em que Hugo Soares anunciou a convocação de eleições, foi um dos que saiu em defesa da continuidade do líder demissionário. “Há um momento para divergir e convergir. Depois das eleições internas, era momento de convergir. A continuidade de Hugo Soares seria um sinal de convergência e justificava-se, até porque a equipa tem corrido bem. Rui Rio teve outro entendimento e agora terá um caminho mais complexo“, sugere o ex-ministro da Agricultura de Santana Lopes e dos Assuntos Parlamentares no efémero segundo Governo de Pedro Passos Coelho.

Para este social-democrata, Fernando Negrão “tem um perfil forte” que “merece respeito”. “Indo-se para uma alternativa, esta é uma alternativa consistente“, sugere Costa Neves. O que não significa que os deputados estejam plenamente seduzidos com a hipótese Negrão. “Nós somos donos dos nossos votos“, avisa. “Vai ter de nos conquistar devagarinho. Esse processo faz-se de pequenos passos“, remata Costa Neves.

A minha opção era pela continuidade de Hugo Soares“, concorda Sérgio Azevedo que, depois de apoiar Pedro Santana Lopes nas eleições internas, apresentou a demissão da vice-presidência da bancada. Paula Teixeira da Cruz, outra deputada que defendeu Hugo Soares na reunião da bancada do PSD, também afirmou publicamente que a sua opção seria pela continuidade do ainda líder parlamentar. “Não tenho nenhuma razão para mudar o meu sentido de voto. [A permanência de Hugo Soares] seria um sinal grande de união, que é aquilo que o partido preciso“, lamentou a ex-ministra da Justiça.

Miguel Santos, outro parlamentar santanista que também é vice-presidente da bancada, defende a opção de Rui Rio: “Dentro das alternativas que foram aparecendo na comunicação social, que podiam não corresponder à realidade, parece-me uma opção acertada”. E justifica a posição ao dizer que Fernando Negrão “é um deputado experiente, com um currículo vasto e multifacetado. É um institucionalista”.

Outro social-democrata com estatuto de senador foi particularmente duro para com Rui Rio. “O presidente eleito não pode pôr e dispor do grupo parlamentar. Fernando Negrão não vai ter vida fácil porque a maioria preferia a manutenção de Hugo Soares“, avisa este social-democrata, em declarações ao Observador.

Outro deputado, que esteve com Santana Lopes nas eleições internas do partido, deixa um aviso semelhante: “O Hugo Soares estava a ter um bom desempenho. Fernando Negrão corre o risco de ter uma má votação. Tudo depende de quem o acompanhar na direção do grupo parlamentar. Nesta situação concreta, será essencial”, nota.

Há também quem não tenha dúvidas de que Fernando Negrão preparou todo o caminho para suceder a Hugo Soares, senão em conluio, pelo menos com a luz verde de Rui Rio. “Esta candidatura não caiu muito bem. Acredito, honestamente, que resulta de uma combinação entre Fernando Negrão e Rui Rio. Os nomes que foram sendo lançados nos últimos dias [Adão Silva e Luís Campos Ferreira] serviram para dispersar e esta solução não foi encontrada pelo grupo parlamentar. Isso vai refletir-se na votação de quinta-feira“, sugere um outro deputado do PSD.

Perante a insatisfação que os deputados mais próximos de Hugo Soares vão demonstrando, António Topa, líder da assembleia distrital do PSD/Aveiro, deputado e um dos homens de confiança de Rui Rio no Parlamento, deixa um aviso:

Não sei o que sentem os deputados, se estão ou não contentes, ou como vão votar. As eleições internas acabaram. A bancada tem obrigação de estar unida. Vamos ver o que acontece”, diz ao Observador.

Os “50%+1” que podem não chegar e os receios de Rui Rio

O nome de Fernando Negrão foi um dos temas de um jantar que juntou Salvador Malheiro, diretor de campanha de Rui Rio, e vários deputados que apoiaram Rui Rio, em Coimbra. O objetivo era encontrar um possível sucessor de Hugo Soares na liderança da bancada. Na shortlist que daí resultou, e que incluía os nomes de Adão Silva e Luís Campos Ferreira, a possível candidatura de Fernando Negrão foi sinalizada como a mais difícil de passar no grupo parlamentar, sabe o Observador. Ou seja, Rui Rio está consciente de que um resultado sólido para Negrão não é um dado adquirido.

Esta quinta-feira, depois de anunciar a candidatura, Fernando Negrão recusou colocar uma fasquia para a votação da próxima semana, dizendo apenas que queria ter “os votos necessários” para liderar a bancada. Confrontado com a aparente falta de união da bancada em torno da sua candidatura, o deputado do PSD foi cáustico:Não vou fazer nada para unir porque não vou obrigar as pessoas a votarem em mim. Os deputados são livres e o voto é um voto universal. Limitar-me-ei a aguardar o resultado”. E ainda acrescentou:

Os consensos são muito importantes. Mas quem almeja os 100%, almeja, por vezes, um consenso falso”.

Declarações que caíram mal entre alguns deputados do PSD. Quando se esperava que Fernando Negrão fizesse um discurso agregador, acabou por disparar ao lado. Mesmo os deputados que apoiaram Rui Rio não escondem os calafrios causados pela conferência de imprensa de Fernando Negrão. “Isto na quinta-feira pode correr mal“, diz um deputado pro-Rio ao Observador.

O risco de haver uma pequena rebelião no dia da votação não está completamente afastado. O deputado Pedro Pinto, por exemplo, avisou logo na quarta-feira que não ia participar na votação para o novo líder da bancada, em protesto contra o afastamento de Hugo Soares. E não é líquido que outros deputados não façam o mesmo. O mais provável é haver muitos votos brancos, uma forma de os deputados descontentes mostrarem um cartão amarelo a Rui Rio.

Tudo somado, uma votação pouco expressiva na quinta-feira poderia colocar em causa a legitimidade de Fernando Negrão. Hugo Soares, por exemplo, recebeu o voto a favor de 85% dos deputados. Entre os sociais-democratas ouvidos pelo Observador, há quem aponte para uma votação na ordem dos 50/60%, um resultado que ficaria francamente aquém das expectativas.

Mas Negrão tem algum vento a favor. Mesmo não sendo unânime, o congresso do PSD pode vir a representar o virar de página que o partido anseia. Perante o cenário de não ter metade dos votos, um deputado diz que “quando chega a hora, as pessoas são muito conservadoras e têm algum sentido de responsabilidade.” Haverá votos em branco, mas os deputados “vão compreender que está em causa a imagem da bancada”.

Se Rui Rio conseguir dar os sinais certos de união, se apresentar listas para os órgãos do partido que representem todas as sensibilidades, se o discurso for positivo, alguns dos deputados insatisfeitos com a gestão do sucessor de Passos Coelho podem desistir da ideia de afrontar o líder. Pelo menos, os deputados mais institucionalistas, que sabem que um eventual chumbo de Negrão seria um péssimo sinal da saúde do PSD e uma arma nas mãos da oposição.