Cinema

“Hostis”: uma fraca prova de vida do “western”

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Um excesso de pretensão e de solenidade, e Christian Bale no papel errado, prejudicam gravemente este ambicioso "western" realizado por Scott Cooper. Eurico de Barros dá-lhe duas estrelas.

Ninguém gosta mais de um bom “western” do que eu. E gosto de Christian Bale e considero-o um belíssimo actor, mas ele não funciona no papel de um capitão de Cavalaria veterano das guerras índias e à beira da reforma em “Hostis”, o “western” de Scott Cooper. Bale tem apenas 44 anos, e por melhor caracterizado que esteja, o seu capitão Joseph J. Blocker é muito pouco convincente (e não é pelo facto de Bale ser inglês). O papel pedia um actor mais velho, mais “usado” e com mais currículo no género, como Ed Harris, Dennis Quaid, Kurt Russell, Keith Carradine, Jeff Bridges, Nick Nolte ou Sam Elliott, o qual, curiosamente parece ter servido de modelo para o Blocker de Christian Bale, que também não tem o “physique du métier”. (Ironicamente, Cooper, que também é actor, escreveu o papel com o seu amigo Bale em mente.)

[Veja o “trailer” de “Hostis”]

Em “Hostis”, passado em finais do século XIX, Blocker, que está prestes a tirar a farda para sempre, é obrigado, sob pena de ficar sem a pensão, a cumprir, com muita relutância, uma última missão imposta pelo seu comandante. Trata-se de escoltar um moribundo chefe Cheyenne, Falcão Amarelo (Wes Studi), velho inimigo do capitão, e a família deste, da prisão onde se encontravam, no Novo México, para o território do Montana de onde estes índios são originários, após o presidente dos EUA, por motivos humanitários, ter ordenado a sua libertação. Homem endurecido pela violência e pela crueldade extrema da guerra, lacónico e cheio de ódio aos nativos, Blocker não tem outro remédio senão aceitar, e parte, acompanhado por um punhado de soldados.

[Veja a entrevista com o realizador Scott Cooper]

Pelo caminho, recolhem Rosalie Quaid, uma fazendeira (Rosamund Pike), cujo marido e filhos pequenos foram massacrados por um grupo de Comanches que assolam a região. Profundamente transtornada, Rosalie está cheia de ódio aos índios, quaisquer que eles sejam, e vem juntar o seu ao de Blocker, aumentando ainda mais a tensão que se vive no pequeno grupo. Aqui chegados, o filme já telegrafou com clareza o que vai acontecer: face aos vários perigos que a jornada lhes reserva, e que vão tomar diversas formas além da dos Comanches hostis, militares, índios e a mulher civil terão que pôr de parte os seus ressentimentos, rancores, traumas e preconceitos, e unir forças e vontades para os enfrentarem em conjunto, garantirem a sua sobrevivência e chegarem ao destino.

[Veja a entrevista com Christian Bale]

“Hostis” é o tipo de “western” a que, nos anos de ouro do género, ou até mesmo no seu crepúsculo, realizadores experimentados nele e tão variados como Raoul Walsh, Bud Boetticher, Lesley Selander, John Farrow, Andrew V. McLaglen, o jovem Sam Peckinpah ou Clint Eastwood, chamariam um figo, e realizariam eficazmente e sem pretensões. E também sem exceder a canónica hora e meia de duração. Ora Scott Cooper leva quase duas horas e meia a contar uma história que não tem mistérios de significação, subtilezas psicológicas ou complicações narrativas, tentando ilustrar a frase de D.H. Lawrence sobre a “essência da alma americana”, e a violência que, segundo este escritor, lhe é inerente, que abre “Hostis”. Ou seja: ele não quis apenas rodar um bom “western”, mas também um “western” de “tese”. E ficou com um “western” solene, lúgubre, arrastado e interminável nas mãos.

[Veja a entrevista com Wes Studi]

Cooper tem, pelo menos, a câmara no lugar certo, e nas mãos certas, já que a fotografia de Masanobu Takayanagi é soberba e faz jus às paisagens escolhidas para situar a história. Quem está deslocado — além de Christian Bale no papel do taciturno e azedo capitão Blocker –, é o realizador, ao filmar um argumento de juntar os números com uma gravidade visual e uma afectação dramática que transformam “Hostis” numa fita redundante, tolhida e penosa, pontuado por explosões de violência como mandam os códigos do género. O “western” não está morto e enterrado bem fundo, como alguns dizem. Mas não são filmes como “Hostis” que o vão ajudar a fazer uma prova de vida convincente.

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