Não que pretendamos colocar em causa a estratégia da Renault, marca que lidera a Aliança Renault-Nissan-Mitsubishi, que é “só” o segundo maior fabricante de veículos no mundo, e o maior se considerarmos apenas veículos ligeiros. Mas a realidade é que as propostas com que avança para cimentar a competitividade do Zoe, o seu eléctrico mais vendido, parecem “dar uma no cravo e outra na ferradura”.

Entre as que acertaram, é de realçar a aposta na carga rápida, que na realidade nunca deixou de existir, estando apenas “esquecida”. Com esta aposta, é possível carregar o Renault a 43 kW, em vez de apenas 22 kW como acontecia até aqui, permitindo assim ao eléctrico passar de 0 a 80% na carga da bateria em somente 45 minutos, em vez de 1h40.

Embalada por este sucesso, a Renault voltou a acertar, agora propondo um novo motor para o Zoe, o R110 de 108 cv, como alternativa ao R90 (de 92 cv) e ao Q90 (de 88 cv), este último de origem Continental, por oposição à família R, fabricada e concebida pela Renault.

Munido do R110, o Zoe continua limitado a 135 km/h (veja aqui as características técnicas), para não devorar a carga da bateria e prolongar a autonomia. Mas há vantagens, a começar pela capacidade de arranque, com o utilitário eléctrico a conseguir atingir os 100 km/h em apenas 11,4 segundos, bem melhor do que os anteriores 13,2 segundos. Também nas reprises, por exemplo subir de 80 para 120 km/h, o Zoe é agora muito mais lesto, necessitando de menos 2 segundos, o que é importante quando pretendemos realizar uma ultrapassagem e o tempo ou o espaço não abundam. E este dado é tanto mais relevante quanto o novo R110 fornece mais 16 cv, mas a mesma força, com o binário a continuar fixado nos 225 Nm.

Se é mais potente, o Zoe com 108 cv revela o mesmo apetite para o consumo de energia eléctrica, continuando a reivindicar 300 km de autonomia em WLTP (ou 400 km em NEDC), uma vez que ao contrário do que acontece nos motores a gasolina ou diesel, a maior potência dos motores eléctricos não está directamente associada a um maior consumo, isto para o mesmo ritmo de condução.

Além do motor mais potente, o Zoe com o R110 vai passar a oferecer uma série de melhorias face ao modelo actual – supomos que em todas as versões a partir do Salão de Genebra. Nomeadamente, uma nova cor (Blueberry Purple metalizado) e mais equipamento, com destaque para o sistema Android Auto, através do já conhecido R-Link Evolution, o que permite comandar por voz a maioria das aplicações de que os condutores gostam, do Waze ao Spotify, passando pelo Messenger.

Então qual é o problema?

A tal martelada de que falámos de início surgiu quando a Renault anunciou que o R110, à semelhança dos restantes motores R, não permite carga rápida.

Ou seja, o novo Zoe é melhor e mais bem equipado, é substancialmente mais rápido nas acelerações, mas depois obriga a “secar” 1h40 junto ao posto de carga rápida – e logo agora que os postos deste tipo prometem florescer como cogumelos, pelo menos assim que a energia passar a ser paga –, em vez de apenas 45 minutos para recarregar o equivalente a 32 kWh de energia, o que permite percorrer mais cerca de 220 km.

Depois de a Renault apostar na comunicação da carga rápida na actual geração, indo ao encontro da necessidade dos condutores que até podem recarregar a bateria em casa (tanto que é mais barato) numa wallbox, mas preferem ter a possibilidade de, perante uma situação inesperada ou numa viagem para o Porto ou para o Algarve, recuperar a autonomia de que necessitam enquanto tomam um café, eis que o Zoe R110 dá um passo atrás. Ou bem que a Continental está a desenvolver uma versão Q110 do seu motor, para poder ser alimentado a 43 kW, ou não é fácil perceber a estratégia da marca francesa.