No único ano em que ganhámos, são dois irmãos. Será que isto tem algum significado?“, questionou-se Carolina Henriques, investigadora da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa, na altura em que foi anunciado o vencedor do Festival Eurovisão da Canção. Foi Salvador Sobral com a canção “Amar Pelos Dois” — composta precisamente pela irmã do cantor, Luísa Sobral. Desde então, Carolina Henriques não parou até encontrar uma resposta.

A investigadora ficou impressionada com o facto de Luísa Sobral ter composto a música mas ter dado “a possibilidade ao irmão de a cantar” e quis estudar de que forma a relação entre irmãos tem influência no desempenho laboral. “A vitória inspirou a minha tese de mestrado”, admitiu Carolina Henriques ao Observador. “Especialmente o título ‘Melodia que dá ritmo às equipas'”, acrescentou.

Mas, então, o facto de Luísa e Salvador Sobral serem irmãos contribuiu para a vitória portuguesa no Festival Eurovisão da Canção? Sim, responde logo a investigadora na nota introdutória do seu estudo: “Na minha visão, [a relação entre irmãos] ajudou na nossa consagração como vencedores“. E explicou o porquê ao Observador:

Quando a relação entre irmãos é positiva, geram-se recursos e competências que facilitam o trabalho em equipa, como a capacidade de partilha e de gestão de conflitos, que naturalmente estão presentes na relação entre irmãos, seja boa ou má”

A relação positiva de Luísa com Salvador Sobral originou capacidades em ambos que permitiram um melhor desempenho das tarefas em equipa. Tal contribuiu, segundo a investigadora, para que a dupla conseguisse levar a canção “Amar Pelos Dois” ao palco do Festival Eurovisão da Canção em Kiev, na Ucrânia, e de lá trazer um troféu. Na atuação final, já depois de saber que tinha sido o vencedor, Salvador Sobral convidou a irmã para cantar consigo.

[Veja no vídeo a atuação final de Salvador Sobral no final do Festival Eurovisão da Canção]

Quem não tem irmãos está em desvantagem, uma vez que não desenvolve tão bem essas capacidades. Por outro lado, as vantagens aumentam quanto maior for o número de irmãos: “A relação é mais bem percepcionada e o desempenho das tarefas em equipa mais eficiente.” Mesmo que a relação com os irmãos seja negativa, é sempre mais vantajoso ter irmãos do que ser filho único. A relação mais vale ser má do que ser nula. “Quem tem uma relação má consegue desempenhar as tarefas, mas o relacionamento com os colegas de equipa é prejudicado. Uma relação negativa influencia o relacionamento em equipa mas não o desempenho, isto é, a maneira como consigo cumprir as tarefas”, explicou ainda Carolina Henriques ao Observador.

Pais que exigem dos filhos (mas de forma carinhosa) são melhores líderes

Se os pais querem ser líderes eficazes no trabalho mais vale serem exigentes com os filhos, mas com afeto. Pelo menos, para a investigadora da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa, Cláudia Dias, que realizou um estudo sobre as vantagens de ter filhos no desempenho da liderança. O melhor para se ser um líder mais eficaz é ser um pai ‘autoritativo’. E que conceito é este?

São pais que conseguem ser muito afetuosos e muito exigentes. No fundo, pais que conseguem equilibrar os dois. Esses pais vão liderar de uma forma melhor”, explicou Cláudia Dias ao Observador.

Curiosamente, os pais que têm um estilo mais autoritário — os que exigem, mas sem afeto — não são líderes menos eficazes. “Esperávamos que [os pais autoritários] fossem piores líderes. Não se verificou. O estilo autoritário não compromete a liderança”, admitiu a investigadora ao Observador acrescentando: “Uma educação autoritária não compromete, mas também não se pode dizer que a liderança desses pais seja positiva.

O trabalho de campo, organizado em duas fases, foi conduzido pelas duas mestres da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa entre outubro de 2016 e maio de 2017 em três empresas portuguesas — duas grandes empresas e uma pequena e média empresa –, num universo de cerca de 400 indivíduos.

As duas teses revelam que as relações familiares influenciam o desempenho laboral dos indivíduos. Ambas vão ser apresentadas esta sexta-feira no auditório da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa, entre as 14h00 e as 17h30, seguindo-se uma discussão pública sobre as vantagens organizacionais de ter filhos e irmãos.