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“Senador Rubio, a minha filha foi atingida nas costas, quando fugia pelo corredor da escola Stoneman Douglas, por uma arma de assalto. Ok? Trata-se de uma arma de guerra e é demasiado fácil arranjar uma. O facto de o senador não conseguir estar de acordo com todos os que aqui estão e dizer isso… lamento”. Fred Guttemberg perdeu a sua filha na semana passada, no tiroteio da escola secundária de Parkland, e levantou a sala com uma intervenção impressiva e sobretudo muito dura com o senador republicano da Florida ali presente. Marco Rubio admitiu restrições à posse de armas.

Foi alguma coisa, tendo em conta a linha dos senadores republicanos fortemente influenciada pelo lóbi das armas nos Estados Unidos. No debate, em que participaram pais e alunos da escola secundária que foi palco de mais um tiroteio trágico (morreram 17 pessoas), Marco Rubio marcou presença, mas não abandonou a posição central da maioria dos republicanos: “Se acreditasse que banir as armas de assalto funcionaria, eu teria apoiado essa lei”. Ali, naquela sessão transmitida em direto pela CNN esta quarta-feira, Rubio foi sobretudo confrontado com essa exigência por parte de sobreviventes e famílias enlutadas.

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Também houve um aluno que o questionou diretamente: “Pode dizer-me que não voltará a aceitar um único donativo da Associação Nacional de Armas?” (NRA, na sigla americana). A sala explodiu no apoio a Cameron Kasky e mal deixou Rubio responder. O aluno ia insistindo: “Nem mais um donativo para a sua campanha?”, “há pessoas nesta sala que podiam arranjar-lhe o mesmo dinheiro”. O senador nunca respondeu diretamente, apenas argumentou que “a influência destes grupos não vem do dinheiro, mas dos milhões de pessoas que concordam com a nossa agenda”: “Eu sempre aceitei dinheiro de quem concorda com a minha agenda”. O senador republicano sustentou ainda que isso não faria nada pelo “objetivo” que é “defender as pessoas de situações como a que aconteceu” naquela comunidade do seu Estado.

Depois, argumentou ainda que a Associação Nacional de Armas não concorda com algumas das restrições que propõe, como passar de 18 para 21 anos a idade mínima para poder comprar uma arma nos EUA. Noutro momento do debate, admitiu rever a sua posição sobre a questão da capacidade de munição de cada arma vendida ou dar mais garantias sobre quem compra armas: “Certificar que criminosos perigosos e pessoas com perturbações não possam comprar armas de qualquer tipo”. Segundo analisa o The Washington Post, a posição marca um “ponto de inflexão” face ao que os republicanos defendem sobre armas e pode pressionar outros a fazerem o mesmo ou então pode ter consequências futuras para o senador que é apontado a outros voos, tal como a Casa Branca, ao afastar-se da base do partido.

Trump quer dar bónus a professores armados

Na sessão pública, também tinha estado a porta-voz da NRA, Dana Losech, que defendeu o reforço das leis sobre saúde mental e não restrições à posse de armas para prevenir situações de tiroteios em escolas como as 18 que já aconteceram, só este ano, nos Estados Unidos. “Pessoas loucas não deveriam poder comprar armas”, argumentou, dizendo que a NRA não apoia “que loucos, aqueles que são um perigo para eles mesmo, para os outros, ponham as mãos numa arma de fogo”. No público, chegaram a dizer que estavam a fazer mais pelos “três filhos” de Dana do que ela mesma.

A porta-voz da associação — que tem cerca de 5 milhões de membros — argumentou que a luta deste grupo por restringir o acesso a pessoas registadas como mentalmente perturbadas tem “20 anos”. “E isto porque tenho filhos. Mas não estou aqui só pelos meus filhos, estou aqui também por vocês, para que ninguém precise de passar por isto outra vez”. Dana Losech, fugiu a questões concretas — sobre a proibição de armas semi-automáticas, por exemplo — argumentando com a “falhas no sistema”, que devia cadastrar em cada estado quem são as pessoas que não deviam ter acesso a armas por estarem referenciados como perigosos ou mentalmente incapazes.

Do público surgiram todo o tipo de vozes e casos, como o de Ryan Deish, que descreveu o momento como, no 5.º ano, teve de se fechar numa casa de banho por três horas para esperar que um atirador fosse apanhado na cidade. E também como sete anos depois desse momento viveu o terror da passada semana, naquela escola secundária, refugiando-se com mais 19 colegas num armário, “temendo pela vida”. “Gostaria de saber por que temos de ser nós a manifestarmo-nos para salvar inocentes?”. Marco Rubio disse-lhe que “isso não deveria fazer parte” da sua experiência escolar, mas garantiu que nestes anos “foram feitos progressos”. E que este é um caminho longo, argumentou perante alguma impaciência da sala, em que “há que pôr em acordo pessoas dos dois lados” desta questão.

Também na Florida, num momento de contacto com as sobreviventes do tiroteio, o presidente Donald Trump disse que ia considerar a proposta de armar os professores, para prevenir outros tiroteios deste género. E deu mesmo o exemplo do que teria acontecido se o professor que defendeu os alunos tivesse uma arma consigo: “Se o treinador tivesse uma arma de fogo no seu cacifo quando correu em direcção a este tipo — esse treinador foi muito corajoso, salvou muitas vidas, imagino — mas, se tivesse uma arma, não teria de ter corrido, tê-lo-ia abatido e isso teria sido o fim”.

Já Rubio disse que não apoiava a ideia, no debate desta quarta-feira. “A ideia de ter os meus filhos a irem para a escola com professores armados não é coisa com que, sinceramente, me sinta confortável”. Mais um distanciamento face à posição de um republicano, para mais o presidente dos EUA.