Carla Frade, a mãe das crianças que protagonizam o segundo episódio de “SuperNanny”, emitido em janeiro pela SIC, foi admitida para testemunhar em tribunal. O casal Frade fez um requerimento ao Tribunal Judicial de Oeiras, onde decorre a ação especial de tutela da personalidade interposta pelo Ministério Público — contra os pais das crianças visadas no programa, a SIC e a produtora Warner Bros. TV Portugal –, para prestar declarações. A petição da família Frade foi aceite no final da audiência de esta quinta-feira. A mãe de Lara, de 13 anos, e de Francisco, de 5, vai dirigir-se ao tribunal no próximo dia 4 de maio, após o depoimento da última testemunha chamada pela Warner.

Durante a tarde de quinta-feira ouviram-se ainda as declarações de duas testemunhas da Warner — a psicóloga Cristina Valente, que já antes se pronunciara sobre o formato aquando de um debate televisivo promovido pela SIC, e Jorge Rio Cardoso, docente universitário na área das ciências sociais, autor de diversos livros focados no insucesso escolar e autor do prefácio do mais recente livro escrito por Teresa Paula Marques, “Educar com Amor e Firmeza”. Tanto este livro como os de Jorge Rio Cardoso fazem parte do Clube do Livro SIC.

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Os dois profissionais ouvidos desvalorizaram o impacto do programa e colocaram em causa a alegada violação dos direitos de imagem das crianças defendida pelo Ministério Público. Jorge Rio Cardoso, que inclusivamente apresentou o último livro da apresentadora de “SuperNanny”, disse em audiência que nos dois episódios testemunhou “comportamentos normais de crianças, alguma má educação e, eventualmente, alguns excessos”. O docente universitário, que admitiu em tribunal conhecer profissionalmente Teresa Paula Marques, considera que o programa não “castiga” e que “não há exposição negativa da criança”, apresentando uma opinião em muito semelhante à da colega de profissão a de que os benefícios do programa ultrapassam os riscos.

O risco relativo à exposição das crianças é um risco que está equilibrado com a oportunidade de melhorar a vida das pessoas e é isso que quero valorizar. O risco não se transformou num dano, neste momento, passados dois meses, o que me interessa é que as crianças estão bem, as famílias estão bem”, disse Teresa Paula Marques na última sessão.

SuperNanny: Teresa Paula Marques pediu parecer à Ordem dos Psicólogos e avançou mesmo com uma resposta negativa

“Não posso dizer que não há riscos. Pode haver aqui algum custo porque há exposição, que não considero ser negativa. O custo que vejo na exposição é largamente compensando pelo benefício de a criança passar a ter regras”, defendeu Jorge Rio Cardoso, garantido que a criança não corre o risco de ficar traumatizada. “A exposição não é estigmatizante, os comportamentos são normais.”

Uma opinião em muito semelhante à da ex-jornalista Cristina Valente, que acrescenta que aparecer na televisão, num formato como o de “SuperNany”, tem “uma relevância muito menor do que há dez anos”. “Os miúdos estão habituados a tirar selfies e a ter canais de Youtube. Sinceramente, do ponto de vista da neurociência, aquilo que pode ser prejudicial está no significado que as pessoas dão.”

Na verdade tem tudo ver com o significado que damos. É assim que se criam os comportamentos. Posso dar um significado positivo ou negativo. As crianças das idades dos mais pequenos [que apareceram no programa] têm, nesta fase, descargas emocionais intensas. Uma birra é sempre uma descarga emocional.”

Questionadas pela requerida Warner Bros. TV Portugal, ambas as testemunhas reconheceram a existência do parecer emitido pela Ordem dos Psicólogos Portugueses sobre os efeitos nefastos associados à exposição das crianças em formatos televisivos como o de “SuperNanny”. Ambos disseram que não o leram. Testemunharam ainda não conhecer nenhum estudo psicológico capaz de provar a existência de um nexo de causalidade tendo em conta a participação neste tipo de programas e algum dano psicológico provável ou certo nas crianças.

A Ordem dos Psicólogos Portugueses divulgou um parecer em janeiro último sobre o impacto da exposição de crianças e jovens em reality shows, equiparando-o a um possível “abuso emocional”. No documento, que cita vários autores, falava-se ainda em perturbação do comportamento.

Exposição de crianças em reality shows pode ser “abuso emocional”

Tanto Jorge Rio Cardoso como Cristina Valente afirmaram ainda que as técnicas aplicadas por Teresa Paula Marques no programa, onde se apresenta apenas como educadora, podem ser postas em prática por pessoas que não os psicólogos.

Técnicas aplicadas em SuperNanny “violam princípio da competência”

Contrariamente ao que foi alegado nos primeiros dias de audiências — onde diferentes testemunhas chamadas pelo Ministério Público falaram em “técnicas que violam o princípio da competência” e de um programa que “viola de forma grosseira e grotesca os direitos das crianças” e que expõe “as crianças da pior maneira possível”–, a psicóloga, testemunha arrolada pela produtora, considerou ser “muito pouco provável” advir algum efeito negativo da exposição mediática a que as crianças que participaram no programa SuperNanny foram sujeitas.

Para o próximo dia 7 de maio estão agendadas as alegações finais.