O Bayern é daquelas equipas que consegue fazer na vida real aquilo que alguns fãs de Championship Manager (assim mesmo, o antigo, antes de aparecer o Football Manager) faziam há uns 20 anos no jogo virtual: já tinham a melhor equipa, andavam a ver quem eram os melhores jogadores do seu Campeonato nos conjuntos adversários e juntavam todos num mega plantel que não dava a mínima hipótese no plano interno. E foi assim um, dois, três, quatro, cinco anos consecutivos, com Jupp Heynckes, Pep Guardiola e Carlo Ancelotti no comando. Depois, algo mudou.

A equipa estava lá toda e era melhor do que qualquer adversário, mas os resultados não apareceram como era normal, houve uma humilhação em França com o PSG (3-0, que podiam ter sido muito mais) e a história de sonho começou a tornar-se um pesadelo por cada página que se ia virando: saíram notícias de cinco jogadores do plantel que queriam empurrar Ancelotti para fora do clube (Ribery, Robben, Müller, Boateng e Hummels, a que se somaram depois Lewandowski e Coman), treinos dos jogadores às escondidas por descontentamento com os métodos utilizados (algo que estava proibido pelo italiano), uma declaração de Robben que dizia que o filho de nove anos tinha sessões de trabalho mais exigentes, conversas privadas com Thiago Alcântara ou James Rodríguez que caíram mal. Em dez anos, só por duas vezes os bávaros tinham mexido a meio da temporada; esta foi a terceira.

Algo vai mal no reino do Bayern (e até havia jogadores que treinavam às escondidas do treinador)

Enquanto os ânimos andavam exaltados na Allianz Arena, Jupp Heynckes, campeão alemão e europeu (ganhou ainda a Taça e a Supertaça) em 2013, gozava o seu quarto ano de reforma descansadinho com a mulher na pequena vila de Nordhein-Westphalian quando foi desafiado para “salvar” o Bayern, que se encontrava a cinco pontos do primeiro lugar e numa posição pouco confortável na Liga dos Campeões. Aos 72 anos, aceitou.

Bayern. Não há muitos técnicos de 72 anos e só há um como o ex-reformado Heynckes

Em poucos meses, tudo mudo: Osram (sim, aquela famosa produtora de lâmpadas), como também é conhecido o treinador por ficar com a cara bem rosada nos jogos ou nas conferências quando se chateia mais a sério, acaba de garantir o hexacampeonato do Bayern, após uma goleada por 4-1 no terreno do Augsburgo (Niklas Suele marcou primeiro, mas Tolisso, James Rodríguez, Robben e Sandro Wagner deram a volta). Mas atenção, não vai haver margem para grande festa a não ser umas garrafas de champanhe no balneário: nas meias finais da Taça da Alemanha e nos quartos da Liga dos Campeões, Heynckes quer mais títulos antes da nova reforma… aos 73.

Com um Borussia Dortmund ainda à procura de acertar passo e o RB Leipzig a perder muitos pontos também por causa do percurso em termos europeus (fez a estreia na fase de grupos da Liga dos Campeões e está nos quartos da Liga Europa), o Bayern teve como último adversário o Schalke 04, atual segundo classificado, assegurando o título quando faltam ainda jogar cinco jornadas até ao final da época. E com outra curiosidade: foi o oitavo título desde que nasceu a Allianz Arena, em 2005, e mais uma vez chegou com os bávaros a jogarem fora de Munique.

Quando chegou ao clube, Heynckes impôs algumas regras novas como a limitação do uso de telemóveis na sala de estar, nas zonas de massagens e à mesa; a prática de fazer as refeições após o trabalho no centro de treinos; a obrigatoriedade dos jogadores deixarem o balneário limpo e arrumado todos os dias ou um maior rigor em relação aos atrasos em cada concentração. Objetivo final: promover um melhor espírito de grupo. O resultado está à vista e nem a conquista do título alterou essa disciplina do experiente técnico, que não quis camisolas alusivas à 28.ª Bundesliga e dispensou a viagem de avião de regresso em detrimento do autocarro, como costuma ser normal.

Um troféu já está, agora as atenções estão centradas na Taça da Alemanha (o Bayern vai jogar fora com o Bayer Leverkusen nas meias-finais) e na Liga dos Campeões, onde os bávaros ganharam em Sevilha na primeira mão dos quartos por 2-1. No final da temporada, Heynckes regressa à sua reforma. E a um “estatuto” discreto como contou antes deste jogo com o Ausburgo: já depois do final da conferência de imprensa de antevisão da partida, o técnico voltou atrás, sentou-se na mesa e relatou uma história que se tinha passado nessa manhã. “Costumo acordar cedo e desci para o hall de entrada do hotel quando de repente entrou um casal no elevador. Como estava com um saco do Bayern, perguntaram-me se era fã do clube. E eu disse que sim!”, revelou entre risos, para rematar com uma confissão: “Tenho de assumir que é bom quando alguém passa por nós e não nos reconhece”.