Rui Rio esperava um “convulsãozita”, mas foi fortemente atacado por vários deputados na primeira vez que foi como líder a uma reunião da bancada social-democrata. O antigo líder parlamentar do PSD, Luís Montenegro, fez uma intervenção muito crítica para o presidente do PSD: “Com a estratégia que o dr. Rui Rio aqui enunciou o dr. António Costa vai andar a gozar connosco.” A ele juntaram-se vários outros deputados como o antigo vice-presidente da bancada, Carlos Abreu Amorim, que exigiu ao líder um pedido de desculpas. À saída da reunião, Rui Rio desvalorizou as críticas, dizendo que não notou a convulsão na bancada e enalteceu as “intervenções construtivas”. O presidente do PSD disse que aconteceu o que estava à espera: “Uma realidade dentro da sala, outra difundida fora dela“, descreveu aos jornalistas.

Rui Rio disse ainda que, em 89 deputados “cada um diz aquilo que sente“, e que não vê forma de a reunião ter “corrido melhor”. E acrescentou: “Há líderes que se calhar gostam que se levantem todos a aplaudir. Esse não é o meu estilo e não estou a ver aqui nenhuma dificuldade especial“.

À porta fechada, o presidente do PSD tinha dito — na primeira intervenção — que “as eleições não se ganham, perdem-se“, apontando como primeira estratégia fragilizar o Governo socialista. Já na última intervenção, em que os aplausos se ouviram no exterior da sala, Rui Rio teve de defender-se das várias críticas. Desde logo, segundo relatos de vários deputados ao Observador, o presidente do PSD começou por dizer: “Uma das especialidades que tenho é lidar com isto [a conflitualidade]. E não estou a ser irónico (…) Tenho uma especialização”.

Rio tem um “feeling” que há um PS bom, que quer dialogar

Rio também tinha ouvido diversas críticas sobre a aproximação ao PS e dedicou parte da intervenção final a defender-se. O presidente do PSD — segundo relatos de vários deputados do PSD ao Observador — disse ter um “feeling” e acredita que “há uma parte substancial do PS que deseja um diálogo construtivo“. Para Rio, compete ao PSD “puxar pelo PS“, o que pode ser vantajoso se o partido tiver “a habilidade” de ter a “opinião pública” do seu lado.

Rui Rio disse ainda esse diálogo não se reduz ao PS, mas inclui também outros partidos como o CDS. “Pelo menos esses dois“, afirmou, acrescentando que também se podem discutir com o PCP questões relativas, por exemplo, às autarquias.

Dentro da sala, o presidente do PSD disse ainda não simpatizar com a “judicialização da política“. Fora da sala, desvalorizou as críticas que ouviu dos deputados à escolha de Elina Fraga como vice-presidente do PSD, dizendo que o assunto está “pacificado” e ouviu só críticas “nas entrelinhas“.

Críticas duras ao presidente

O antigo líder parlamentar do PSD Luís Montenegro — que, nas palavras de outros deputados ouvidos pelo Observador, deu uma “lição de política” e uma “tareia” a Rui Rio — não foi o único a atacar o líder do partido na reunião que decorreu na manhã desta quinta-feira na sala do Senado, no Parlamento, à porta fechada. À saída, Rui Rio não quis comentar as palavras de Luís Montenegro, dizendo que em “tantas intervenções” não quer estar a comentar “uma a uma.”

Também o antigo vice-presidente da bancada parlamentar, Carlos Abreu Amorim, exigiu a Rio que — tal como Fernando Negrão fez na reunião anterior — pedisse desculpas pelos excessos nas declarações críticas aos deputados. E foi igualmente duro nas palavras: “O dr. Negrão enobreceu-se e ganhou o Grupo Parlamentar ao pedir aqui desculpas há uma semana. Desafio-o a fazer o mesmo, a ter o mesmo gesto de grandeza para ser possível ultrapassarmos esta fase”, afirmou o deputado segundo os relatos que o Observador já teve.

Teresa Morais, antiga vice-presidente de Passos Coelho e outra das vozes críticas da nova liderança, também foi dura com Rui Rio, dizendo que o presidente do PSD diz que é “frontal, mas não é o único que é frontal”. Disse ainda que não gostou de “saber pela comunicação social das mudanças no partido.” Teresa Morais voltou, ainda, frente a frente com o líder, a criticar a escolha da ex-bastonária da Ordem dos Advogados, Elina Fraga, como vice-presidente do PSD.

Deputados como José Silvano, Fátima Ramos e Nilza de Sena fizeram intervenções em que defenderam o apoio ao líder. Mas as críticas continuaram ao longo reunião, com figuras que têm sido de primeira linha da bancada nos últimos anos. O ex-líder parlamentar, Hugo Soares, mostrou-se incomodado com a forma como tem decorrido a relação da nova liderança com a bancada e disse mesmo que o processo eleitoral da escolha da nova liderança do grupo “não foi bonito”. O ex-vice-presidente da bancada parlamentar, Miguel Morgado, também deu exemplos concretos de como o PS só faz consensos quando a isso é forçado.

Desde que o partido está na oposição, as vozes na réplica ao Governo nas várias áreas têm sido os deputados. Ou os vice-presidentes ou os coordenadores do grupo parlamentar na respetiva área. Agora, com a nova arquitetura pensada pela direção, perdem peso. Questionado pelos jornalistas na quarta-feira à noite sobre se o clima já está mais apaziguado com o grupo parlamentar, Rio antecipava que, no máximo, poderia exisitir “uma convulsãozita“, um “epifenómeno de 4 ou 5” deputados. E acrescentava: “Se não tiver 89 hei-de ter 80 e tal deputados para cumprirem a sua missão como deputados da oposição, que é apontar o que está mal, apontar as fragilidades do Governo.”

Já esta quinta-feira, no final do encontro com os deputados, Rui Rio classificou esta como uma “reunião normal”. Questionado, uma vez mais, sobre a tensão na bancada, o presidente do PSD voltou a desvalorizar as críticas, enquanto sorria: “Há três ou quatro deputados [mais críticos] que vão demorar mais uns 15 dias a estar alinhados.”

Rio disse que irá mais vezes a reuniões da bancada, mas diz que a “estreita relação” com o Grupo Parlamentar vai ser feita “diariamente”. Quando chegou perto dos jornalistas, no fim da reunião, atirou com uma graça quando viu as câmaras e os microfones todos apontados para si: “Deve ter acontecido alguma coisa importante.” Aconteceu.