Crítica de Livros

Gente séria vs. gente a sério

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Histórias de crime e de redenção, de padres e fiéis pouco dados a regras, de amores e desamores que se confundem com quem lê. João Pedro Vala escreve sobre "Gente Séria", de Hugo Mezena.

Autor
  • João Pedro Vala

Nome: “Gente Séria”
Autor: Hugo Mezena
Editor: Planeta
Páginas: 280
Preço: 17,76€

No princípio, tudo é muito claro: a tia Mena é má porque é feia, tem pêlos debaixo do sovaco, come cebolas cruas (o que, convenhamos, é sob todos os pontos de vista inaceitável) e nunca se benze; os pais são bons porque rezam o terço e lhe vão dar um beijo antes de ir dormir; a mulher do senhor Júlio é má porque não deixa o senhor Júlio levantar-se da mesa a meio do jantar para aviar um freguês. Os bons vão para o céu, os maus para o inferno. Um mundo tão simples, em que a salvação ou condenação eterna dependem exclusivamente do cumprimento zeloso de um restrito número de regras, leva a que Miguel, o narrador do romance que, na altura da primeira parte da história tinha dez anos, atribua uma importância absoluta à confissão de todos os seus pecados ou a questões como a de se, ao se benzer, “teria o dedo atravessado a testa, em arco, para vir bater entre os olhos, como devia ser” (p.15).

Miguel senta-se sempre na fila dos muito bons alunos da turma da dona Maria da Conceição. Ao contar-nos isto, Hugo Mezena não está a querer louvar a inteligência e aplicação do seu protagonista, mas a mostrar que, na sua infância, Miguel estava realmente empenhado em apropriar-se da visão do mundo que Benomilde, neste caso através da sua professora primária, tinha para lhe oferecer. Miguel vai então crescer imerso no credo de Benomilde, um credo personificado pelo seu avô Jorge que nunca se esquece de benzer as sementes antes de as plantar e que não se cansa de proclamar que um homem sem pêlos no peito é um homem sem respeito. Contudo, mais importante do que tudo isso, de acordo com o avô Jorge, é saber-se que “graças a Deus, muitas. Graças com Deus, poucas”. E, acima de tudo, importante, importante é ser-se gente séria.

A verdade desta visão do mundo que Benomilde lhe oferecia começa, todavia, a colapsar quando a doença do tio Carlos finalmente o leva. Miguel percebe, na hora da morte do seu tio, que pessoas boas fazem coisas egoístas e que pessoas más se comportam muitas vezes com uma enorme dignidade.

Pouco depois, Miguel deixa a escola primária e entra num liceu no Porto. Não será, ainda assim, ao contrário do que seria de esperar, a cidade cosmopolita que abrirá os olhos ao jovem aldeão. Será a própria aldeia que implodirá. O padre Germano morre e é substituído por um padre novo, de calças de ganga e que bebe cervejas na associação desportiva enquanto fala de política. Descobre-se que o Gonçalves é um criminoso. A professora de catequese não deixa que os bombeiros usem a água do seu poço para apagar um fogo na casa do vizinho. O tio Alexandre finge a própria morte e foge. Pior que tudo, o avô mente e começa a enlouquecer. Este colapso súbito de tudo o que era sagrado em Benomilde leva a que Miguel se comece a aperceber de que a vida tem, afinal, mais regras do que aquelas que lhe tinham ensinado. Os bons são maus e os maus são bons. Já não basta ser sério para se garantir a salvação. Pior do que isso, percebe que “isto de ser sério tem muito que se lhe diga” (p.206).

A história do padre Cláudio, o substituto do padre Germano, é talvez a melhor do romance e, certamente, a que melhor ilustra o que Hugo Mezena nos parece querer dizer. O padre Cláudio poderia ter sido o que quisesse, mas decidiu servir a Igreja por devoção. No entanto, sendo a carne fraca, ainda no tempo do seminário decide visitar as prostitutas de Coimbra. Os argumentos que usa para se persuadir de que aquilo que se prepara para fazer não tem grande mal são absurdos (“Não posso partir para uma vida de abstinência sem antes saber do que me abstenho. Seria tão estúpido como dizer que não gosto de vinho sem o ter provado” (p.160). Substituir ‘vinho’ por ‘corações de uruguaios’ talvez mostre bem a debilidade do raciocínio do padre). No entanto, estes convencem completamente o jovem seminarista, uma vez que Cláudio estava já disposto a levar o seu plano avante ainda antes de ter encontrado as razões que o legitimassem.

Ao chegar a Benomilde, Cláudio vai então arranjar uma amante, indo sempre ao encontro desta remoído pelos remorsos e sem se conseguir abstrair do ridículo dos movimentos necessários para a obtenção do prazer. Ainda assim, o jovem padre acredita que “bem vistas as coisas, os movimentos mais honestos que era capaz de fazer eram aqueles: para a frente e para trás com a anca, quando ninguém estava a ver” (p.190). Porque só quando os faz reconhece a sua própria fragilidade. Porque todos os outros gestos, todas as outras palavras, todas as outras orações, ainda que lhe conferissem o respeito e a admiração dos habitantes de Benomilde, lhe pareciam agora reduzidos a cinzas. Cláudio já não se consegue ver como um padre de aldeia, essa figura solene, respeitável e séria, infinitamente superior às demais, mas antes como apenas mais um homem: “Era uma pessoa. Só isso. Uma pessoa que se dirigia a outras pessoas. Que lhes dava o que elas queriam ouvir. Que lhes falava aos ouvidos. Era um monstro. Um trapaceiro. Um aldrabão” (p.193). E é quando se apercebe disto e desce do seu altar que Cláudio se torna o verdadeiro herói do romance, a par do tio Alexandre.

Contudo, seria tresler o romance achar que Gente Séria é um ataque cerrado à Igreja. Ainda que Mezena por vezes ridicularize o lado ritualista do Catolicismo, a única possibilidade de salvação do mundo em que Miguel cresceu (e o romance é tanto sobre o fim de um tempo como sobre o crescimento de Miguel) é trazida por ideias muito presentes no discurso cristão. A única forma de evitar o final trágico que se avizinha (e que o escritor constrói de forma irrepreensível) passa por reconhecer algumas das verdades fundamentais do Cristianismo. Só percebendo que não existe gente séria, que todas as pessoas são boas e más, que todas falham, que todas se enganam e que todas voltam atrás é que a guilhotina que paira sobre a cabeça do mundo de Miguel pode ser travada, ou, pelo menos, almofadada. Só quando os habitantes de Benomilde forem capazes de se rir de si próprios é que serão capazes de olhar para os malucos, os estúpidos, os bandidos, os infiéis e os mentirosos e reconhecerem-se a si mesmos. Só aí conseguirão perdoar-se uns aos outros, salvar o que restar e seguir em frente.

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