Os dois polícias envolvidos no tiroteio que vitimou Alton Sterling em julho de 2016, na localidade de Baton Rouge (EUA), não vão ser acusados de nenhum crime. Segundo notícia do The Guardian, a decisão foi tomada esta terça-feira, 27 de março, pela procuradoria geral do estado de Louisiana. A decisão surge depois da polícia local já ter avisado que iria para as ruas, em protesto, caso não fosse esta a decisão alcançada.

“Depois de uma revisão exaustiva e detalhada das provas recolhidas, o departamento de justiça deste Estado decidiu não acusar formalmente nenhum dos policias envolvidos”, explicou Jeff Landry, procurador-geral de Louisiana, depois de uma reunião privada com os familiares de Sterling.

“A decisão não foi tomada com leviandade, chegámos a este resultado depois de infindáveis horas passadas a rever as provas”, acrescentou.

Sterling, um afro-americano de 37 anos com cinco filhos, foi baleado seis vezes pelo agente Blane Salamoni a 5 de julho de 2016. O confronto entre Sterling, Salamoni e outro agente, Howie Lake II, foi gravado em vídeo e deu origem a uma série de protestos durante o verão de 2016.

Numa conferência de imprensa realizada logo após o comunicado de Landry, familiares de Sterling expressaram a sua profunda frustração e pediram aos eleitores que não voltassem a eleger Landry.

“Nós já não choramos mais, é por isso que não vêm lágrimas”, disse Sandra Sterling, tia de Alton Sterling. “Vou ter a minha justiça através de um poder superior. Tenham vergonha. Juraram que iam proteger e servir, não proteger e matar.”

Os dois agentes foram ilibados pelo Departamento Federal de Justiça em julho de 2017 mas continuaram numa espécie de limbo legal que os colocou em licença com vencimento durante mais de 20 meses — isto tudo enquanto decorria a investigação. A família de Sterling apresentou um processo cível contra a cidade de Baton Rouge que ainda está pendente.

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A investigação federal não chegou a grandes detalhes sobre o que de facto aconteceu. Salamoni e Lake foram chamados depois de uma denúncia anónima ter afirmado que um homem de t-shirt vermelha, que estava a vender CDs à porta de um supermercado local, o tinha ameaçado com uma arma de fogo. O dono dessa loja, que era amigo de Sterling e tinha autorizado que este vendesse os tais CDs, gravou a interação com a polícia. O mesmo proprietário disse a jornalistas que Sterling estava a usar uma arma à cintura mas que em momento algum pegou nela.

Os agentes disseram que não tinham conseguido agarrar o braço direito de Sterling quando o tentavam prender e acreditaram que este estava a tentar alcançar o revólver.

“Durante o confronto, os agentes tentaram aplicar várias técnicas não letais para recuperar o controlo”, afirmou Landry. “A preocupação de que ele estava armado e fosse perigoso foi, de facto, verificada.”

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Foi noticiado que Salamoni apontou a sua arma à cabeça de Sterling em menos de 20 segundos depois de este ter chegado ao local. Segundo fontes federais mencionadas pela família da vítima o agente terá dito: “Vou-te matar, cabrão”.

Esta revelação fez com que o presidente da câmara de Baton Rouge, Sharon Weston Broome, pedisse a demissão de Salamoni. A polícia insistiu que qualquer decisão seria tomada depois do anuncio final de Landry.

Os advogados da família de Sterling revelaram-se pouco surpreendidos, mas muito desiludidos, lamentando “um relatório bastante enviesado” e afirmando que nenhuma das testemunhas oculares voltaram a ser consultadas pela equipa de Landry.

Um jornal local de Baton Rouge revelou na passada segunda-feira que as autoridades de Louisiana tinham começado a prepara-se para grandes protestos, mobilizando agentes de todas as partes do estado. “Alguns agentes foram informados de que deviam preparar uma mala com roupa para oito dias”, lia-se no The Baton Rouge Advocate.