A fotógrafa Masha Ivashintsova passou grande parte dos anos 60 e 80 a capturar a realidade da sua cidade, Leninegrado, e guardou todos esses registos no sótão de sua casa. Depois de morrer, em 2000, esses registos perderam-se completamente: até agora. Quase 18 anos mais tarde, Asya Ivashintsova-Melkumyan, a filha da fotógrafa, descobriu todas essas imagens que mostram como era o dia-a-dia de uma das cidades mais importantes da antiga URSS.

Numa entrevista dada ao El País, a filha desta talentosa mas quase incógnita artista afirma: “Para ela, tirar fotografias era um processo natural. Era como respirar, algo insignificante. Acredito que nunca viu a fotografia como algo sério. Sempre pensou que não era suficientemente boa.”

Masha guardou todos os seus negativos em caixas, na arrecadação de sua casa, e nunca os chegou a revelar. Quando a filha ficou com a antiga casa da mãe, descobriu tudo e decidiu abrir um site e uma conta de Instagram dedicada à partilha dos registos da mãe. A iniciativa foi tão bem recebida que, em pouco tempo, a conta de Instagram de Masha Ivashintsova já soma mais de 11 mil seguidores.

©Masha Ivashintsova

Cenas da vida em Leninegrado, em tempos de União Soviética, são a espinha dorsal deste imaginário fotográfico. “A minha mãe estava muito envolvida no movimento underground da poesia e da fotografia em Leninegrado, dos anos 60 aos 80″, explica Asya. A grande maioria das fotos feitas pela sua mãe vieram ou de uma máquina Leica IIIc ou de uma Rolleiflex.

Quando a filha descobriu os negativos da mãe (nascida em 1942), sentiu-se mal: “Isto fez-me recordar a morte da minha mãe em 2000. No princípio, esta descoberta despertou em mim alguma rejeição, fez-me pensar muito na fragilidade da minha mãe. Faltava-lhe confiança e uma voz interior.”

“Quase ninguém pôde apreciar os frutos da sua paixão, a fotografia. Há imagens da nossa casa, da família, amigos… Mas a fotografia da minha mãe abrangia muitos temas. Ela sentia muita curiosidade por tudo. Acho que usava a câmara como forma de ver o mundo”, explica. Entre as imagens há retratos, animais, estátuas, crianças, idosos e até brinquedos.

©Masha Ivashintsova

Segundo explica Asya, a mãe Masha nunca se dedicou profissionalmente à fotografia. Em vez disso foi bailarina, trabalhou numa biblioteca e até chegou a fazer manutenção de elevadores. Morreu com cancro aos 58 anos. “Vejo a minha mãe como um génio, mas ela nunca se viu assim e nunca deixou que ninguém a visse assim também. Publicar estas fotos é uma tentativa de lhe dar o reconhecimento que merece.”

Em jeito de conclusão, Asya diz que toda a atenção que as fotos têm recebido teria assustado a sua mãe da mesma forma que a assustou a ela — “tudo isto é impressionante!” Contudo, a filha diz que a mãe teria agradecido todo o apreço que tem chegado “de várias partes do mundo.”

View this post on Instagram

Pushkinskiye Gory, USSR, 1977

A post shared by Masha Ivashintsova (1942-2000) (@masha_ivashintsova) on

View this post on Instagram

Leningrad, USSR, 1976

A post shared by Masha Ivashintsova (1942-2000) (@masha_ivashintsova) on

View this post on Instagram

Leningrad, USSR, 1979

A post shared by Masha Ivashintsova (1942-2000) (@masha_ivashintsova) on

View this post on Instagram

Orehovo, USSR, 1978

A post shared by Masha Ivashintsova (1942-2000) (@masha_ivashintsova) on