Cinema

“Pequena Grande Vida”: querida, encolhi o Matt Damon para nada

Alexander Payne assina uma fita de FC onde as pessoas pagam para viver vidas em miniatura, mas a história devia ser mais satírica e menos bem-comportada. Eurico de Barros dá-lhe duas estrelas.

Não há muitos filmes de ficção científica memoráveis sobre o tema do encolhimento de pessoas, mas mesmo assim encontram-se uns quantos, os melhores dos quais assentes em obras do género. É o caso de “Os Sentenciados”, de Jack Arnold (1957), baseado no clássico de Richard Matheson “The Incredible Shrinking Man”; e de “Viagem Fantástica”, de Richard Fleischer, adaptação de um conto de Jerome Bixby e Otto Klement. A estes juntam-se títulos como o delicioso “O Dr. Cyclope”, de Ernest B. Schoedsack, “ A Boneca do Diabo”, de Tod Browning, ou a comédia satírica “Queridos, a Mamã Encolheu”, de Joel Schumacher. E isto pondo de parte falhanços como “O Micro-Herói”, de Joe Dante, e disparates como “Querida, Eu Encolhi os Miúdos!”, de Joe Johnston, e respectivas continuações.

[Veja o “trailer” de “Os Sentenciados]

O tema da miniaturização dos humanos volta à baila com Alexander Payne em “Pequena Grande Vida”. Um grupo de cientistas noruegueses descobre um processo de encolher pessoas e grande parte dos animais, o que poderá ajudar a minorar — ou até a resolver — alguns dos maiores problemas que afligem hoje a humanidade: o excesso de população, a crescente falta de espaço para viver, a diminuição dos recursos naturais, as alterações no clima e a poluição. Alguns anos após a descoberta, que entretanto foi comercializada começam a estabelecer-se por todo o planeta mini-comunidades habitadas por pessoas, casais, grupos de amigos e famílias que decidiram ser encolhidas e começar uma nova vida, agora em miniatura e com grandes vantagens também do ponto de vista financeiro e da qualidade da existência. O lema na moda passa a ser: “Small is useful”.

[Veja o “trailer” de “Pequena Grande Vida]

Um desses casais que opta por ser reduzido a 13 centímetros de altura e ir viver para uma afluente mini-comunidade chamada Leisureland é composto por Paul e Audrey Safranek (Matt Damon e Kirsten Wiig). Só que, quando Paul acorda já miniaturizado (o processo de redução é cuidadosamente racionalizado, explicado e visualizado por Payne e pelo seu habitual colaborador nos argumentos, Jim Taylor), descobre, que, à última hora, Audrey teve medo e desistiu. Não só de ser encolhida e ir viver para Leisureland, mas também do casamento com Paul, que fica sozinho e deprimido no seu novo pequeno mundo. Ainda por cima, não consegue exercer a sua profissão de terapeuta ocupacional e tem que ir trabalhar para um “call center”.

[Veja a entrevista com Alexander Payne]

Aqui chegado, Alexander Payne parece ir desenvolver uma sátira social a partir da premissa de ficção científica em que a fita assenta, mostrando que os seres humanos levam os seus problemas, a sua mesquinhez, os seus defeitos, os seus vícios e os seus preconceitos para onde quer que vão, mesmo que diminuam de tamanho e aleguem as melhores intenções para o fazer, repetindo sempre os mesmos erros. Assim, Paul descobre que, nos arredores de Leisureland, há um bairro modesto e feio, igual aos dos subúrbios das grandes cidades, onde se amontoam as pessoas que trabalham para os habitantes daquele, na sua maioria imigrantes. É lá que vive Ngoc (Hong Chau), uma dissidente vietnamita com uma prótese numa perna. Ngoc faz limpezas no condomínio onde ele vive, e Paul começa a ajudá-la.

[Veja a entrevista com Matt Damon]

Só que em vez de seguir por esse caminho e aproveitar para a história algumas das ideias referidas no início da fita (terroristas punidos com redução forçada, tráfico de pessoas dentro de caixas de electrodomésticos), o realizador opta por se centrar na história de Paul e Ngoc. E a páginas tantas, o filme muda de registo, perde o sentido de humor e as potencialidades de conflito, tornando-se bem-comportado, edificante e moralista – e também maçador, repetitivo e inconsequente. Perante isto, Alexander Payne nem precisava de ter diminuído as personagens. Para o caso tanto faz a acção de “Pequena Grande Vida” passar-se no nosso mundo ou numa versão em ponto pequeno dele.

[Veja imagens da rodagem do filme]

A escolha do insosso Matt Damon para o papel principal também não ajuda muito, mesmo que a personagem de Paul seja por definição insossa, mesmo quando o filme quer que ele tenha uma epifania e se “transforme”. Christoph Waltz, no papel de Dusan, o vizinho borguista e pragmático de Paul, que veio para Leisureland não por altruísmo ou pelo desafio de uma nova existência, mas para ganhar dinheiro com esquemas e gozar a vida no luxo, é o que fica de melhor de “Pequena Grande Vida”, e corporiza o que o filme podia ter sido: mais arriscado, mais gozão, mais cínico e menos chato. Alexander Payne investiu numa boa ideia, mas geriu-a mal e acabou com rendimentos reduzidos. “Pequena Grande Vida” bem poderia chamar-se “Querida, Encolhi o Matt Damon Para Nada”.

    Se tiver uma história que queira partilhar ou informações que considere importantes sobre abusos sexuais na Igreja em Portugal, pode contactar o Observador de várias formas — com a certeza de que garantiremos o seu anonimato, se assim o pretender:

  1. Pode preencher este formulário;
  2. Pode enviar-nos um email para abusos@observador.pt ou, pessoalmente, para Sónia Simões (ssimoes@observador.pt) ou para João Francisco Gomes (jfgomes@observador.pt);
  3. Pode contactar-nos através do WhatsApp para o número 913 513 883;
  4. Ou pode ligar-nos pelo mesmo número: 913 513 883.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Venezuela

Um objeto imóvel encontra uma força imparável

António Pinto de Mesquita

Num dos restaurantes mais trendy de Madrid ouve-se o ranger de um Ferrari que para à porta. Dele sai um rapaz novo, vestido com a última moda. Pergunta-se quem é. “É filho de um general venezuelano”.

Enfermeiros

Elogio da Enfermagem

Luís Coelho
323

Muitos pensam que um enfermeiro não passa de um "pseudo-médico" frustrado. Tomara que as "frustrações" fossem assim, deste modo de dar o corpo ao manifesto para que o corpo do "outro" possa prevalecer

Poupança

O capital liberta

André Abrantes Amaral

É do ataque constante ao capital que advêm as empresas descapitalizadas, as famílias endividadas e um Estado sujeito a três resgates internacionais.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)