Lojas

Arte, teatro e móveis com pinta. O Collectors Marvila é bom demais para ser temporário

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No Collectors Marvila, em Lisboa, cabe tudo: macramé, teatro, móveis antigos, montras da Hermès, arte, fotografia, design e até animais embalsamados. Chega-lhe um armazém, ou precisa de outro?

Assim de repente, não é fácil imaginar um armazém de 4500 metros quadrados, mais de metade de um campo de futebol daqueles a sério. Sem saber de mais nada, se tivéssemos de nos chegar à frente com um palpite, diríamos que fica em Marvila, a terra das áreas generosas. Nem mais. Há pouco mais de um mês, Emily Tomé e Alma Mollemans, não contentes com uma loja catita em Lisboa, outra no Porto e ainda uma terceira na Comporta (aberta durante quase todo o ano), encheram um armazém de móveis de outras épocas. Não propriamente ao estilo das grandes superfícies que encontramos nos subúrbios das grandes cidades, tipo “O Rei dos Sofás” ou “A Salão do Móvel” ou até “O Grande Mundo da Cómoda”. Uma coisa em bom. Chamaram-lhe Collectors Marvila, o que também leva a entender que não vieram sozinhos explorar este bairro lisboeta.

“Foi uma ideia um bocado espontânea. Sempre tivemos pessoas que chegavam à loja [Vintage Department] e diziam que o ideal era termos um armazém. Levámos lá alguns clientes mas aí, com as coisas em cima umas das outras, ninguém via realmente as peças, elas não tinham contexto”, conta Alma. Com cada vez mais peças a chegarem, sobretudo do norte e do centro da Europa, era preciso um espaço para expor em quantidade, das cadeiras de traço nórdico aos animais de grande porte embalsamados que, fizemos questão de confirmar, morreram de morte natural e jardins zoológicos.

Móveis sofisticados ao lado de objetos industriais, foi esta a estética que a Vintage Department trouxe para Marvila © João Porfírio/Observador

Há peças a perder de vista — mesas, sofás, aparadores, poltronas, contadores, candeeiros, letreiros e até uma série de plintos perfeitamente operacionais para o caso de, além do valor decorativo, algum cliente se queira aventurar numa ginástica básica. Babar é o verbo, mesmo que continuemos a estar num armazém colossal, não muito confortável, mas onde as paredes e as instalações elétricas foram recuperadas para o efeito. A má notícia (preferimos dá-la já) é que o Collectors Marvila é um projeto temporário. O armazém vai dar lugar a um condomínio de luxo chamado Prateato, mas enquanto a empreitada não arranca, os proprietários propuseram ao casal que explorasse o espaço da melhor maneira. Ninguém sabe quando será, mas até lá, os inquilinos querem fazer muita coisa acontecer.

“Estamos num sítio onde não há grande movimento, não é como no Príncipe Real onde há sempre pessoas a passar e a entrar aleatoriamente. Aqui, quando vêm, vêm de propósito. Mas assim, e como não temos centenas de milhar de euros para gastar em publicidade, decidimos convidar pessoas que vão atrair esse movimento. Estão todos relacionados com o que fazemos e vão chamar arquitetos e designers, além dos seus próprios clientes”, continua Alma, à conversa na esplanada do Foodtruck Ilegítimo, o negócio sobre rodas que estacionou à porta do armazém.

Cirandemos então no meio de todos aqueles móveis que queremos levar para casa. “Adoro aquele sofá, é o meu favorito”, diz Alma, enquanto aponta para um dos muitos recantos do amplo armazém. Preços? Nunca abaixo dos três dígitos e com a possibilidade de chegarem aos cinco. Dependendo dos orçamentos, qualquer uma destas peças pode ser a extravagância do mês, do ano ou o luxo de uma vida. Isso ou mais um tareco lá para casa —  lá está, depende mesmo do calibre da conta bancária.

No atelier do Barbudo Aborrecido a arte é só uma: macramé © João Porfírio/Observador

Cortemos então à esquerda, num cruzamento de sofás em pele e de uma mesa de apoio com tampo em vidro. Há lojas dentro da grande loja, marcas convidadas a darem um ar da sua graça. A primeira chama-se Banema, estúdio portuense dedicado a projetos de interiores, mas cuja especialidade são os soalhos em madeira. O ramo é pouco interessante à partida, mas o espaço, esse, altamente instagramável. A sala deixa qualquer com vontade de trocar o chão lá de casa, por muito desnecessário que seja o encargo. No white cube seguinte, há criações de Emmanuel Babled, o designer francês que em 2016 trocou Amesterdão por Lisboa. Ninguém fica indiferente às silhuetas curvilíneas, ao mármore de Carrara nem ao vidro de Murano, no limite, porque estas peças têm de ser vistas à distância. A maioria das marcas e ateliers convidados vieram para Marvila em moda loja, a Babled Design ficou-se pela mera exposição.

Da Estrela, em Lisboa, veio a MID MOD, uma loja de bairro que partiu à conquista de outro. Talvez aqui consiga encontrar peças mais em conta, mas também mais pequenas, como é o caso dos candeeiros de secretária que percorrem todas as cores do arco-íris. Gostámos, tal como gostámos das fotografias do Yellow Korner, um projeto que nasceu com o objetivo de democratizar o acesso à fotografia de autor. São mais de 200 fotógrafos e edições de 1000 impressões acompanhadas de certificado de autenticidade. Os preços não vão além dos 50€.

O armazém está irreconhecível e os trabalhos continuam. É um “work in progress”, como descreve Alma. Uma das salas do piso térreo continua fechada e às escuras, mas abre em maio com uma exposição que começou a ser preparada há dois anos, em colaboração com o curador João Barbado. “Convidámos seis fotógrafos internacionais a ficarem em Lisboa durante três semanas e a fotografar a cidade ao seu estilo”, explica Alma.

Aqui trabalha-se, ou melhor, cria-se

Subimos as escadas e embora o primeiro andar esteja ocupado por estúdios e ateliers, não é por isso que está vedado ao público. É só uma questão de se contentar em espreitar por uma ou outra janela, caso as salas estejam fechadas. Mal chegamos lá acima, encontramos alguns objetos familiares. São elementos de cenografia — grandes pedras cinzentas e um iglu daqueles dos esquimós. Hum… cheira a Astolfi, mas já lá vamos. Primeiro, passamos pelo estúdio do Barbudo Aborrecido, nome mais ou menos artístico de Vasco Águas de Oliveira. Há bobines de linha e cordão, plantas suspensas e uma peça em execução — falamos de macramé, essa arte que tem caído nas graças de decoradores e não só. Vasco trocou o espaço de trabalho improvisado na própria casa por uma sala com vista para um mar de mesas, cadeiras e sofás. Além de trabalhar nas peças, uma delas, já concluída, exposta no andar de baixo, é aqui que o artesão vai organizar workshops para curiosos. Ainda há datas no calendário, mas os primeiros devem acontecer em junho.

A sala ocupada por Fernando Nobre e Sara Tavares © João Porfírio/Observador

Na sala ao lado está Manuel Amaral Netto, um designer contagiado pela mesma filosofia do Collectors Marvila, a de convidar amigos para criar algo em conjunto. Aos objetos utilitários, a UTIL acrescenta um toque minimal. Pelo menos, tem sido assim, pode ser que a mobília do século passado inspire o designer a explorar outras estéticas. Ainda há dois ateliers por ocupar, mas já têm dono, ou melhor, donas. Uma delas é a DJ Yen Sung, a outra é a artistas francesa Diane Giraud. Depois de concluídas as mudanças, a zona abre ao público, o que deverá acontecer no final de abril.

Mas nem só de artes plásticas e design é feito este espaço. As salas que se seguem são, provavelmente, as mais difíceis de definir. Chamemos-lhe safe space, partilhado por Fernando Nobre, ator e vocalista dos Cais Sodré Funk Connection, e por Sara Tavares. Há instrumentos musicais, um bar, guarda-roupa de espetáculo, uma máquina de escrever antiga, quadros e estatuetas com fartura. É uma espécie de grande sala de estar com todas as comodidades para a criação artística. “A ideia é que, dentro de alguns meses, apresentem uma peça de teatro lá em baixo, usando alguns móveis como cenário”, conta Alma, enquanto faz a visita guiada pelo espaço.

No final da ronda, deixou-nos por conta do Studio Astolfi. A arquiteta mudou-se de armas e bagagens para Marvila e com ela veio uma equipa de quase 15 pessoas (os objetos que encontrámos a meio da visita eram vestígios de antigas montras da Hermès). Os escritórios são só a ponta da máquina, que se estende por um amplo armazém (sim, há um segundo armazém). Por estes dias, é possível visitar a exposição “Crucifiquem-me”, de Diogo Barros Pires, diretor do estúdio. “Isto é um estúdio artístico, mas não é por fazermos uma exposição que deixamos de trabalhar noutras coisas”, explica Diogo. E isso nota-se. Ao lado de trabalhos do artista, já há esboços de futuras montras nas paredes. O próximo projeto para a Hermès já está em marcha e inclui não só a loja do Chiado, mas também a do aeroporto Charles de Gaulle, em Paris.

No armazém de Joana Astolfi, encontrámos as pinturas de Diogo Barros Pires, mas também um conjunto de novas oficinas a nascer © João Porfírio/Observador

Espaço não falta aqui e também este tende a ficar irreconhecível. A recuperação foi feita por amigos do estúdio em colaboração com carpinteiros de Marvila. Diogo conta que a maratona de pinturas chegou mesmo a envolver uma cachupa caseira e que também já organizaram um churrasco para comemorar o aniversário de um dos artesãos locais. “Acima de tudo, o espírito deste espaço é envolver as pessoas, as pessoas que já nos conhecem e a comunidade, mas também permitir a criação de pontes entre quem já cá está e quem se junta”, afirma Diogo. As estruturas erguidas para a exposição vão ficar e dar origem a várias divisórias no espaço. Aqui, vai nascer uma oficina de carpintaria e uma estufa de pintura, entre outros espaços especializados consoante as artes envolvidas no atelier de Joana Astolfi. Uma coisa é certa: vamos querer ser convidados para a próxima cachupada.

Nome: Collectors Marvila
Morada: Rua Pereira Henriques, 6, Lisboa
Telefone: 91 476 4460
Horário: Todos os dias, das 11h às 20h

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