Primeira Liga NOS

Para evitar palhaçadas Vale Tudo, menos penáltis a dois toques (a crónica do FC Porto-Boavista)

Houve um golo aos 100 segundos de jogo, uma expulsão revertida, uma oportunidade oferecida e um penálti convertido e anulado. Um pouco de tudo, na vitória do FC Porto no dérbi com o Boavista (2-0).

Felipe inaugurou o marcador logo no segundo minuto e celebrou com nota artística o quarto golo na temporada

AFP/Getty Images

Esta é a crónica de um jogo que começou a ser escrito quase uma semana antes, mais concretamente no decorrer da segunda parte do P. Ferreira-FC Porto. Esta é a crónica de um jogo que mudou por completo o seu texto por tudo o que se passou durante a semana. Esta é a crónica de um jogo que continuará a ser falado daqui a umas semanas.

A semana foi marcada por uma ideia: o anti-jogo (ou melhor, foi marcada por muitas mais, mas quase todas sem ligação direta ao que se passa dentro das quatro linhas, que é o mais importante). Daí surgiram várias ramificações nas análises: a diferença entre jogar com bloco baixo ou perder tempo de forma propositada; os tempos úteis de jogo e o que se poderia fazer para minimizar as paragens; as estratégias para contornar a diferença de orçamentos e valores individuais entre grandes e “não grandes”. Antes da receção ao Boavista, e explicando o porquê de não ter cumprimentado João Henriques, Sérgio Conceição utilizou mesmo a expressão “palhaçada”, recordando o jogo em Paços de Ferreira que culminou com a primeira derrota no plano nacional após 35 encontros.

A bola começou a rolar e tudo isso acabou. E acabou por várias razões: 1) o Boavista deu com Jorge Simão (e já com Miguel Leal se começara a notar uma diferença) um visível salto qualitativo, deixando de ser apenas aquela equipa guerreira que faz de qualquer lance o mais importante de uma vida para conseguir também desenhar jogadas ofensivas de qualidade; 2) o FC Porto voltou a ter uma exibição global abaixo do rendimento que apresentou em fases anteriores da temporada, notando-se ainda a falta sobretudo de Marega (mas ainda há também Alex Telles e Danilo de fora); 3) ao contrário do que se poderia pensar, os axadrezados conseguiram em vários períodos jogar em posse e remeter os dragões a fases de transição quase como se os papéis habituais se tivessem invertido.

Em resumo, o triunfo do FC Porto frente ao Boavista por 2-0 não teve sequer um vestígio de anti-jogo e conseguiu promover um conjunto visitante com maior capacidade de assumir do que é normal no Dragão. Mas este é um jogo que continuará a ser recordado por muito tempo, seja pela reversão de um vermelho que passou a amarelo de um jogador que estava há sete minutos em campo, seja por uma grande penalidade anulada por terem sido dados dois toques na bola devido a uma escorregadela. Dois lances que, com ajuda do VAR, foram bem ajuizados.

First soccer league,

Ficha de jogo

FC Porto-Boavista, 2-0

27.ª jornada da Primeira Liga

Estádio do Dragão, no Porto

Árbitro: Manuel Oliveira (AF Porto)

FC Porto: Casillas; Maxi Pereira (Corona, 85′), Felipe, Marcano, Diogo Dalot; Herrera, Sérgio Oliveira; Ricardo Pereira, Otávio (Óliver Torres, 52′), Brahimi e Aboubakar (Gonçalo Paciência, 80′)

Suplentes não utilizados: Vaná, Diego Reyes, Hernâni e Soares

Treinador: Sérgio Conceição

Boavista: Vagner; Tiago Mesquita, Rossi, Henrique, Talocha; Idris, David Simão (Vítor Bruno, 33′), Fábio Espinho; Mateus (Sparagna, 68′), Renato Santos e Yusupha (Kuca, 81′)

Suplentes não utilizados: Assis, Robson, Rochinha e Leonardo Ruíz

Treinador: Jorge Simão

Golos: Felipe (2′) e Herrera (62′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Henrique (22′), Herrera (37′), Vítor Bruno (40′), Marcano (66′), Idris (67′) e Sparagna (83′)

Entre as várias críticas à atitude pacense, Sérgio Conceição admitiu que o FC Porto não tinha estado bem na Capital do Móvel e mudou a mobília, sobretudo num ponto em específico: a tentativa de Waris jogar na mesma posição e com os mesmos movimentos de Marega falhou de forma rotunda e o africano acabou por nem sequer entrar nos 18 frente ao Boavista, dando lugar a um modelo ofensivo mais móvel assente não só num trio de criativos nos três corredores (Ricardo Pereira, Otávio e Brahimi) mas também nas progressões e no jogo entre linhas da dupla Sérgio Oliveira e Herrera, regressado de castigo. E as coisas não podiam ter começado de melhor forma.

Bastaram apenas 100 segundos para os dragões passarem para a frente do marcador: canto batido na direita por Sérgio Oliveira, corte ao primeiro poste de um defesa axadrezado, segunda vaga do médio e cruzamento para Felipe na área que, de forma irrepreensível como se fosse um ponta-de-lança, mão deu hipóteses a Vagner.

O central que o rival Benfica decidiu alcunhar de “Vale Tudo” através da conta oficial no Twitter do departamento de comunicação continua a fazer a diferença à frente (quarto golo da temporada, igualando o melhor registo no Corinthians) e atrás, não só pela segurança que oferece à defesa mas também pela capacidade de sacrifício que demonstrou ao jogar com algumas limitações desde a ponta final da primeira parte, após um choque com Casillas. E voltou a celebrar com aquele habitual salto que começa a ficar como imagem de marca.

Em condições normais, um arranque deste género dos azuis e brancos era sinal de “atropelo”. Sobretudo no contexto pós-primeira derrota nas provas nacionais, ainda mais. No entanto, o que se passou acabou por ser quase o inverso: nem o FC Porto conseguiu dar aquele abafo aproveitando a motivação de estar em vantagem logo a abrir, nem o Boavista se foi abaixo ou deixou de colocar em prática o plano traçado para este encontro. Assim, e já depois de um cruzamento venenoso da esquerda que atravessou toda a área sem qualquer toque, Renato Santos arriscou o golo da jornada com um movimento acrobático na área mas a tentativa saiu por cima da trave (10′).

Pouco depois, quase numa fotocópia do lance do primeiro golo, Sérgio Oliveira voltou a solicitar o ás pelos ares Felipe, mas o filme teve outro epílogo e Vagner conseguiu desta vez defender para novo canto. Mas era o Boavista que tinha mais posse (65%), que tinha menos faltas (1-6), que tentava chegar à área contrária de forma organizada sofrendo depois algumas transições rápidas que só não levaram mais perigo porque o último passe falhou quase sempre. Se ao longo da temporada conseguimos facilmente identificar as exibições “à FC Porto” nesta nova versão com Sérgio Conceição no comando, a primeira parte foi tudo menos isso e até acabou por ser o Boavista (que perdeu David Simão por lesão e quase perdeu o seu substituto, Vítor Bruno, por vermelho direto, numa ação depois bem corrigida por Manuel Oliveira com ajuda do VAR) a ter o último remate do tempo inicial, por Henrique.

Por incrível que pareça, houve apenas dois remates enquadrados durante os primeiros 45 minutos e ambos do central Felipe, uma estatística que não demorou a mexer por Herrera logo a abrir o segundo tempo (remate na área de pé esquerdo, a sair à figura de Vagner). Não demorou a mexer nem a estatística nem Sérgio Conceição, que foi à procura de novas dinâmicas no corredor central com a saída de Otávio (que esteve a ser assistido no banco) para a entrada de Óliver Torres e consequente subida do mexicano para as costas de Aboubakar, que se tornou esta noite o quarto jogador africano a fazer 100 ou mais jogos pelos azuis e brancos depois de Madjer, Benny McCarthy e Brahimi. Mas esta não era mesmo a noite dos africanos, nem do FC Porto nem do Boavista: Mateus, na melhor oportunidade dos axadrezados, viu Casillas defender para canto um remate na área (56′), entre os protestos do banco visitante por uma falta de Felipe sobre Yusupha na área que Manuel Oliveira mandou seguir.

Chegávamos à reta final do encontro, a última meia hora. E ao período que vai ficar para os “apanhados” desta Liga, qualquer que seja o seu desfecho (e as últimas sete jornadas prometem ser escaldantes.

Primeiro, o 2-0 de Herrera. Ainda se lembra de uns parágrafos acima termos falado do reposicionamento do médio em terrenos mais adiantados? Pois bem, atente bem nesta sequência: Sérgio Oliveira bateu um canto na direita (mais um) que saiu para trás da baliza, Vagner andou ali a hesitar se chutava longo ou tocava curto para iniciar a primeira fase de construção à saída da área, o passe para Idris acabou por sair curto e o mexicano, roubando a bola quando estava isolado, só teve de galgar uns metros antes de atirar para o golo da tranquilidade dos portistas (62′).

Depois, o 3-0 de Sérgio Oliveira que acabou por não ser. Expliquemos: Sparagna, que tinha acabado de render Mateus, nem tinha sequer aquecido e já estava a fazer uma grande penalidade por um carrinho fora de tempo sobre Maxi Pereira (ainda veria mais tarde um amarelo, num jogo para esquecer) que o médio português foi transformar e converteu. Logo ali, os jogadores boavisteiros foram a correr para o árbitro Manuel Oliveira, que recebeu indicações do VAR, foi ver as imagens ao ecrã no relvado e anulou mesmo o golo porque o portista acabou por dar dois toques na bola, primeiro com o pé de apoio por ter escorregado e depois com o direito para chutar a bola.

O resultado ficou mesmo pelo 2-0, num jogo que acabou por ser completamente atípico em relação ao que era perspetivado mas que terminou com o triunfo do FC Porto (talvez num castigo demasiado pesado para o Boavista, pela margem do desaire). Uma coisa é certa: tão cedo este dérbi da Invicta não será esquecido…

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