Esta é a primeira vez que estou a escrever este artigo, mas não é a primeira vez que escrevo um artigo. Este é um artigo sobre a primeira vez em que vi esta peça de teatro, mas esta não foi a primeira vez que vi pela primeira vez uma peça de teatro. Esta é também, provavelmente, a primeira vez que está a ler isto, e isto é sobre primeiras vezes, porque na adolescência as primeiras vezes são mais numerosas, mais intensas, mais assustadoras, e é da adolescência que se fala na peça “Montanha Russa”, que se estreou no dia 9 de março no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, e fica em cena até ao dia 27.

“Mais do que para a adolescência, este espetáculo é sobre a adolescência, mas para toda a gente ver. Assim que pensámos nisto, percebemos que tinha de ser musical, pelo papel de resolução de problemas e de formulação do que é difícil que a música tem na vida dos adolescentes. Por outro lado, é também um formato diarístico, porque o que nos interessava era a autoanálise, a intimidade, o privado que se expõe perante o público”, explica Miguel Fragata, o encenador, que também escreveu o texto (e as letras de todas as músicas) em conjunto com Inês Barahona.

Nesta viagem de pôr a complexidade da adolescência em palco – que é o simbolismo primeiro da “Montanha Russa”, dos altos e baixos, das emoções fortes, da diversão posta lado a lado com o medo –, os dois autores passaram também por várias fases: uma open call que conseguiu reunir duas dezenas de diários de adolescências verdadeiras de diferentes gerações, pequenos confessionários privados com um adolescente e um espelho, miniprovocações teatrais em escolas secundárias, palestras e debates, cursos de escrita de diferentes tipos de diário (escrito, desenhado, audiovisual), e até a formação de um “pequeno comité” com 15 consultores-adolescentes que foram fazendo o acompanhamento crítico da criação.

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E assim foram nascendo as quatro personagens principais: uma adolescente de 1973 que ainda fica de castigo por causa do comprimento do vestido (interpretada por Anabela Almeida); uma adolescente de 1989 que se sente numa guerra fria interior (Carla Galvão); um adolescente já do início do milénio que tem de ficar adulto demasiado depressa (Miguel Fragata); e o adolescente de agora mesmo, que escreve posts em vez de diários, que diz “FAQs” em vez de “questões”, que quer viver tudo no limite (o papel do benjamim do elenco, Bernardo Lobo Faria, que foi escolhido numa audição em que ao contar episódios da sua adolescência disse que sentia que estava a “contar algo do dia de ontem”).

Isto para não falar de uma outra personagem essencial deste espetáculo, que é formada por quatro corpos, muitos instrumentos e vários contributos do resto das pessoas em palco – a música.

A adolescência é rock’n’roll e tem a voz dos Clã

“Esta é a canção da primeira vez em que o vi”, diz a adolescente que não canta. E a banda avança para explicar. E sendo uma peça de primeiras vezes, sobre uma fase da vida também cheia de estreias, há ainda a canção da primeira vez que fugiu de casa, da primeira vez que fumou um cigarro e até da primeira vez… aquela primeira vez.

“Queríamos ter música irónica, com o pé no rock”, conta Miguel Fragata. Além das letras, que dizem coisas como “para dançar esta valsa é preciso ser um incompreendido” ou “tudo é velório ou carnaval”, foi essa a indicação que seguiu para Hélder Gonçalves, que se juntou num estúdio com Manuela Azevedo para compor a banda sonora original, um conjunto de músicas que ajudam a dar vida a esta adolescência teatral, interpretadas também pelos músicos Miguel Ferreira e Nuno Rafael (um quarteto que, na sua maioria, saiu da banda Clã).

Este “interpretadas” tem vários sentidos. Até porque a banda tem um papel que vai muito além de tocar instrumentos. Não só dá voz ao que os adolescentes não conseguem dizer (ou escrever nos diários, ou explicar bem com gostariam de explicar), como lhes responde aos anseios (“mais triste”, “mais triste”, a música tem de ser mais triste naquele momento) e se ri no momento certo quando o mais recente dos adolescentes afirma “experimentei de tudo” enquanto come cereais diretamente do pacote.

“Quisemos aproveitar na peça toda a força que eles têm. Fomos trabalhando juntos, a par e passo, e nunca tinha tido uma equipa tão generosa. O diálogo entre a música e o teatro é essencial aqui. Marca até o que pedimos aos atores, porque também nos apetecia ter uma atriz como a Carla, que tem um grande à vontade com a música e que pode cantar, e outra como a Anabela, que não canta de todo, o que acaba por contaminar a personagem.”

A vertente musical fez também parte dos processos de criação, com oficinas para adolescentes organizadas no Espaço do Tempo, em Montemor-o-Novo, tanto de composição como de escrita de letras, conduzidas por Capicua e Pedro Geraldes. Até porque, seja em que época for, a “música tende a ter sempre um papel muito forte na adolescência”.

O frio na barriga antes do loop não depende da idade

As existências nunca começam pela adolescência. Nem sequer a deste espetáculo, que antes de tudo foi infância. “Esta criação é filha de outra que fizemos há dois ou três anos, chamada ‘The Wall’, e que tinha um muro que separava duas plateias – uma de adultos e outra de crianças”, lembra Miguel Fragata. Foi aí, quando começaram a surgir questões na bilheteira, que perceberam que tinham deixado de fora uma fatia importante da população, a mesma fatia que é muitas vezes esquecida pelo teatro:

“Dissemos a quem estava a vender os bilhetes para serem os próprios adolescentes a escolher de que lado queriam ficar. E teve muita graça, porque quando iam com os pais normalmente escolhiam o lado das crianças, quando iam sozinhos escolhiam o lado dos adultos.”

A ideia ficou. Como é que se poderia trazer a adolescência para o centro de cena, dar-lhe protagonismo, não a deixar naquele limbo entre os espetáculos sobre as questões dos adultos – que são muitos – e os espetáculos para a infância – que são outros tantos? Um pouco como aquele momento em que a personagem de Carla Galvão usa o simbolismo do muro de Berlim para explicar a sensação de fronteira: o muro caiu mas eu ainda não quero atravessar.

“Se isto fosse sobre as nossas memórias, a nossa adolescência, podia ficar demasiado melancólico. Não deixámos totalmente de parte a nossa perspetiva, mas também nos interessava ter mais acesso às questões de hoje… ainda que muitas questões permaneçam iguais.”

Nesta “Montanha Russa”, os cenários vão mudando. Ou melhor, os contextos, como os tempos da Revolução de Abril, os tempos em que as mulheres queimavam soutiens, os tempos das falhas da internet. Só que algumas coisas permanecem, e toda a gente sente da mesma forma o frio na barriga antes de se iniciar a descida que vai culminar no loop:

“Há problemas transversais. São problemas, aliás, do foro da humanidade, que simplesmente na adolescência têm outra intensidade e outra velocidade – a criação da identidade, o desejo de experimentar, as expectativas, o encanto e o desencanto.”

Há, claro, a possibilidade de identificação maior com uma ou outra personagem, consoante a experiência pessoal. Também por isso, a montanha-russa é mais do que um símbolo – é concreta, chama-se Ciclone, e transforma-se na componente narrativa que une as quatro histórias que se distanciam no tempo. E, mais do que isso, nos dias de hoje até pode servir a todas as faixas etárias, tal como esta peça se propõe fazer: “Há estudos antropológicos que dizem que os adultos atuais, contemporâneos, estão muito próximos da ideia que temos de adolescência. Existe cada vez mais na idade adulta esse lado do fatalismo, uma certa errância e indefinição permanentes, e a urgência de viver o dia-a-dia, aproveitar o momento.”

Afinal, depois dos altos, dos baixos, das voltas e de se ficar pendurado de cabeça para baixo, é como diz uma das adolescentes em palco: “Eu estou viva. Nós estamos vivos. E a viagem vai continuar.” Que é também como manter a esperança de “ter ainda uma caixa de fósforos por riscar”, ou seja, de ter mais algumas primeiras vezes pela frente, seja em que idade for.