O montante de pagamentos atrasados por parte do Governo de Moçambique relativamente à dívida externa já atinge os 636 milhões de dólares (517 milhões de euros), segundo uma apresentação que está a ser feita aos investidores e credores, em Londres.

De acordo com o documento, a que a Lusa teve acesso, Moçambique não pagou ainda qualquer parte da dívida pública emitida em abril de 2016, devendo 136 milhões de dólares relativamente a este instrumento de financiamento nos mercados internacionais.

Relativamente à empresa Mozambique Asset Management, há atrasos de 345 milhões de dólares e o Estado deve também 154 milhões de dólares do empréstimo contraído pela Proindicus.

Organizações da sociedade civil moçambicana têm acusado o Governo de falta de transparência e pediram que o executivo prestasse informação “perante os cidadãos através de um informe em sessão plenária na Assembleia da República”, antes da reunião em Londres, o que não chegou a acontecer.

Em causa está um rombo nas contas públicas de Moçambique, que nasceu em 2013 e 2014.

Três empresas públicas com negócios de fachada, segundo uma auditoria internacional da Kroll, contraíram dívidas de cerca de dois mil milhões de dólares (cerca de um oitavo do PIB do país à data) com base em garantias do Estado assinadas à revelia da lei, das autoridades e dos parceiros, naquele que ficou conhecido como o escândalo das dívidas ocultas.

Entre os investidores com que o Governo tem de negociar, há detentores de 727,5 milhões de dólares em títulos de dívida, que já tiveram um corte no rendimento devido ao ‘default’ (incumprimento) de Moçambique na respetiva remuneração.

Os detentores destes títulos (que resultam da troca por obrigações da Ematum) recusam ser equiparados a bancos e investidores que emprestaram os restantes 1,4 mil milhões de dólares às empresas públicas Mozambique Asset Management e à Proindicus.

Os bancos que emprestaram o dinheiro foram o Credit Suisse e o russo VTB, cuja atuação está também a ser investigada pela polícia federal (FBI) e Ministério da Justiça dos Estados Unidos, além dos reguladores financeiros do Reino Unido e da Suíça.