“O tipo de liderança e personalidade de Bruno de Carvalho é comparável ao de Donald Trump? Acho que sim, em alguma medida é. Também precisa de ter apoio, também precisa de… só que Donald Trump tem outro tipo de controlos – que é o que me parece que na próxima AG possa estar em causa”, soltou José Roquette esta quinta-feira numa entrevista ao Público/Rádio Renascença, a propósito da forma como “os líderes do populismo têm essa característica comum” de lidarem mal com a crítica.

O antigo presidente do Sporting entre os anos de 1996 e 2000 esteve algum tempo afastado da vida “política” do clube e não tem por hábito participar nestes momentos mas acabou por ter, com uma frase, o condão de agitar a antecâmara de uma assembleia geral que ditará o futuro imediato e a médio prazo dos leões. Empresário de sucesso e neto de um dos fundadores do clube, José Alvalade, Roquette é uma das figuras que visões mais opostas gera no universo verde e branco: uns agradecem-lhe a profissionalização que trouxe e que contribuiu para os títulos de 2000 e 2002, outros apontam-lhe a maior parte da culpa do precipício desportivo e financeiro que se vivia antes da entrada de Bruno de Carvalho, em 2013. Uma coisa é certa: quando fala, poucos ficam indiferentes. E esta cirúrgica intervenção não foi exceção a isso mesmo.

Percebe-se nas entrelinhas que José Roquette, mais até do que a questão da contenção verbal do atual líder leonino, mostra-se preocupado com as ramificações de um modelo assumidamente presidencialista no Sporting. É certo que, às tantas, acaba por mostrar o desagrado com a possibilidade de instituições que são tão caras em termos históricos ao clube, como Núcleos, Leões de Portugal, Grupo Stromp e Cinquentenários, passarem a estar sob a “tutela” da direção; no entanto, o que mais se discute é a visão de um reforço de poderes de Bruno de Carvalho. No caso de Roquette e dos (poucos) críticos que têm dado a cara contra a mudança dos estatutos. “Se fosse [à AG] tentaria o adiamento; se não fosse o caso, votaria contra. Há solução para a presidência se ele sair? Não vejo. Há sempre à volta destes líderes uma certa desertificação. Mas há uma coisa que não posso, de forma nenhuma, aceitar: é que as soluções para o Sporting sejam só uma pessoa”, destacou.

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Agora, recuperemos as palavras de Bruno de Carvalho sobre as mudanças nos estatutos que serão sufragadas este sábado, numa das sessões de esclarecimento que fez antes da viagem para o Cazaquistão. “90% das alterações até são linguísticas. 5% ou um bocadinho mais tem a ver com questões disciplinares com a introdução do novo regulamento disciplinar. Depois, 2,5% tem a ver de facto com o modelo presidencialista que se quer, e que é normal para um clube desta dimensão”, explicou. São estes 2,5%, assumidos por todos, que estarão em causa: sem meio termo, os votantes querem ou não o regime presidencialista com um líder com as características do atual número 1? “Não sou politiqueiro, não preciso de aclamações. Sou muito altruísta, mas no mínimo tenho de sentir a gratidão”, exclamou Bruno de Carvalho. Este sábado, terá a resposta.

“Sem os sportinguistas atrás, matam-me. Neste momento, estão quase a matar-me”, diz Bruno de Carvalho

Em termos genéricos, não há nenhuma figura entre os “notáveis” que foram falando, em público ou em privado, desde dia 6, altura em que Bruno de Carvalho anunciou em conferência de imprensa que o futuro do elenco diretivo seria sufragado em nova assembleia geral sob a fasquia dos 75% de aprovação, que se mostre contra um modelo presidencialista. Aliás, o que a história do clube mostra é que foram os modelos mais presidencialistas que melhor vingaram. Exemplo paradigmático? João Rocha (1973-1986), considerado por muitos o melhor líder de sempre do clube verde e branco. A dúvida entronca, isso sim, nas fronteiras e nos limites, sobretudo a nível interno, desse conceito. E é o que provoca opiniões discordantes.

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Continuidade? Sim. Alterações estatutárias? Nem por isso

O que defendem as vozes dissonantes de Bruno de Carvalho? Que o coletivo deverá sempre prevalecer sobre o individual. “De uma vez por todas, importa ter a consciência de que o ‘nós’ será sempre mais importante do que o ‘eu'”, destacou num artigo de opinião no jornal A Bola Sérgio Abrantes Mendes, antigo líder da Mesa da Assembleia Geral no final da década de 80 e candidato derrotado nos sufrágios de 2006 e 2011. “As infrações disciplinares também já constam dos estatutos, é abrir o leque de oportunidades para perseguir A, B ou C”, defendeu o juiz desembargador que, ainda assim, não coloca em causa votar a favor do ponto 3 em causa e que diz respeito à continuidade dos atuais órgãos sociais. Contra, só os pontos 1 e 2, que terão de ser sufragados com pelo menos 75% dos votos.

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Carlos Barbosa da Cruz, advogado e antigo membro da direção de Soares Franco que chegou a ser apontado como possível candidato às eleições de 2009 (acabou por avançar José Eduardo Bettencourt, contra Paulo Pereira Cristóvão), criticou o atual presidente esta semana no seu espaço de opinião semanal no Record: “Tornou-se evidente que a animosidade que o presidente do Sporting nutre contra mim nada tem a ver com o Sporting, tem a ver apenas com ele (…) O presidente do Sporting tem esta crónica de se confundir com a instituição que representa, é um tique próprio de sistemas autocráticos”.

Também Vasco Lourenço e Marçal Grilo, dois elementos que apresentaram a sua renúncia ao cargo que tinham no Conselho Leonino, alinharam pelo mesmo diapasão. “A criação do órgão social Presidente, acompanhado pela extinção do Conselho Leonino e do fim da utilização do método de Hondt para eleger os membros do Conselho Fiscal e Disciplinar, transformará o sistema de governo do Sporting num sistema presidencialista sem quaisquer poderes que o condicionem. Se acrescentarmos a aprovação de um regulamento disciplinar que dê ao Conselho Fiscal um poder excessivo para atuar sobre qualquer sócio que ponha em causa os órgãos sociais, estamos mesmo a ver no que pode resultar…”, esclareceu durante a semana o Capitão de Abril. “Deve haver um código de conduta mas não um regulamento disciplinar que ponha em causa a liberdade de expressão dos sócios”, disse o ex-ministro da Educação, ainda antes de renunciar ao cargo.

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“Temos amanhã [sábado] uma derradeira oportunidade para evitar a descaracterização formal do nosso clube com a implementação duma ‘lei da rolha’ ao pior estilo ditatorial e a concretização de uma centralização e perpetuação de poder numa só pessoa. Ao contrário de mim que estou fora do país e não consigo mesmo voltar a tempo de estar presente, não faltes à AG e ajuda a mostrar a todos que os sportinguistas são leões e não carneiros!”, divulgou esta sexta-feira em comunicado Pedro Madeira Rodrigues, candidato derrotado no último sufrágio eleitoral em março de 2017.

Continuidade? Claro. Alterações estatutárias? Pode ser também

Logo após a assembleia geral de dia 3, Bruno de Carvalho enumerou uma lista enorme daquilo que designou de “sportingados” (neologismo que nasce da mistura entre “sportinguistas” e “aziados”). Mas tão depressa referiu isso como convocou, poucos dias depois, uma sessão de esclarecimento com todas essas pessoas personalidades (em 49, apareceram apenas cinco: Rui Morgado, Margarida Dias Ferreira, Rogério Beatriz, José Pedro Rodrigues e Pedro Paulino) para explicar, de viva voz, o porquê das críticas. “A partir deste momento, esta lista deixou de existir para mim”, disse no final. Pelo meio, sem fosse tornado público, esteve em contacto com algumas dessas pessoas para dar todas as explicações possíveis.

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“Acho que o novo regulamento disciplinar não coloca em causa a liberdade crítica dos sócios. Atualmente, não há um regulamento disciplinar, não estando bem definidos os direitos e os deveres dos sócios. Esta proposta define as infrações disciplinares, garantindo a audiência prévia de qualquer visado antes de qualquer deliberação. O trabalho do Conselho Diretivo, em particular do seu presidente, tem sido muito positivo”, defendeu Daniel Sampaio, antigo vice da Mesa da Assembleia Geral do clube ao Record. Também Dias Ferreira, antigo vice da direção, presidente da Mesa da Assembleia Geral e candidato derrotado nas eleições de 2011, e Eduardo Barroso, ex-líder da Mesa da Assembleia Geral, alinharam pelo mesmo diapasão.

Bruno de Carvalho, que há menos de um ano foi reeleito com cerca de 90% dos votos, não gostou do que se passou na última assembleia geral, onde foram interpostos três requerimentos para que a votação das alterações estatutárias e do novo regulamento disciplinar fossem adiadas para um outra reunião magna por falta de informação “consolidada”. Nesse dia 3, chegou mesmo a ponderar uma medida radical: precipitar um cenário de eleições antecipadas. Não avançou, mas nem por isso deixou de ter uma posição de força ao convocar uma nova AG colocando como fasquia mínima para a continuidade 75%, não só para os dois pontos que tinham ficado pendentes da outra reunião magna mas também sobre a sua permanência dos atuais dirigentes no cargo.

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O atual presidente do Sporting podia ter seguido vários caminhos: dar mais tempo de ponderação e amadurecimento para as mudanças em causa; retirar essas propostas para outra oportunidade (no final da temporada); fazer alterações às ideias que iam a sufrágio. Ao invés, forçou o seu ponto de vista e, também pelos apoios múltiplos que foi recebendo até de treinadores e jogadores de diferentes modalidades, fez all in nesta questão acreditando que a mão que tem para apresentar do trabalho desenvolvido nos últimos cinco anos é a melhor na mesa. “É uma questão de gratidão”, disse.

“É preciso que os sportinguistas, em vez de serem uma maioria silenciosa, sejam uma maioria ruidosa contra a minoria ruidosa que cria chavões. Vou dizer uma frase que disse numa AG: com os sportinguistas atrás, farei tudo, levarei o Sporting ao céu. Não tenho dúvidas disso. Sem os sportinguistas atrás, matam-me. Neste momento estão quase a matar-me e a culpa, sinceramente, está a ser dos sportinguistas, porque preciso de militância e disse que não ia passar um segundo mandato igual ao primeiro. A militância continua a ser pouca”, focou Bruno de Carvalho esta semana, antes de abordar também de forma específica as alterações propostas: ” Sobre o regulamento disciplinar há um equívoco: não há nenhuma mudança, porque ele hoje não existe. Não podemos continuar assim. O que mudou? Os vouchers, os emails, os jogos combinados… Esta teia ser descoberta mereceu-nos alguma reflexão porque havia sócios do Sporting a passar informação confidencial para os rivais”.

“Lei da rolha? A crítica, quando é bem feita, tem sido aproveitada e a prova disso foi as alterações que introduzimos nas nossas propostas. Sou acusado de perseguir quem me critica mas isso é confundir crítica com calúnia, injúria e difamação; a partir daí, criaram-me este rótulo. A minha lista é de Schindler, permite a 3,5 milhões perceberem a quem me refiro. Da sessão de esclarecimentos, de 46 foram cinco, tenho pena que três fossem apenas fazer discursos bonitos para a televisão. Se aquelas 46 pessoas não gostam desta direção, seriam a plateia ideal para esclarecer as propostas. Gostei dessa expressão que foi utilizada, a minha lista foi de Schindler de facto: mostrou frontalidade, não andei pelas costas a dizer coisas. Fiz com toda a boa intenção, não para prejudicar absolutamente ninguém, e tenho pena que as pessoas não tivessem dado a cara”, acrescentou.

Muito se tem falado nos últimos dez dias sobre a assembleia geral do Sporting. De posições opostas, de posturas antagónicas, de visão extremadas. Mas, na essência, aquilo que vai acontecer não é nem uma reunião magna nem um ato eleitoral: é um referendo. Um referendo sobre aquilo que Bruno de Carvalho balizou como os 2,5% das alterações nos estatutos relacionadas com um modelo assumidamente presidencialista para o clube. Que, depois, assumem interpretações distintas.