Alguns meses depois, o Chelsea tem luz verde para avançar com as obras de remodelação do Stamford Bridge. Ou azul vá, para combinar com as cores da equipa de Roman Abramovich. No entanto, acabou por ficar um milhão de libras (mais de 1,1 milhões de euros) mais caro do que seria esperado. Mais um milhão. E tudo por causa de uma família que reside nas imediações, a única que não se rendeu logo aos encantos de um cheque chorudo.

Como tínhamos contado aqui no Observador a 13 de janeiro, o projeto desenhado pelos arquitetos Herzog e De Meuron (célebres por terem feito o famoso “Ninho de Pássaro” em Pequim, onde Nelson Évora voou para a medalha de ouro no triplo salto dos Jogos Olímpicos de 2008) tinha superado aquele que se pensava ser o último grande obstáculo com a aprovação do presidente da Câmara de Londres, Sadiq Khan, e parecia ter tudo para avançar, sob a argumentação de que a remodelação milionária (no início falou-se de uma verba a rondar os 500/600 milhões de libras, mas um artigo exclusivo do The Times atirou o valor total para os mil milhões de libras).

Estava tudo pronto, mas continuava a haver uma “pedra no sapato”: a família Crosthwaite, constituída pelos pais Nicholas (um bancário reformado) e Lucinda (desenhadora de interiores) e os filhos Louis e Rose, que vive numa casa ali ao lado do estádio e que não aceitou as primeiras propostas dos blues. “O novo estádio tem um impacto inaceitável nas nossas vidas”, descreveu então Rose, numa carta aberta escrita para a BBC onde explicava não ter nada contra o aumento de Stamford Bridge mas sim com o modelo que tinha sido apresentado pelo Chelsea. Mas qual era afinal o problema para esta novela tão falada nos últimos meses?

Por causa da nova cobertura, a casa dos Crosthwaite, situada em East Sand, ficaria privada todo o dia de luz natural. Assim, a família avançou com a impugnação da obra, argumentando por exemplo que o projeto do Chelsea tinha um total de 26% de lugares de hospitality (17 mil) quando o Emirates Stadium, estádio inaugurado há poucos anos pelo rival londrino Arsenal, guardava apenas 16% da lotação para essa finalidade. Já o clube de Roman Abramovich, sempre muito focado nos benefícios económicos, sociais e culturais para a sociedade (nomeadamente com verbas para projetos educativos da comunidade), explicou que a UEFA pede cada vez mais lugares para todos os patrocinadores e mostrou uma sondagem onde 97,5% dos 13 mil residentes ali à volta queriam o novo estádio.

A obra corria o risco de parar. Nessa altura, em janeiro, a oferta do clube já estaria nos seis dígitos (bem mais do que foi pago a 50 proprietários de residências do outro lado do estádio), mas os Crosthwaite continuavam a recusar, algo que começou a mudar após uma decisão favorável aos blues tomada pelo município de Hammersmith e Fulham. Assim, e apesar de ter ficado longe dos 20 milhões de libras (22,6 milhões de euros) para solucionar o problema, a família terá aceite a última proposta de um milhão de libras, mais de 1,1 milhões de euros. “O Chelsea pode confirmar que alcançou um acordo para resolver os procedimentos legais em curso sobre os direitos à luz natural. Os detalhes do acordo são confidenciais”, explicou um porta-voz do Chelsea à imprensa britânica.

Assim, e a partir de agora, Roman Abramovich tem todas as condições para dotar o clube daquilo que sempre encarou como a principal lacuna do Chelsea: o estádio. A nova infraestrutura, que será construída onde se encontra a atual, tem inauguração prevista para a temporada 2023/24 e contará com 60 mil lugares, quase mais 20 mil do que o atual. Falta ainda saber onde a equipa agora comandada por Antonio Conte (que parece ter os dias contados como treinador do ainda campeão inglês) jogará durante os três anos de obras: inicialmente tudo apontava para que Wembley fosse a “casa emprestada”, mas a distância pode alterar essa ideia e existem duas outras opções: o Estádio Olímpico, agora utilizado pelo West Ham, e Twickenham, que costuma receber jogos de râguebi.