Há vários meses que se especulava sobre a forma encontrada por Carles Puigdemont para suportar o seu exílio na Bélgica. O véu começou a ser levantado numa entrevista do ex-presidente da Generalitat, esta semana, mas o El País chegou a novos dados: é com base em parte dos salários doada por dirigentes do Governo catalão e do Partido Demócrata Europeo Catalán​ (PDeCAT) e em contributos de empresários da região autónoma que Puigdemont e a sua entourage podem viver na cidade belga de Waterloo e planear a secessão catalã.

Além Puigdemont, o grupo de exilados catalães conta com outros quatro protagonistas: os ex-conselheiros para a Cultura, Lluís Puig, para a Saúde, Toni Comín, Agricultura, Meritxell Serret, e Ensino, Clara Ponsatí. Primeiro em Bruxelas e, mais recentemente, numa casa com um custo mensal de 4.400 euros, em Waterloo, desde o início colocaram-se questões sobre como seria possível sustentar esta pesada estrutura a 1350 quilómetros de Barcelona.

Puigdemont quer liderar o Governo catalão a partir do exílio

Foi o próprio Puigdemont quem avançou as primeiras explicações. Em entrevista à rádio catalã Rac 1 — num momento que Moncloa já está a investigar o financiamento da nova vida do ex-líder catalão e dos elementos que o rodeiam –, disse que não há qualquer irregularidade.

Pagamo-los nós mesmo e outras pessoas [com dinheiro] do seu bolso, [pessoas] que me são próximas, que dão dinheiro. Amigos. Há pessoas que, voluntariamente, expressam a sua solidariedade tornando possível o funcionamento, com as limitações óbvias, do Governo [catalão] no seu exílio”, disse Puigdemont.

O El País acrescenta dados mais concretos ao modo como o grupo está a ser financiado. De acordo com o diário espanhol, que recolheu informações junto de fontes no PDeCAT e da Esquerra Republicana de Catalunya (ERC), há quatro fontes diferentes de financiamento.

A primeira, talvez mais óbvia: o salário que Puigdemont e Toni Comín recebem como deputados do Parlamento catalão. São cerca de 2.800 euros brutos mensais, a multiplicar por dois. Esses salários são suficientes para pagar o aluguer da casa onde se reúnem regularmente responsáveis e assistentes catalães para discutir o futuro da Generalitat.

Puigdemont: “É possível governar a partir de Bruxelas, mas não da prisão”

A segunda via de financiamento, e que será a mais substancial: aquilo que o El País designa de doações de simpatizantes do independentismo catalão — a causa pela qual o ex-líder da Generalitat se bateu, que lhe valeu um processo judicial por rebelião, sedição e uso indevido de meios públicos e a fuga para a Bélgica.

Nesse grupo, há empresários a quem a causa separatista é querida. E, entre eles, um nome que se destaca: Josep Maria Matamala, um dos fundadores da Convergència Democrática de Catalunya, que se cruzou com o ex-líder catalão em finais da década de 1980, acabando por tornar-se um dos mais próximos confidentes de Puigdemont, e que viajou também para Bruxelas, em outubro do ano passado.

No mesmo grupo de adeptos da causa separatista (ou independentista) e há também altos responsáveis da Generalitat que abdicam de parte dos seus salários para apoiar a causa comum. “Não se trata de algo generalizado entre todos os membros do Governo, mas sim de elementos mais próximos de Puigdemont, em particular no departamento da presidência”, diz ao El País fontes do Governo catalão.

Terceira via (sem quaisquer duplos sentidos): o próprio PDeCAT, que assegura a defesa de Carles Puigdemont, cujo caso está a ser acompanhado por advogados tanto em Barcelona como na Bélgica.

E, por fim, a Associação Catalã para a Defesa dos Direitos Civis (Associació Catalana per la Defensa dels Drets Civil). Daqui saem as verbas que também financiam o exílio do grupo, mas não só. O dinheiro recolhido por esta associação segue, ao mesmo tempo, para as famílias dos ex-conselheiros de Puigdemont que estão em prisão preventiva: Oriol Junqueras e Joaquim Forn.

O grupo também já estudou a forma mais prática de garantir o financiamento do novo “Conselho da República”, organismo cuja criação Puigdemont anunciou esta sexta-feira e que se pretende que venha a servir como centro de Governo à distância da região autónoma. O Conselho poderá ser transformado em fundação privada — podendo receber donativos que garantam a sua sobrevivência financeira.